Edmar Neves: Era uma vez um zoológico ou o absurdo nas Américas

(Quase) Toda Sexta-Feira – Por Edmar Neves

 

O passado e o presente retratados no conto El Zoológico de Papá, de Lizandro Chávez Alfaro

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Quando pensamos em literatura latino-americana uma das primeiras correntes literárias que nos vêm na mente é o Realismo Maravilhoso, que tem como principais representantes o venezuelano Arturo Uslar Pietri, o cubano Alejo Carpentier, o colombiano ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1982, Gabriel García Márquez, entre outros.

Das principais características dessa corrente literária estão o rompimento da barreira entre o real e o imaginário, onde o sobrenatural, a magia e o fantástico são representados como algo rotineiro e natural. Inclusive, os fatos absurdos e sem lógica da história da América Latina foram o tema principal do discurso que García Máquez fez durante a entrega do Prêmio Nobel de 1982. Entre esses absurdos de nossa história, estão os relatos das crônicas totalmente fora da caixinha dos primeiros invasores europeus e as atrocidades que os ditadores latino-americanos cometeram durante o século XX.

Entretanto, para falar dos absurdos que serviram de inspiração para essa geração de escritores, vou utilizar o conto El Zoológico de Papá (Los Monos de San Telmo – sem edição no Brasil, 1963), de Lizandro Chávez Alfaro, autor nicaraguense pouco conhecido no Brasil e que não está diretamente ligado ao Realismo Maravilhoso.

Considerado um dos responsáveis pela narrativa moderna na Nicarágua, Chávez Alfaro recebeu o premio Casa de las Amércias, em 1963, pelo livro de contos Los Monos de San Telmo, obra que retrata a desesperança de um país assolado por ditadores que não passavam de meros serviçais dos Estados Unidos. E é esse anti-imperialismo que marca uma aproximação política entre as obras de Chávez Alfaro e os autores do Realismo Mágico.

O enredo de El Zoológico de Papá é, no mínimo, inquietante: um ditador mantém um zoológico no pátio da casa presidencial e utiliza os animais desse zoológico para torturar e matar seus opositores. Narrado em primeira pessoa pelo filho desse ditador, uma criança de 13 anos que possui a patente de coronel, temos aqui o relado de uma sessão de tortura de um jornalista que teve a audácia de se opor líder soberano da nação. O sadismo de nosso narrador choca tanto o leitor (com maior intensidade), quanto às outras personagens do conto (em menor intensidade), que se surpreendem com a perversidade de uma criança que deixou de ser criança há muito tempo.

Esse conto perturbador de Chávez Alfaro serve para exemplificar algo que García Máquez tanto reclamou enquanto fazia pesquisas para escrever seu romance O Outono do Patriarca (Record, 2001), o fato de a realidade latino-americana ser tão absurda, que a ficção tem um imenso trabalho para retratá-la de maneira convincente, afinal, por mais que o enredo de El Zoológico de Papá pareça um exagero, é baseado em acontecimentos reais que não deixam nada a desejar ao trabalho ficcional.

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Lizandro Chávez Alfaro

Um pouco de história

O ano é 1937, Anastasio Somoza García chega ao poder com a ajuda dos EUA, depois de intensos conflitos políticos que resultaram no assassinato do líder revolucionário Augusto César Sandino. De um lado, o ditador conseguiu uma excelente forma de aumentar seu poder e sua riqueza, do outro os Estados Unidos garantiram a influência na região considerada estratégica para eles e o acesso à matérias primas como o algodão, madeira e minérios. Esse foi o início da Dinastia Somoza, família que manteve o poder direto na Nicarágua por 44 anos.

As intervenções dos EUA nos outros países das Américas se iniciaram no século XIX, sendo que em 1823 o então presidente norte-americano, James Monroe, realiza um pronunciamento que definiria a política externa de sua gestão, onde é questionada a monarquia e o colonialismo europeu no continente e é defendida a independência das outras nações americanas, com a implantação de diversos ditadores que tinham como tarefa garantir os processos de independência de seus países. Todavia, com a chegada do século XX, subiram à cadeira de presidente novos ditadores que não tinham interesse nenhum de assegurar a independências de suas nações. Agora a intenção era garantir que os seus países se submetessem ao domínio norte-americano.

