Na nossa cara. Por Juan Quintero Herrera

Conto que faz parte do livro En nuestras caras (Hadriaticus Editores, 2016), de Juan Quintero Herrera, traduzido por Evelise Santos, e publicado com exclusividade no Livre Opinião.  Leia abaixo:

En-nuestras-caras

 

Pelas persianas, observei que ele os vigiava e, de tempos em tempos, virava o olhar para mim. Era Ricardito, o estranho do bairro. Ninguém notou sua conduta vigilante porque a estranheza era condição natural dele e todos haviam escolhido ignorá-lo. Eu tampouco suspeitei. Tanto ele quanto eu observávamos os brutamontes da empresa de Água e Esgoto, que, no primeiro dia, fecharam a rua com cones laranja e começaram a quebrar o asfalto com aquele barulho estridente, que foi o único alerta a esse bairro de mortos, de ruas desertas, de noites de luzes frívolas e sem a caridade de ninguém. Arrebentaram a rua durante toda a manhã dessa segunda-feira de verão tirando de seu torpor habitual ao velho Carlos, o vizinho do lado, que sentava-se em sua cadeira de plástico para ver de sua varanda o mundo passar e passar, e que foi o único a ter coragem de enfrenta-los, porque nem sequer nós, que reclamávamos com frequência da atitude apática do bairro – mas falando entredentes – nos atrevemos a dizer algo para esse trio de mastodontes bronzeados com seus macacões rústicos, semelhantes aos da empresa de água.

Em casa, o primeiro a incomodar-se foi meu pai, que esbravejava do quarto que não conseguia escutar as notícias. Em seguida, foi Mario Ricardo, meu irmão, o estandarte do sono, mais folgado que colarinho de palhaço; que despertou exaltado pelo barulho, disse três impropérios, e voltou a dormir. De minha parte, olhei pela janela e vi escondido por detrás da cortina, em sua janela, a Ricardito, que os observava.

Esse primeiro dia de trabalho terminou quase às seis da tarde, e seu produto foi um buraco (digno de engolir um carro) na rua (bem em frente à nossa casa) e umas fitas amarelas com as quais o cercaram contendo o aviso: “não ultrapasse”. Todos os moradores do bairro fingiram que nada tinha acontecido e continuaram com sua rotina que, para dizer a verdade, era a de passar despercebido. Quanto aos carros, seguiram transitando pela faixa livre os mesmos de sempre, dos vizinhos de sempre: o coupé cinza da gorda licenciada em psicologia que mora a três casas da nossa, a caminhonete verde do professor Franco −o velho manco e sinistro da esquina – e o Fusca vermelho de um vizinho que passa tão despercebido que até hoje não sei o seu nome.

Se passou uma semana inteira para que os operários fizessem o buraco e se fossem. Nos primeiros dias, os três sujeitos chegavam em turnos de oito ao meio-dia e duas às seis, e ainda que alguns vizinhos lhes dirigissem olhares desconfiados, ninguém se atrevia a perguntar o que estavam fazendo; o que não era de se estranhar, já que no bairro, ou ao menos na quadra, ninguém se interessava por ninguém. Alguns se cumprimentavam com acenos quando passavam pelas portas das casas uns dos outros, e outros preferiam simplesmente se fazer de “não é comigo” para evitar estabelecer relações com estranhos.

No nosso caso, sim, sabíamos ao menos os nomes e sobrenomes dos nossos vizinhos contíguos e da frente, porque eram os únicos que não haviam se mudado desde que chegáramos ali, há cerca de trinta anos. Não eram os melhores vizinhos que se podia ter na vida, mas eram nossos vizinhos. É como família, que não se escolhe, simplesmente é, boa ou má.

Foi assim que, querendo ou não, vimos crescer a Ricardito, que já não era Ricardito. Há 30 anos, sim, era um menininho imberbe e estúpido, e quando aconteceu o que aconteceu, podia ser o mesmo, mas 30 anos mais velho. Ele era uma peça do quebra-cabeças de sua família desajustada e sui generis.

