Felipe Ribeiro: Como se fosse impossível nossos corpos suados sussurrarem palavras de amor

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Leia ouvindo um som: Chet Baker – Almost blue

Você tem essas pernas
tortas de blues e Saltos quinze
e vem a pé com a bolsa apertando
um maço de cigarros e notas de 2 reais
no meio das páginas de um livro,
gritaria na porta do prédio,
vizinhos comemorando ”La vie en rose”
e eu descalço pela casa
oxigenando o vinho na cozinha
Aquele Cabernet que eu vivia te falando
Chileno, tinto seco, a janela fechada
e o tapete da sala cheio de poeira
E a gente gostava daquilo,
transava naquilo, no chão, no sofá
nas manchas amareladas das paredes
e por um instante meus pensamentos
explodem fogos de artifícios na língua
e eu canto Sinatra e lembro
dos meus dedos contornando tua cintura,
tua alma, nua, crua e pura. Minha pequena
e vou pra sala cantando e levando os pés
Lembrando de Fred Astaire e ”TRIIM”
você pressionando o interfone
E eu gritando, ”sobe sem os saltos,
que cê me fode com os vizinhos do apê debaixo!!”
Tua risada chiada no interfone
e eu já sacando o cheio na tua boca
queimando em um gole de Devassa
afogando o Hollywood picado
e você com os cabelos negros
saídos de buracos no céu
afogando os céus dos teu olhos
com estrelas que já morreram
pra eu escrever esse poema
e estar com você aqui até hoje
engolindo meu cuspe
minhas cartas, minhas manchas de sangue
e meus discos do Steve Wonder
e me acordando com Ray Charles
dizendo que tá afim de fuder com amor,
equilibrando as linhas do seu corpo
na minha caneta estourada no peito
mesmo quão vulgar isso pareça.
E tu me aparece na porta
de óculos escuros e um vestido
preto brilhante rebolando sua bunda
de Mariylin Monroe na minha coxa
pra me dizer que hoje
você quer ler poemas de Walt Whitman
só de calcinha na cama e me obrigar
a sair mais tarde pra falar mal
de quem decora Haikases do Leminski
daqueles que andam sem olhar
as rachaduras no chão,
e você me beijar cheia de tesão
quando eu falo errado colocando ”x”
nas palavras dos meus poemas
e te contando que nunca tive vontade
de olhar outras costas nuas,
era que meus dedos cheios de bolhas
estouradas só tinham aquele tom de
garota de ipanema tocando nas cordas de nylon
arranhando,
no teu violão de botequim amarelado
dentro do peito, e seu abraço esquentava
os furos da minha velha gaita
tremendo Bob Dylan nos lábios
cansados de dizer eu te amo
na beirada do seu ouvido,
arrepiando os cotovelos, passando
a língua gelada no teu coração
bombeando nossas euforias
nas noites com os pés gelados
e enrolados nas cobertas
da minha cama no final de toda madrugada
que passo mordendo de leve
tuas pernas brancas e cheias de marcas
das vezes que correu nos corredores
do meu peito com só você lá dentro
fugindo da chuva de passados
rasos e sombrios que a gente
se salvou todas as vezes que subimos
as escadas e procuramos as chaves
as quatro da madrugada
deixando cair os maços, as notas de 2 reais,
os poemas, as lágrimas, as mágoas e
toda a poeira impregnada nas nossas roupas
sendo jogadas pelo caminho,
e chegando nas bordas da cama
deixando cair os anjos que moram
nas nossas costas cicatrizadas
flutuarem pelo quarto mais uma vez
como se fosse
impossível as beiradas dos nossos lábios secos
sussurrarem palavras de amor para nossos
corpos suados por toda a madrugada.

 

FELIPE RIBEIRO

Livre Opinião – Ideias em Debate
jornal.livreopiniao@gmail.com

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