Aline Prúcoli de Souza estreia na ficção com o livro ‘pustulâncias: menina bruta’

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Diante da impossibilidade de atribuir um gênero a pustulâncias: menina bruta, livro que marca sua estreia literária, a escritora Aline Prúcoli de Souza não hesita em chamá-lo de “degenerado”. A obra, a ser lançada nesta quinta-feira (23/11), na Cousa Café e Editora, Centro de Vitória, tem a temática da degenerescência humana como mote, a propósito.

“Escrito em uma primeira pessoa bastante secundária e marginal, Enila (e suas personas) expõe, nesta espécie de escrita de si anti-lírica, as pústulas fétidas, porém róseas, de que é feito seu corpo-letra e confessa as desventuras do feminino maculado, amargo e, no entanto, meninil que a habitam. É um percurso verbal que cintila uma negação em sua origem, mas nos permite alcançar o amor antes de seu derradeiro ponto final”, afirma a escritora.

Primeiro livro de ficção de Aline Prúcoli de Souza, pustulâncias: menina bruta nasceu de uma vontade da autora de transformar memórias (especialmente afetivas) em literatura e, ao mesmo tempo, denunciar as mazelas sociais de que ela foi vítima ou que testemunhou ao longo da infância e da adolescência.

Escrita em 2013, a obra tomou cerca de três meses da autora e chegou a concorrer ao Edital de Literatura da Secult-ES, no ano seguinte, tendo recebido o primeiro lugar suplente na categoria “Autor Estreante”.

“O livro foi escrito muito rapidamente, como um ‘vômito’, num jorro desorganizado, caótico e catártico. Relembrar os fatos (vividos por mim e por outros) foi, obviamente, desconfortante. Mas transformar os mesmos fatos em ficção, inventando falas e ações, modificando cenas e sequências e criando personagens e temáticas foi muito divertido e prazeroso. Nesse sentido, o livro aconteceu com muita facilidade como uma súbita gargalhada. O caráter de inventividade, de ficcionalidade do texto é tamanho que não deixa brechas para que o leitor identifique se são ou não e quais são ou não os fatos verídicos ou fictícios. O livro representa todos aqueles que são marginalizados, violentados, silenciados e estigmatizados por uma sociedade perversamente patriarcal, através de seus sistemas microfísicos de controle de corpos”, diz Aline.

Desprendido de gênero, pustulâncias: menina bruta explora variadas possibilidades formais, e a autora atribui isso às muitas influências literárias que recebeu ao longo da vida, entre as quais cita Hilda Hilst, Fausto Fawcett, Manoel de Barros, Leonora Carrington, Glauco Mattoso e António Lobo Antunes. Afora as influências mencionadas, a estrutura de pustulâncias: menina bruta deve-se também à necessidade da autora de descobrir ou de inventar seu próprio estilo de escrita. Mais do que um objeto, Aline ressalta, o livro se tornou uma experiência.

“Ele é o resultado de um processo muito pessoal e nada acadêmico de investigação discursiva, sintática, semântica, enfim, linguística. A curiosidade pelas obras híbridas sempre me moveu e foi, sem dúvidas, o meu ponto de partida. Sempre tive muita dificuldade em construir e manter formas, estruturas e conjuntos fechados e sempre tive muita facilidade em me perder, errar, divagar, desarranjar e enxergar as diferenças, insignificâncias e invisibilidades. Daí a resistência à norma culta e aos gêneros ‘puros’. Daí também o gosto pelo chulo e pelo considerado feio. Não houve qualquer tipo de planejamento estrutural para a construção do livro.”

Aline afirma que o livro se fez, simplesmente, e tomou a forma que quis, de acordo com a necessidade de cada “ilha”, ou “bolha”, ou “pústula” temática. Para ela, o livro é muito mais do que um marco que registra ou seu nascimento como escritora. “Ele é uma potência, uma chave com a qual me desconstruo para melhor habitar os espaços em que circulo.”

Além de escrever, Aline gosta também de desenhar. A capa de pustulâncias: menina bruta é uma reprodução de sua primeira pintura, e algumas das ilustrações que estão no livro também foram feitas pela autora. “Por isso o subtítulo, ‘menina bruta’. Nesse livro, tudo está em processo de lapidação. Eu ainda estou em estado bruto, como escritora e, mais ainda, como ilustradora. Mas preciso deixar claro que, no que se refere à minha produção dita ‘plástica’, estou ainda mais fora dos espaços de renome artístico, pois não consigo produzir nada que ‘preste’, segundo os ideais canônicos dos estetas de plantão. Somente meus amigos e familiares, eu acho, gostam dos meus desenhos (risos).”

Aline Prúcoli de Souza – Foto de Nicolas Soares

Aline Prúcoli de Souza (Foto de Nicolas Soares)

Aline Prúcoli de Souza nasceu em Vila Velha, em 4 de maio de 1984. É licenciada em Letras Português/Inglês pela Faculdade Saberes de Vitória e é doutora em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo, onde desenvolveu pesquisa sobre a relação interartes (literatura e pintura) na obra do escritor português António Lobo Antunes. Atualmente, desenvolve projeto de pós-doutorado no Departamento de Pós-Graduação em Artes pela mesma universidade, espaço onde dá continuidade à pesquisa doutoral, dedicando-se a compreender a relação entre literatura, fotografia e filosofia. Publicado pela Editora Cousa, pustulâncias: menina bruta é seu primeiro livro.

pustulâncias: menina bruta
Aline Prúcoli de Souza
Editora Cousa, 108 páginas
Preço: R$ 30,00
Lançamento: 23 de novembro (quinta-feira),
das 19h às 21h, na Cousa Café e Editora
Rua Sete de Setembro, 415, Centro de Vitória

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