Talvez eles também nos considerassem de forma parecida. Sua mãe era parteira em seu povoado, e, quando veio para a cidade, trouxe consigo papagaios, cães, gatos, libélulas e qualquer outro bicho que ela considerava mascote e doméstico. Também havia sua irmã puta, que se fazia de santa, e que fez, enquanto pôde, em frente à sua casa, uma fila de namorados e pretendentes, até que nessa quadra sombria e imutável começou a correr o rumor de um lupanar. Por último, encabeçava ao lugar o velho Antonio, o procriador do tumulto, que não deixava de ter suas peculiaridades por debaixo de um olhar de sapo afogado, fruto do estrabismo; defeito que as más línguas atribuíam à sua adolescência dedicada a espiar vizinhas nuas através das rachaduras e janelas das casas.

Tudo eram rumores porque em nossa rua se sabia mais por suposições que por verdades, e, em meio a essas incertezas, nos inteiramos de que a irmã “perna aberta” de Ricardito, a quem chamavam Anorra, já tinha dado à luz duas filhas sem pais, e que a mais velha, com não mais de 15 anos, estava começando a trilhar os passos da mãe.

Também foi inevitável ouvir a fofoca do velho Antonio: que acalmava as quenturas de seus membros pagando menininhas miseráveis do povoado de sua mulher. Impossível também ignorar o fato de que Ricardito – o grande protagonista dessa história – durantes esses anos, fora adquirindo uma série de práticas e vícios próprios de sua condição. Primeiro foi aquilo de caçar mariposas nos jardins dos vizinhos, por volta dos seus 20 anos, aquele não parecia ser o hobby mais adequado para sua aparência e idade.

E digo isso da aparência porque já desde esses tempos carregava uma sisudez de velho que assustava a todos quando o viam em sua caça infortuna; o que mais do que uma vez fez com que fosse confundido com um ladrão ou pervertido, e por tal razão submetido à ordem policial. Depois foi a sua paixão desenfreada pela sétima arte, e via-se-lhe ir e vir caminhando com o calor das manhãs para aproveitar as matinês na Cinemateca, onde entrava-se em duas sessões por um Peso. Tanta foi sua obsessão que, como único gesto heroico de sua vida, conseguiu persuadir ao gerente de um cinema a emprega-lo. E foi meu pai que trouxe a notícia do ano porque tinha visto Ricardito, vestido com calça e camisa, trabalhando no cinema, atendendo clientes, e de pé na entrada para ver o filme. Logo ficamos sabendo que o heroísmo durou pouco, pois o demitiram, e, faz algum tempo, teve que abandonar sua paixão também por necessidade física, pois estava ficando cego de tanto ler legendas de filmes americanos e franceses.

“Isso é coisa de família porque o velho Antônio é vesgo”, disse alguém em casa quando ouviram que Ricardito usava óculos devido à sua acentuada cegueira.

No mais, a vida seguiu seu curso; e os problemas, as discussões, os risos e o pranto de nossos vizinhos mais próximos ficaram em segundo plano, porque já não chamavam nenhuma atenção. Não havia nada demais em ver Ricardito fazendo de um cachorro de rua o seu Sancho Panza, ou saber que tinha se tornado um especialista em consertar telefones de disco quando mais ninguém os utilizava, ou que em um outubro ficássemos sabendo que era psicólogo e que tinha se formado havia seis anos.

 “Se é psicólogo, o primeiro paciente a analisar deve ser ele mesmo”, disse a minha mãe, “porque esse não tem um parafuso, mas toda a caixola solta”.

E meu pai acrescentou: “esse menino não é louco, mas bobo, faltou-lhe oxigênio no cérebro durante a gravidez”.

Ainda que com suas loucuras e excentricidades, todos aqui de casa o cumprimentávamos efusivamente quando ele se permitia ser visto (principalmente eu, que inexplicavelmente o estimava), porque em mais de uma ocasião ele havia ido embora de sua casa – ou isso pensávamos nós – e passávamos meses sem saber dele. Mesmo quando o vi naquela tarde: ele apareceu em cena quando eu podia jurar que tinha ido embora para sempre. Estava idêntico, com seus óculos de tartaruga da armação grossa e lentes de fundo de garrafa que o faziam ainda mais indecifrável. Estava ali em sua janela e, quando se deu conta de que eu lhe observava, fechou a cortina. Na hora, pensei que Ricardito estava tão desconfiado quanto eu daqueles sujeitos que irrompiam com suas máquinas estridentes a calma habitual do bairro.