Foi nesse contexto que ascendeu ao poder lunáticos sanguinolentos como Antonio Lópes de Santana, o Napoleão do Oeste, ditador do México que realizou um funeral cheio de pompas para a perna direita que ele havia perdido durante a Guerra dos Pastéis, ou Jean-Claude Duvalier, mais conhecido como Baby Doc, que mandou matar todos os cachorros pretos do Haiti, pois acreditava que um de seus opositores havia se transformado em um cão negro para fugir do país, ou os ditadores brasileiros com seus desaparecidos, seus paus de arara e suas delirantes estradas intermináveis Amazônia a dentro. Ou ainda, foi devido às intervenções dos EUA que ocorreram casos como do presidente chileno Salvador Allende que, vendo-se entrincheirado no Palácio de La Moneda por tropas chilenas e norte-americanas sob o comando de Augusto Pinochet durante o golpe de 11 de setembro de 1973, realizou um discurso emocionante, afirmando que só sairia da luta morto e acabou se ‘‘‘‘suicidando’’’’ com tiros de fuzil AK-47.

Para aumentar o panteão de lunáticos sanguinolentos, temos o já citado Anastasio Somoza García, que foi o responsável pelo zoológico no Palácio Presidencial La Loma, em que as jaulas dos animais selvagens eram dividas ao meio por uma grade de ferro, sendo que de um lado estava um animal que havia passado dias sem comer e, do outro lado, os inimigos do ditador…

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O ditador Anastasio Somoza García

Mas voltando ao conto

…E foi pelo crime de escrever que o país era uma propriedade dos EUA e que o pai do menino era o capataz da propriedade, que o jornalista do conto de Chávez Alfaro foi parar dentro da jaula do zoológico com um puma. Aliás, Chávez Alfaro, em El Zoológico de Papá, consegue transmitir bem a mentalidade dos ditadores e a atmosfera vivida nas ditaduras do século XX, como na primeira frase do conto, onde nosso sádico coronel de 13 anos dispara que, desde o nascimento, lhe dizem que ele nasceu para mandar e o que o país precisava dele, assim como ele precisava do país.

A censura e a distorção da verdade também se fazem presentes, seja no triste fim que levam os opositores do ditador, seja no fato de ele possuir o monopólio dos meios de comunicação no país e, após ter tentado esconder a existência do zoológico, permitiu que um dos seus jornais (provavelmente ‘o A Estrela, que é o mais importante’) publicasse uma reportagem dizendo que o zoológico era uma obra de arte que trazia muitos benefícios ao país.

Vemos a forte relação entre os EUA e o ditador do conto no protesto do jornalista, no fato do menino estudar Union College de Schenectady, de ele e seu pai se comunicarem em inglês, além das várias amostras de enriquecimento ilícito do ditador, como a pose de várias propriedades no país, de uma companhia aérea e de uma companhia náutica que faz escalas em diversos estados norte-americanos. Em suma, ler Chávez Alfaro é se defrontar com um passado recente que continua a nos assombrar.

Coisa do passado?

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Palácio Presidencial La Loma

Se nossa sociedade é conhecida por possuir memória de curto prazo, esquecendo com facilidade todas as loucuras do passado, podemos ver que a era dos absurdos ganhou novo fôlego com a onda conservadora que assistimos nos últimos anos. Em 2009 tivemos um golpe militar em Honduras que estabeleceu uma crise política que perdura até hoje, em 2012 tivemos outra modalidade de golpe de estado no Paraguai, dessa vez utilizando ferramentas jurídicas para se consolidar, no ano de 2015 foi a vez do Brasil sofrer um golpe político-jurídico devido a um crime de responsabilidade. Crime esse que foi se tornou legal logo após a posse do golpista Michel Temer. Já nas eleições dos EUA de 2016, subiu ao poder o empresário Donald Trump, conhecido por casos de abuso sexual e por declarações racistas, xenófobas e sexistas.

Os reflexos da ascensão conservadora geraram fatos que podem servir de matéria prima para a ficção, como por exemplo, as cruzadas do ministro da educação do Paraguai do contra as discussões sobre gênero nas escolas e os constantes escândalos protagonizados por Trump nas redes sociais.

Nesse cenário, o Brasil se mostrou um prato cheio: começando por uma polícia militarizada filhote da ditadura que tortura e mata pessoas por causa da cor de pele, indo para os dramalhões de julgamentos e condenações sem provas, passando por julgamentos arquivados, mesmo com provas irrefutáveis de crime, por uma nova caça as bruxas, protagonizada por grupos ligados a direita, por senadores afirmando que irão assassinar membros de sua família, pela ascensão de fascistas que são tratados como mitos, ministras do trabalho sendo processados por questões trabalhistas, entre tantos outros casos.

Realmente, com tantos absurdos que vivemos ao longo da história desse continente, fica difícil para a ficção competir com a realidade.

edmar neves

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