Santiago Santos: Retrospectiva 2017 do Flash Fiction

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Em 2017 foram publicados 44 drops inéditos no Flash Fiction.

Como sempre, esse opressor megalomaníaco e ocasional escritor, Santiago Santos, nos obrigou a fazer uma postagem com sua lista de preferidos do ano (com a qual discordamos veementemente, claro) relatada e transcrita no churrasco de fim de ano da firma. Nesse ano tivemos só linguiça, que as coisas ainda não melhoraram tanto, e a proximidade do esgoto que desemboca no rio Cuiabá, no bairro Porto, para onde nos mudamos, tirou o apetite do mestre para peixes na brasa. Ainda assim, melhor que amendoim. O engradado de Brahma litrão esteve presente, pelo menos.

Vale lembrar que ele não leva nada técnico em conta nessas escolhas, apenas seu nada exato “apelo emocional”. Já apontamos, cansamos de apontar (duendes são famosamente insistentes) que essa questão afetiva de um dado drop leva em conta muitas vezes coisas que fogem à apreensão dos leitores, como referências pessoais a personagens ou passagens ou ambientes, uma atmosfera particular que nada diz aos outros, uma linguagem que ele considera bacana mas nada tem de inovadora, etc. Ele nos mandou tomar no rabo e abrir outra Brahma litrão. Então é isso. Funcionários funcionando.

As menções honrosas com alguns dos nossos preferidos, que sempre inserimos aqui e ele, já de férias, nem se importa mesmo, nesse ano foram: o causo do Matias, tubarão sangue bom, em Matias é um bom companheiro, a fuga de uma escrava e a perseguição de seu capataz em Dos rios que correm negros, o Coophamil de uma Cuiabá cyberpunk e seu recém-chegado exilado singapurense em De códigos genéticos e pães franceses e a série pós-apocalíptica em 5 partes do moko Berátna.

Boas festas, boas leituras e nos encontramos aqui em breve.

Até 2018!

TOP 5 DO FLASH FICTION EM 2017

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#5 – Do dia em que a menina bonita morreu

“Esse drop empresta muito da série pós-apocalíptica Sweet Tooth, HQ mensal da Vertigo publicada entre 2009 e 2013, num total de 40 edições. Foi escrita e desenhada por Jeff Lemire, um fenômeno canadense das HQs que continua arrebentando, seja em seus gibis independentes ou trabalhando com personagens das grandes editoras. Em Sweet Tooth, os personagens principais são Gus, um garoto híbrido com traços de cervo, e Jepperd, um homem casca-grossa que se torna seu companheiro em um mundo devastado. Os dois são a inspiração para os personagens deste drop, ou ao menos a relação que eles desenvolvem. Escrevi logo após ler o arco final da série. A linguagem ingênua e infantil do narrador em primeira pessoa lembra a de Gus. É uma voz que gosto bastante de trabalhar: a da primeira pessoa não tão preocupada com as acurácias de estilo e com a beleza; simplista, reduzida, repetitiva e bem próxima da gente.”


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#4 – Dos nomes que damos aos filhos

“Escrito numa breve fase em que li a bibliografia da Elvira Vigna (falecida este ano), este drop tem algo do seu universo. Não houve uma tentativa de replicar traços da sua linguagem, despojada e moderna e sempre muito exata, que costuma ter frases mais curtas, nem de seus enredos abertos e sua inclinação constante pro crime, ainda que nem sempre como ponto gravitacional dos livros. Mas há o foco numa mulher de meia idade bem resolvida, dona de si, num ambiente que não é o meu mas foi o dela, em seus últimos anos de vida (São Paulo), e uma tentativa de explorar a personalidade que é moldada pelos conflitos e temas familiares que a precedem. Gosto das longas frases e de um cotidiano bem definido que se desenha nesse curto espaço. Também da ligação telefônica que é revelada mas nunca mostrada.”


FF-405

#3 – Vontade é coisa mambembe

“Daqueles drops que descambam pruma coisa insólita, algo nas fronteiras do realismo mágico. A maioria deles começa com uma cena qualquer, que vai revelando seu entorno enquanto escrevo. Nesse, foi a cena de um personagem e seu hipopótamo olhando pela cerca do circo, inspirado por essa foto aqui. Outras histórias, que são mais puxadas por um enredo prévio ao qual me atenho, parecem nunca ter um elemento orgânico de trajeto que identifico nesses minicontos feitos de supetão. Eu não esperava que a história de Chico e Valdivo fosse acabar onde acabou. Mas ela só me toca tanto por causa disso, pelo fim que preenche todo o resto. Canso de ver reafirmado o conselho de tantos mestre da literatura: não é tanto a ideia, mas é a forma como você a apresenta.”


FF-386

#2 – Das formas de encontrar a cura

“Novamente o insólito. Este é um conto custoso de ler. Começa com a ferida na perna do protagonista e avança pro desvelamento de personagens atormentadas e a casa onde tudo aconteceu. Acompanhar a narrativa pelo viés do agressor não é algo muito fácil, e dosar essa terceira pessoa para não entrar nos detalhes do passado e nos méritos do que habita cada personagem me pareceu o maior desafio. Os diálogos me soam fortes e intrusivos demais, mas achei melhor isso que a elipse ou outras formas de mostrar as intenções do protagonista. Também é algo que aproxima o leitor da territorialidade, do palpável do conto, já que os personagens fogem da caracterização humana e a passagem do tempo soa indefinida, deixando tudo com um aspecto etéreo ou mitológico. O diálogo embrutece, o que me soou necessário.”


FF-392

#1 – Da velhice que se escolhe

“De longe, o que mais gosto neste conto é a transição. Já trabalhei com transições de diferentes tipos antes aqui nos drops, mas não lembro de ter cortado assim abruptamente da primeira pra terceira pessoa (o oposto com certeza já). Engraçado como considerar isso agora alarga um sentido que não me havia ocorrido; Bulvar está tão desligado do seu passado que só nos é revelado, ao leitor, pela lente impessoal da terceira pessoa. Gosto da nostalgia reverberante que se esconde em poucos parágrafos, de como este mundo medieval parece muito maior do que nos é permitido saber. E de como a repentina queda de um personagem que conhecemos tão pouco toca tão profundamente. Eu desmorono quando releio esse conto até o fim, ficando naquele suspiro automático de ‘putz, vida ingrata’.”

 

santiago-santos

Parceria Flash Fiction
Artes das vitrines por Jean Fhilippe

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