Santiago Santos: Das excursões da memória

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A van estaciona na frente do camelô, em uma vaga apertada que faz raspar as calotas nas tartarugas. O guia desce, abre a porta, o grupo vai saindo aos poucos. Alguns usam chapéu de aba larga, vários usam óculos de sol, uma senhora abre o protetor solar e passa nos braços. Ele anda até o semáforo e aguarda o verde da faixa de pedestres. Atravessam. No elevado da Prainha que é a espinha da avenida, o guia se coloca de frente pro ponto de ônibus. Há um casal de jovens com uniforme escolar, duas mulheres e um homem no banco enferrujado. A cobertura com a propaganda do SICREDI acima de suas cabeças projeta uma sombra do outro lado da avenida, a manhã ainda criança. Todos observam o guia, que limpa a garganta e faz um gesto abrangente com a mão, em arco, encapsulando todo o ponto de ônibus nos dedos.

— Aqui o Fernando conheceu a Maria. Ele estudava no Liceu Cuiabano, na oitava série. Ela na sexta. Fernando morava do lado de lá da avenida, depois da 15 de Novembro, no Porto, e Maria morava com a família do lado de cá, no Dom Aquino. Fernando ofereceu uma bala de canela, a garota aceitou. Sentaram juntos no ônibus e conversaram sobre a escola, os professores e a merenda. Mas foi a única vez em que se falaram assim aqui, com tanta liberdade. Nos outros dias, Maria vinha acompanhada de Julia, a vizinha, que aquele dia estava gripada.

— E quando a vovó começou a namorar o vovô? — pergunta um dos garotos da excursão.

— Anos mais tarde, quando se reencontraram no Mercado do Porto. Vamos chegar lá ainda. Alguma outra dúvida?

Silêncio. O guia novamente faz o movimento encapsulador e dá uns passos pra trás. Boa parte do grupo tira os celulares dos bolsos e bolsas e bate algumas fotos. As pessoas sentadas no ponto observam desconfortáveis, uma das mulheres se afasta. Logo um ônibus chega e parte delas entra. Passado o furor, a excursão volta pra van. O guia senta atrás do volante.

— Agora vamos na casa em que Fernando morava nessa época, aqui pertinho. Todo mundo bem? Alguém com sede, precisa ir ao banheiro? — balançadas de cabeça. — Tá certo.

A van dá a ré e faz o contorno na Prainha, atravessando a 15 de Novembro e andando pelas ruas estreitas e antigas do Porto.

— E quando é que a gente vai pro enterro? — volta a perguntar o neto.

— Acabando o tour, no fim da tarde — o guia olha a mãe do menino, no banco ao lado dele, limpando lágrimas com um lencinho. Ela percebe seu olhar e arma um sorriso. Puxa o celular da bolsa e dá na mão do filho.

 

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Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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