Aline Bei: A filha sumiu

 

ryohei-hase-10

Arte de Ryohei Hase

 

eu estava com o meu porco comprado no Texas

mentira

comprado na loja do seu cristovão mesmo

lá as crianças escolhem

se vão levar uma boneca ou um jogo

de tabuleiro

se pudesse eu escolheria

tudo

minha mãe não deixa

ela diz que a gente não pode ficar gastando dinheiro com bobagem

 

-brinquedo não é bobagem – grito.

 

ela me dá um tapa

na boca

toda vez é assim. e ainda reclama

essa menina é muito

malcriada.

culpa sua, digo por dentro, não quero apanhar outra vez.

meu porco é única coisa que eu consegui lá da loja do seu cristovão. no dia do meu aniversário minha mãe ficou carinhosa e me deu de presente, foi

macio.

o tempo passou

e lá estava eu no quintal com o meu porco não do texas

quando minha mãe avisou que

ia no mercado

 

-não mexe em Nada da cozinha, ouviu?

 

(barulho de porta fechando)

 

 

ela sempre fala isso quando sai.

minha mãe tem medo

dos perigos da Cozinha

eu mesma já vi um porco morto em cima da pia.

duas horas depois a gente comeu aquilo, nem parecia o de antes, no prato ele estava quente e rosa

na pia bem mais pálido

será que é o medo? de virar comida. eu te entendo, mister Porco,

eu também fico pálida quando a minha mãe levanta a mão pra bater na minha boca, depois que ela bate eu fico rosa

e quente

igual você

mas eu te como mesmo assim

 

(garfo na pele

a boca cheia)

 

já o meu de pelúcia eu nunca comeria

porque eu sei que ele também não faria isso comigo

e a gente tem que confiar um no outro pra dormir junto do jeito que a gente dorme toda noite.

demos as mãos, meu porco e eu, depois que a minha mãe saiu.

subimos até a laje

de lá dava pra ver o tanto

de telhado que existia pelas ruas 5, 11, 17.

eu falei pro porco,

 

-isso aqui

é o Mundo

não é só o nosso quarto não

debaixo das cobertas onde ficamos conversando até tarde

e depois acordamos arrastados

pra ir pra escola, na verdade só eu, né?que você mora no quarto

estuda, pensa

tudo lá

queria que minha vida fosse assim também.

 

-mora em mim então. – ele disse.

 

-morar em você?

como?

 

-você não vai gostar.

 

-fala.

 

-você vai ter que fazer comigo igual sua mãe faz com o porco na pia.

 

-te comer?

 

-não. me abrir.

me abre

e fica morando na minha barriga

ou em outros lugares,  você que sabe, pode morar nas patas

ou no cérebro.

 

-pra sempre?

 

-é. eu acho que você vai aprender mais coisas dentro de mim do que no colégio. porque lá é muito conhecimento mas ninguém aprofunda nada. dentro de mim você vai ficar bem aprofundada.

 

humn.

mas como eu vou ver os telhados aqui da laje? eu gosto muito de fazer isso

 

-pelo meus olhos, ué.

quando você quiser me avisa  

eu subo até aqui  

e pronto. como você vai estar morando em mim tudo o que eu ver você verá também.

-mas seu olho é só um buraquinho.

-o seu também. ou você pensa que está vendo o mundo todo?

você vê só até onde o olho alcança

e a partir do momento que você escolhe olhar uma coisa

você tá deixando de olhar pra milhares de outras, é assim em qualquer lugar e pra todo o sempre

morando em mim pelo menos você não precisa mais ir pra escola

muito menos apanhar na boca.

-você tem razão,

hoje você tá cheio

de razão.

-vou ficar ainda mais depois que você morar em mim.

-vou pegar uma faca.

-tesoura é melhor.

 

(a menina dispara

pra cozinha

enquanto a mãe na sessão de frios

procura a validade de um queijo)

 

aline bei

 

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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