Santiago Santos: O barão sob o castelo

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Mig fez o sinal e ficamos quietos. Pensei que tivéssemos chegado na cripta, mas eu já havia concluído isso antes, mais de uma vez, e o labirinto subterrâneo continuava nos eludindo. Fibá ficou de pé na ponta do corredor pelo qual havíamos acabado de passar, olhando para trás. Fiumara, que carregava o lança-chamas, sentou numa pedra e descansou o maçarico da mangueira nas pernas. Aza parou ao meu lado, o rifle apontando o chão. E Davi, que não largava a sombra de Mig por nada, continuava ao lado dele, a lanterna em uma mão e a outra no crucifixo que carregava pendurado numa corrente ao redor do pescoço.

Eu mal conseguia conceber que havíamos chegado ali embaixo, todos vivos. O jardim do castelo infestado de remendões que engatinharam para fora da terra foi o primeiro susto, seguido dos saguões cheios de diabretes de variadas espécies e tamanhos e a escadaria ladeada de fungos venenosos onde Fibá encostou, sem notar o que era aquilo. Despencou pelos degraus berrando e em menos de um minuto a craca já havia escalado seu pulso e avançava pro torso. A faca de Mig despontou e logo o lança-chamas requentava a lâmina sangrenta para estancar o cotoco na altura do cotovelo. A mão apodrecida no chão e todos em volta, mascando o nada.

Eu não devia ter ido: seria essa a frase que os colegas do laboratório sem dúvida esperariam me ouvir dizer, caso saísse dali com vida. Mas longe da verdade. Ainda que fisicamente inadequado para aventuras do tipo, eu me sentia confiante e realizado, como se fosse essa a recompensa pelos anos de pesquisa e cálculos e diagramas em ambientes retilíneos e assépticos. Enquanto tivesse dois braços, duas pernas, a cabeça no lugar e um grupo tão experiente de homens para me proteger, estava exatamente onde queria estar.

Mig enfim andou, nos chamando com os dois dedos da mão puxando o ar, abrindo caminho com a lanterna. Eu ia no meio do grupo naquele corredor, desviando das pilastras de sustentação que se cravavam na passagem como dentes sujos. Uma boca esfomeada, alguém havia falado na sala de reunião apontando um dos mapas, e aquilo não saía da minha cabeça.

A porta da cripta apareceu repentina, numa das passagens laterais do corredor. Nenhuma outra surpresa barrou nosso caminho. Abriram espaço para que eu encostasse a antena do sonar na madeira embolorada, e na tela apareceu apenas um retângulo no centro de um círculo tosco. Mig testou a maçaneta com a mão embrulhada num tecido. A porta não se mexeu, nem fez barulho indicativo de que pudesse se mexer. Ele então usou a bota, e na terceira tentativa abriu um rombo nela. Aza ficou ajoelhado com o rifle apontado para a abertura e Fibá olhava os corredores. Mig e Davi quebraram o resto da madeira com as coronhas das armas até que conseguimos passar.

Dentro do salão escavado, apenas o túmulo de pedra e um cheiro de limo, a umidade escorrendo das paredes e brilhando no chão. Novamente Mig e Davi fizeram força, empurrando o tampo, e Aza atirou na abertura escura, com receio de que algo pudesse sair dali. Mas nada saiu. O tampo despencou, uma das pontas afundando na terra. O esqueleto do barão ali dentro, intacto. Os vermes já evaporados.

Mig fez sinal com a cabeça e me aproximei. Tirei a mochila das costas e comecei a instalar as aparas no chão ao redor da cripta. Aza me deu apoio para instalar as do teto. Com os círculos fechados, instalei o caixote na bateria e na primeira apara. Apertei o botão. Uma luz translúcida e tremeluzente conectou todas elas. Dentro desse tubo, o tampo voltou ao seu lugar de origem e foi ficando limpo, cada vez mais limpo, até que voltou para o chão e apareceu o corpo inchado dentro da cripta. Apertei o botão. A luz translúcida cessou os movimentos e ficou tal qual uma lâmina de vidro.

Retirei a seringa de alumínio do invólucro no fundo da mochila, seringa essa encontrada nos escombros de um laboratório nazista em 1946 e restaurada. Eu tinha sete anos quando ela foi feita. Agora, com 48, eu precisava voltar lá, ao corpo ainda inteiro do barão. E era o único ali velho o suficiente para fazer isso. Tirei as roupas e entrei no tubo. A seringa caiu e quando me agachei para pegá-la estava muito próximo do chão, os braços fininhos, os pelos do corpo sumidos. Coloquei a seringa entre os dentes, me ergui pela borda alta da cripta e caí do lado de dentro. Enfiei a agulha no pescoço do cadáver e comecei a puxar o sangue escuro. Quando ela encheu eu pulei de volta e andei para fora do tubo. Caí no chão, desengonçado e peludo, a vista turva.

Me vestiram. Alguém me colocou nos ombros. Ouvi os estalos do fogo consumindo as aparas e o cheiro de decomposição. Quando acordei, na base, Mig relatou que Aza, Davi e Fiumara tombaram enquanto tentávamos voltar pelo caminho e sair das cavernas, com golens no nosso encalço. Fiumara, ferido mortalmente, deu um tiro no tanque do lança-chamas na passagem que conectava o porão aos túneis, desabando o caminho. Mig, o maneta Fibá e eu fomos os únicos a escapar.

Com o sangue do barão decodificado e duplicado, fizemos o primeiro lote das vacinas. O sacrifício de boa parte da minha equipe serviu para impedir incontáveis outros de caírem ante a mera aproximação das criaturas. Voltei para o laboratório. Sigo tentando encontrar algo que nos dê a vantagem, todos nós, qualquer coisa. Mig e Fibá aparecem, às vezes, para tomar uns tragos no laboratório. Eles me contam suas novas aventuras, e bebo elas, na verdade. Até que não voltam. Aí bebo.

 

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Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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