Larissa Lisboa: Um corpo ocupado. Anitta e o jogo perigoso do capital

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Como a indústria cultural nos prega peças…

Ontem, vários amigos compartilharam o vídeo “Vai, Malandra” da Anitta, elogiando o trabalho da artista; alguns pesquisadores, escrevendo sobre o feminismo no posicionamento de Anitta, o olhar desnudado e sem filtros da favela, a realidade da mulher contemporânea brasileira, a visibilidade do marginalizado…

E com muito entusiasmo é que fui assistir ao clipe e fiquei intrigada com as discussões dos colegas, tentando encontrar algo de feminista, sem filtros, do tal empoderamento feminino em Anitta.

Passei a adolescência ouvindo música americana e gosto muito. Nunca tive problemas em assumir a Destiny’s Child ou a Madonna que existe em mim. Sou parte desse capital cultural, uma mulher brasileira que teve acesso apenas à cultura de massa. Somo a isso, hoje, à sala de aula, pois foram os meus alunos que me apresentaram muitas das músicas que conheço.

Assim, o universo pop é algo que me interessa muito. E quando Lemonade da Beyonce saiu, fiquei extasiada. Sempre admirei o trabalho da artista, ainda no grupo Destiny’s Child, em que cantava músicas como “Independent Woman”, e seus versos arrebatadores “The shoes on my feet I’ve bought it/ Cause I depend on me” (o sapato que eu calço, eu que comprei, porque eu dependo de mim), frases de empoderamento feminino em meio a tantos rebolados das artistas. Mas quando Lemonade saiu, também saiu um texto da americana Bell Hooks, em que dizia:

Lemonade oferece aos expectadores uma extravagância visual – uma exibição de corpos negros femininos que transgridem todas as barreiras. É tudo sobre o corpo e o corpo como mercadoria. Isso certamente não é radical ou revolucionário.  *Tradução de Clarô Nunes e Larissa Santiago

Assistir ao clipe da funkeira Anitta me lembrou o texto de Hooks. No campo minado do capital cultural, será que não estamos ilhados na ilusão do empoderamento feminino, tentando encontrar algo de revolucionário nos produtos de mercado?

O clipe “Vai, Malandra” começa com a bunda de Anitta – sem filtros, como a artista queria. Mas a bunda de uma menina de 20 e poucos anos precisa de filtro? Esta é uma bunda mainstream que nos dá orgulho ou que nos mostra, mais uma vez, que estamos completamente distantes desses corpos performatizados pela indústria cultural? Aquela bunda é a bunda da mulher brasileira? Aquela bunda me representa?

Na sequência, a série de rebolados se inicia. E corpos sarados e suados masculinos se juntam ao maravilhoso corpo da artista. O ambiente, a favela do Vidigal no Rio de Janeiro que continua lindo, as casas sem reboque, a piscina na caçamba de um caminhão… Será que isso é bonito? Será que os pesquisadores brasileiros acham mesmo interessante tudo isso?

A exportação da pobreza e da miséria brasileira continua a todo o vapor. Anitta, agora com o seu projeto “made in brazil” vai mostrar para a gringa o real brasil. E isso é muito interessante, porque a pobreza brasileira vende, dá lucro, muito lucro para a indústria cultural.

E antes que os fãs de Anitta me metralhem nas redes sociais, continuo rebolando por aí. Se tocar “Vai, Malandra” na festinha, vamos descer até o chão, sem culpa. Mas romantizar a pobreza, acreditar que o clipe de Anitta é um avanço para as discussões feministas não é o melhor caminho. Precisamos recuar um pouco e observar com calma as produções de massa. Não podemos particularizar a questão da mulher no Brasil hoje sem refletir sobre essas contradições. Vamos dançar, sim! Mas festejar tudo isso? Não sei…

Gostaria que “Vai, Malandra” fosse “Vou, Malandro”, que Anitta estivesse dirigindo a motocicleta, que as pessoas no vidigal tivessem uma piscina, a mesma que a da casa da Ana Hickmann. Utópico? Sim. Mas aceitar essa realidade e festejar, que os pesquisadores me desculpem, mas não dá. Não é bonito ver tudo isso.

Ouvindo hoje a funkeira Linn da Quebrada, acredito que o funk trans represente muito mais a mulher que existe em mim. Mas, infelizmente, enquanto em 2 dias de clipe Anitta já tem 36 milhões de visualizações, “BlasFêmea”, que está na rede desde o início do ano, tem apenas 179 mil.

Bom, enquanto canto com Linn que “o meu corpo é uma ocupação”, penso que Anitta ainda tenha um corpo ocupado, e o jogo perigoso do capital cultural continua a nos pregar peças…

LARISSA LISBOA

Livre Opinião – Ideias em Debate
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