Mas não foi bem assim. Me surpreendi ao vê-lo, no terceiro dia de reparos, caminhando devagar e olhando para todos os lados – como quem não quer ser visto − até aproximar–se de um deles e trata-lo com certa familiaridade: um tapinha no ombro e um sorriso.  Ele devia jurar que ninguém o tinha visto e seguramente assim teria sido se não fosse pelo fato de que os patifes assim que chegaram me passaram um ar de incredulidade.

No quarto dia, o barulho parou e tudo voltou a certa tranquilidade pois os sujeitos pararam de arrebentar a rua e começaram a escavar os buracos feitos. Para nós, a obra era incômoda porque os escombros caíam na nossa calçada, estorvando a nossa entrada e saída.

Os escombros também prejudicavam a família de Ricardito e eu estranhava que eles, os pais de Ricardito, não tivessem colocado a boca no mundo, já que eram os seres mais melindrosos e linguarudos que se podia conhecer. Era difícil aceitar o velho Antonio tão tranquilo sendo que não podia estacionar sua antiga e suja caminhonete que mais parecia um pau de arara.

Além disso, me dediquei a seguir as pistas dos trabalhadores sempre que possível, mas certamente me escaparam muitas coisas nos momentos em que tive que sair ou quando ia almoçar. Minhas saídas são o primeiro argumento para que isso tenha acontecido, mas é que eu não contava com o fato de os crimes se tecerem em dois turnos. E depois de uma semana de haverem começado o trabalho, os sujeitos não voltaram mais – como já disse antes – e deixaram um buraco escabroso com uma fita amarela que dizia “perigo”, e realmente, sim, era perigoso.
A prova foi que ali caiu um gato velho que morreu no fundo rochoso.

No último dia de obras, eu só vi um dos operários, e, de acordo com o Sr. Carlos, foi apenas para colocar a fita com o aviso de “perigo”… ah, e outra de “proibido ultrapassar”.

Mas esse aviso foi colocado com data indefinida porque se passou um dia, dois, três, quatro, já nem sei quantos, e ninguém vinha corrigir o problema; e então tive que meter a cara porque não só o buraco começou a ceder e ficar maior, mas se ameaçavam sobre ele chuvas torrenciais com desenlaces catastróficos. Em acordo democrático, decidimos em casa que a primeira coisa a fazer não era consultar a Companhia de Água e Esgoto, mas saber porque os vizinhos não haviam se queixado. Essa foi a razão pela qual eu fui à casa da frente; lugar para mim sempre misterioso.

Depois de tocar a campainha várias vezes, Ricardito abriu as cortinas e ficou estupefato ao me ver, como se tivesse visto um fantasma. Com as mãos trêmulas e uma voz entrecortada, me cumprimentou, e eu presumi que seu estado nervoso acentuava uma loucura incipiente. Ademais, gaguejava, e se não fosse de se esperar qualquer coisa vinda dele, eu acreditaria que estava escondendo alguma coisa.  Mesmo assim, eu mencionei o problema dos escombros, e ao perceber seu estado deplorável, considerei mais apropriado discutir o assunto com seu pai. Contudo, ao escutar isso, Ricardito mudou de repente, como se o que eu houvera dito lhe obrigasse a dar o seu melhor. Deixou de gaguejar, e com uma segurança de juiz sentenciou em voz alta e firme que esse era um problema quase resolvido: “esta manhã mesmo registrei a queixa na ouvidoria de serviços públicos e garanto que antes do fim de semana tudo estará resolvido”.

Essa foi sua resposta e a deu com tanta convicção e certeza que eu fiquei logo pensando se era realmente tão louco, porque há alguns loucos que para estarem loucos têm que ser muito sãos.

 Tentando esquecer o assunto, passamos a semana esquivando-nos das pedras e buracos, todavia, além disso, que se tornou algo mecânico, perdemos a noção do tempo. Para nós era irreal, como se o entorno imutável tivesse dado ao tempo uma cronologia sem sentido, ao ponto de pensar em dias repetidos. Meu pai duas vezes confundiu as quintas com as terças, e nos invadiu a todos em geral um torpor insuportável que nos enclausurou em casa, acreditando na pronta resolução de tudo pelo curso normal dos acontecimentos.

