Caio Augusto Leite: A necessidade das formas

 

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É comum, atualmente, ouvir que certas formas literárias estão ultrapassadas. Uma das que sofrem esse tipo de ataque é o romance e, mais especificamente, o romance de formação. Gênero que nos legou clássicos como Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe; David Copperfield, de Charles Dickens; Demian, de Herman Hesse; O retrato do artista quando jovem, de James Joyce; entre tantos outros, o romance de formação tem como premissa a observação da vida de uma personagem desde seus anos iniciais até sua maturidade.

De fato, se tantos autores consagrados já escreveram seus romances de formação, quase que esgotando as possibilidades de movimentação dentro da forma, qual o sentido de continuar a escrevê-los? Primeiro, os detratores do gênero se esquecem de que o uso de um recurso por um grande escritor não deve intimidar os escritores posteriores a ele, se assim o fosse, jamais Joyce ou Hesse teriam se aventurado a escrever seus romances se a sombra de Goethe pesasse de forma definitiva sobre eles. Segundo, a humanidade muda, as sociedades mudam, a maneira de viver muda, e o modo como um ser humano se forma também acompanha essas mudanças. Terceiro, há uma diversidade de vozes que nunca ou poucas vezes se viram representadas por determinadas formas de expressão. Fica a pergunta: dos grandes romances de formação quantos foram escritos por mulheres falando sobre mulheres? Não possuo dados científicos, mas arrisco a dizer que há bem menos do que o número de obras escritas por homens falando sobre homens. Daí o título desse texto.

As formas são necessárias, pois do intervalo que separa o surgimento da escrita até o presente momento, é absurdamente inferior o número de obras escritas por grupos marginais em relação aos grupos detentores de poder. São casos específicos como o do nosso Machado de Assis – negro criado por pessoas com acesso à cultura de elite – que possibilitam que representantes de tais grupos vez ou outra consigam se expressar artisticamente e sejam reconhecidos por isso.

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O peso do pássaro morto, de Aline Bei, é um desses casos. Aqui o romance, escrito majoritariamente em primeira pessoa, perpassa a vida de uma mulher desde seus oito anos até o seu falecimento.

O modo inventivo com que Aline usa a forma romance mesclando-a com a poesia e até mesmo com elementos de teatro me remete imediatamente a outro romance de formação de mulher e escrito por mulher: Perto do coração selvagem (1943), de Clarice Lispector. Assim como no livro de Clarice, o de Aline tem um início marcado por uma forte carga poética típica do olhar infantil (o poema de Joana em Clarice/ As cartas para Carla em Aline, por exemplo); ambas passam por perdas decisivas (Joana perde o pai/ A menina perde a amiga Carla); ambos os livros abusam de saltos temporais (no de Clarice o tempo é não linear/ em Aline o tempo dá saltos ora curtos ora longos).

Ao fim da primeira parte, porém, os dois romances se separam e Aline segue por um caminho diferente, pois é uma mulher diferente que fala, de um tempo diferente; alguns anseios se mantêm, outros surgem. O livro perpassa temas como o estupro, a falta de amor que uma mãe pode ter por um filho, a frustração profissional, a solidão da maturidade, uma alegria inesperada em forma de cão (o mesmo tipo de animal que matara Carla, mostrando como signos são fármacos, o que nos faz mal também pode nos fazer bem), a tragédia, a depressão e a morte.

O que não se perde jamais em Aline, como boa descendente daquele inovador romance que tão bem impressionou Antonio Candido, é a segurança com que impõe seu ritmo de escrita sobre o papel; em nenhum momento Aline abre mão de seu estilo – estranho num primeiro momento, mas que logo se torna familiar, como uma pulsação que nos parece desregulada, mas que tem sua lógica interior.

Ao final do livro emerge uma terceira pessoa que nos relata algumas poucas coisas após a morte da personagem. Apesar de ficarmos com a impressão de que a vida daquela mulher sem nome foi sem sentido, essa impressão de que havia uma vida que poderia ter sido e que não foi (e quase todas as vidas não são assim?) é menos culpa da personagem do que do momento e ambiente em que ela vive. Se Pedro tinha aquele ciúme doentio é porque há um discurso que diz que a mulher é posse do homem, se Pedro acaba impune de seu crime é porque mulheres ainda sentem dificuldade em denunciar abusadores, se a personagem “optou” por ter o filho é que aborto ainda é tabu na sociedade brasileira e por aí afora.

O romance de Aline pode ser chamado de formação, mas dentro do próprio gênero surge a discussão: é essa a formação que está destinada às mulheres, é essa a formação que elas querem? O livro retrata uma formação possível, não uma formação ideal e aí está o seu acerto. O livro poderia contar a história de uma mulher bem-sucedida e sem traumas? Poderia, mas estaria falando de uma exceção e o perigo da exceção é ela ser vista como prova de que a regra é produto da falta de vontade e não do sistema em que vivemos.

O ótimo romance de Aline Bei, por exemplo, é uma exceção, mas isso não quer dizer que outras mulheres não precisem mais escrever. Não só precisam, como é necessário que escrevam.

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