De sua parte, os vizinhos próximos começaram a sair pela outra esquina da quadra, e então percebi que a apatia com que se lidava com isso ia pouco a pouco tomando conta da situação. Até mato começou a sair dos escombros, e o orvalho tênue das noites provocou uma nuvem de mosquitos sanguinários que invadiram nossa casa.

Logo veio outra semana e pensei em procurar por Ricardito para solucionar o problema, mas reconsiderei, pois nunca havia confiado nele, e comecei a considerar a hipótese de sua resposta ter sido apenas uma artimanha de sua loucura. Estava resoluto de que devia dar uma solução à situação e tirar minha família desse conformismo doentio. Meu pai essa semana se esqueceu de sair para sua caminhada das quintas, em parte por crer que esse dia era terça. Minha mãe que pela idade já começava a ter medo da rua, nesse mês não saiu para receber a pensão, esperando que arrumassem tudo logo. Também deixamos de ler o jornal porque o entregador parou de passar. A qualidade da comida também estava ficando inferior porque a despensa foi se esvaziando e ir às compras era uma odisseia que ninguém queria realizar. Nosso limite chegou numa manhã em que nos demos conta de que estávamos encarcerados em nossa própria casa fazia três dias tomando água com açúcar e comendo torradas velhas. Nesse dia, quebrei o feitiço, voltei a dar a cara a um sol milagroso que recarregou minhas energias entocadas, tomei um banho matinal, fui buscar no mercado os alimentos que faltavam em casa e depois de um café da manhã americano, fui à ouvidoria de serviços públicos.

Depois de uma longa fila de reclamações típicas que terminaram quase ao meio-dia, chegou minha vez. Não me surpreendia que ninguém houvesse registrado uma queixa pela demora da obra em nosso bairro (confirmação de um Ricardito dissimulado e mentiroso), mas me surpreendeu a atitude da mulher que me atendeu quando eu fiz a requisição: “um buraco aberto no Nogal!? Não pode ser, esse é o bairro mais enfadonho do mundo, faz anos que nada acontece ali, parece um bairro de mortos, não se quebra sequer um cano, nem se solta uma única arruela de uma fonte”.

A segurança da mulher era tanta que não me restou dúvida. Pelo contrário, ela, assombrada com o que ouviu, levou-me ao seu chefe, que por sua vez encaminhou minha denúncia imediatamente à polícia.

No dia seguinte, não se fizeram esperar os depoimentos. Chegaram à nossa casa inspetores, agentes, auditores e fiscais que também surpreenderam aos outros vizinhos com interrogatórios. Ninguém deu maiores pistas, exceto por Ricardo Antonio de la Asunción Cruz: nome completo de Ricardito. Na verdade, nos surpreendeu tanto seu nome completo como tsua maturidade para contar o sucedido: “É que nunca vieram aqui para consertar nada! Aqui a justiça é incompetente”, gritou Ricardito em plena rua aos inspetores com segurança descomunal. E um dos inspetores, surpreendido pelo tom de denúncia, perguntou: “E por que o senhor diz isso, aqui por acaso alguém apresentou uma queixa”? E Ricardito, que havia impressionado a quase todos, mas não a mim, disse: “Claro, eu mesmo fui à ouvidoria de serviços públicos”. “Bem, senhor, então tem algo muito estranho aqui, porque não há nenhuma reclamação nos registros oficiais e o senhor vai nos servir de testemunha em tudo isso, porque aqui se configuram vários delitos”.

Por isso, por falar mais que devia, Ricardito foi indicado pelo investigador como testemunha principal. E desde então o perdemos de vista, e todos acreditávamos que estava sendo importante na elucidação do enigma.

Para nossa surpresa e de todo o bairro, Ricardito caiu nas mãos do judiciário antes do fim do mês. Nós o vimos deixando sua casa algemado e acorrentado, porque, segundo disseram os homens da lei “o sujeito apresenta um quadro psicótico agudo”. Saiu tão impotente e miserável que nenhum de nós podia deixar de sentir compaixão. Seus óculos tinham a armação de tartaruga arrebentada e remendada com fita crepe, também lhe acompanhava um hematoma no olho esquerdo e sua mãe descompensada e agarrada a si pela cintura, gritando incoerências ininteligíveis entre soluços e disparates.

“Se essa senhora não o soltar, a levamos também na viatura como louca”. Os oficiais não imaginaram que essa era justamente a sua intenção, e como não se desprendeu de seu filho, por lógica, puseram-na também na viatura.

Aquele foi um escândalo tão grande para uma rua tão morta que ao fim conhecemos vizinhos que nunca havíamos antes visto. Eles se fizeram presentes de suas varandas para contemplar o espetáculo. Depois que levaram filho e mãe, todos voltaram a enfiar-se em suas casas como se ninguém conhecesse ninguém.

“Qual é a acusação”? Nos perguntamos em casa, e meu pai disse em voz alta: “Para que levam esse pobre tolo? Nesse país, sempre se metem com os mais fracos”.

 Mas não foi bem assim e não tardou para que começassem a aparecer indícios de que Ricardito não era tão tolo assim. A primeira pista, que nos deixou em alerta e nos pôs a concatenar ideias, veio com o pessoal dos serviços públicos que, dessa vez com macacões estampados e crachás oficiais, no dia seguinte ao show, quando a rua arrebentada foi fechada formalmente, bateu à nossa porta e de outros vizinhos, pedindo desculpas e nos garantindo que dentro de 15 dias os danos estariam reparados.

“Mas, desculpas por quê”?  Perguntou o senhor Carlos, que era, em nossa opinião, o único vizinho confiável que tínhamos no bairro. “Desculpas pela fraude, parece que aqui houve uma”. “Fraude? E o que quer dizer isso? Porque agora sim, não estou entendendo nada”.  “Bem, senhor, desculpe-me”, disse o encarregado do grupo, “mas eu não posso te dizer mais, isso faz parte, segundo nos disseram, de uma investigação inicial, mas assim que for permitido e nos confirmem, lhes diremos”. “Bem, então não peçam desculpas porque os senhores não fizeram nada, a menos que estejam pedindo desculpas de antemão porque vão deixar essa rua pior”.

Dessa forma, o nosso vizinho exemplar resmungou e todos nós o deixamos tomar a frente da conversa, porque era digno de confiança, com essas características de vizinhos que já não existem e que estão dispostos a abrir-lhe as portas de suas casas, oferecer-lhe almoço e jantar, e, se for necessário, que você fique a pernoitar. Algo que sensivelmente não se via por esses dias e menos ainda em nosso bairro.

Desde então, vimos os trabalhadores dedicarem-se com esmero às canaletas da rua, e, antes que acabasse a semana, tudo começou a se restabelecer. Na sexta-feira, no início da tarde, já fechavam as rachaduras do asfalto com piche fervente quando chegou uma patrulha policial com um estampido desafiante, justamente na casa de Ricardito.

Desde que haviam levado Ricardito, a casa se impregnou de um hálito solitário, pois sua mãe nunca regressou. Os admiradores ocasionais e noturnos de Anorra tampouco voltaram e o velho Antonio só chegava à noite, depois das seis, quase como se evitasse ser reconhecido. Porém, nessa sexta-feira o velho havia chegado cedo e teve que enfrentar os policiais vorazes que vinham com um mandado de busca. Disso nós soubemos depois, porque na hora não estávamos em casa, mas no hospital, já que minha mãe, no dia anterior, vindo com umas sacolas do mercado, caíra em uma das poças de mistura de cimento que os trabalhadores fizeram.

O Sr. Carlos nos disse que a polícia revirou a casa em busca de evidências e encontrou um homem desconhecido. Aparentemente mais um dos namorados ocasionais de Anorra, que, na ausência de um cacique, estava fazendo em casa a alegria dos grandes e dos pequenos. A polícia também encontrou cocaína e, por fim, levou ao velho Antonio e ao desconhecido como únicos suspeitos. Por sorte, Anorra não estava em casa.

Já era um fato, de acordo com a fofoca, que Ricardito era a mente criminosa por trás dos danos da rua. Os policiais, como policiais bem tropicais e relaxados que eram, revelaram detalhes da investigação sumária e disseram que esse estúpido com cara de bobo que era nosso vizinho não era tão tonto e havia desenhado um plano quase perfeito para arrebentar a rua, tudo isso segundo as línguas soltas dos policiais, para encontrar um tesouro.

Já pensávamos que ficaria assim a história insólita de Ricardito, que nos deixou cismados e fazendo conjecturas por uma semana inteira, quando no último dia dos reparos da rua, o responsável pelas obras, que havia dito anteriormente que a informação era de investigação inicial, soltou, depois de várias cervejas oferecidas pelo velho Carlos, a fofoca que, segundo ele mesmo, não lhe deixava viver: “Parece que o louquinho contratou os três falsos trabalhadores com a intenção de encontrar um tesouro nas camadas mais profundas da rua”.

Mas a deslealdade do encarregado fofoqueiro não tinha nada de novo e ficamos na mesma. Desde então voltamos ao dia-a-dia habitual, com vizinhos reclusos e escorregadios, com os mesmos carros de sempre trafegando pela rua reparada, e até o entregador voltou com a manchete quente na primeira página embaixo do braço: “Ladrão arrebenta rua por um tesouro”.

E isso foi apenas o começo, porque a notícia tomou proporções nacionais. Primeiro no rádio onde os locutores dos programas de notícias populares faziam a festa inventando coisas, dizendo que Ricardo, um respeitado psicólogo, estava envolvido em um delito sem precedentes. Depois foi a televisão, quando chegaram repórteres, e essa quadra que nunca foi de falar se converteu no epicentro nacional. Entrevistaram a todos nós. Na verdade, não havia muito para contar, mas ainda assim seguiam insistindo.

Para nós, como espectadores principais da história, o que dizia a mídia não trazia nada de novo. O perfil peculiar de Ricardito já conhecíamos, e até eles, depois de não encontrar mais nada e cair em especulações após especulações, foram-se levando suas câmeras e microfones, e levaram também consigo a tormenta que criaram para nos deixar na tranquilidade que já acreditávamos estar perdida.

O final de tudo, se é que teve um final, é que o nosso “vizinho indefeso” foi condenado a oito anos de prisão. Acusaram-no de dano ao patrimônio público e formação de quadrilha. A famosa prova irrefutável nunca apareceu: os mapas coloniais que, segundo os operários cúmplices de Ricardito, ele tinha.

Depois imputaram a Ricardito outras penas em outras cidades por crimes como extorsão, assalto a mão armada e sequestro. Parece que quando passava longos períodos fora do bairro, ia a outras cidades cometer seus crimes.

Por último, e graças a um dos policiais linguarudos que nos contou do plano do tesouro, soubemos que Ricardito oferecia um acordo à polícia se o deixassem livre: entregar os mapas e compartilhar com eles o despojo. Segundo o policial confidente, o comandante “desleal”, “nos bastidores”, “silenciosamente”, estava considerando a oferta.

Da casa dos Cruz não se soube mais nada, graças à ousadia de Ricardito nesses dois meses (que começou na segunda-feira em que os meliantes arrebentaram a rua e foi até o último dia, quando o chefe das obras deu por terminado o reparo com os últimos retoques) que acabou com trinta anos de permanência da família no bairro.

Do evento, que parece remoto e imemorável, primeiramente sinistro e oculto, e em seguida público em demasia, ficou a evidência da casa abandonada como um castelo bizantino, pois os pais nunca mais voltaram. Dizem de sua mãe, que enlouqueceu pelo alcance perturbado das ações de seu filho; do pai, que acabou na prisão como cúmplice; dos animais, que foram morrendo um a um por inanição.  E de Anorra, ah sim, não poderia faltar Anorra, que foi embora com um de seus namorados para a Europa, o qual era irmão do namorado de sua filha mais velha, que também teria ido para o velho continente. Da outra filha não se soube mais nada. Segundo as más línguas, estava perdida, seguindo os passos de sua progenitora.

 

Juan Quintero Herrera

 

Livre Opinião – Ideias em Debate
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