Alexandre Reis: Polarização carnavalizada: a Globo e o mito despolitizado

MITOLOGIA CARNAVAL

 

Nesta quarta de cinzas fomos bombardeados por mais um momento da transformação social e ideológica que o Brasil vem passando: Beija Flor de Nilópolis ou Paraíso da Tuiuti? Momento de crise, então, momento onde cada decisão deve ser milimetricamente pensado. O que vale para a lista de compras antes de ir ao mercado, pensar na crise, vale para escolher o enredo e a letra da escola de samba. O objetivo desse meu texto é mostrar minha opinião a respeito de algo que vem junto com o pacote na hora de escolher qual escola de samba realmente traduziu o momento, a narrativa que explica a atual situação do Brasil.

Uma certeza já temos depois desse carnaval politizado: não vivemos somente uma crise econômica e política, mas sim uma crise ideológica, ou seja, justamente uma crise das narrativas que disputam a interpretação verdadeira das duas primeiras crises no campo da opinião pública.

Indo direto ao ponto, é evidente que a narrativa posta na pista pela Escola Paraíso do Tuiuti gerou um desconforto nos narradores da Globo e a narrativa da Beija Flor foi muito melhor “digerida” pelos mesmos. Isso facilmente se explica por inúmeras evidências, como a recorrência de palavras e locuções muito mais comuns no discurso jornalístico de nossa grande imprensa: corrupção, ratos, ganância, carga tributária, lobo em pele de cordeiro, etc. Por sua vez, a Paraíso da Tuiuti priorizou palavras que ainda estão em disputa ideológica no Brasil de hoje: negro, abolição, liberalismo, manifestantes com a camisa da CBF, etc. No desfile da Beija Flor também houve palavras como racismo, homofobia e feminicídio, mas numa estrutura textual específica, como que “jogada” numa enumeração e que mais abaixo explicaremos o porquê disso, isto é, mostraremos que essa estrutura é quase que consequência de algo mais fundamental: a ideologia, isto é, a narrativa interpretativa do atual momento.

Longe de descobrir a roda falar isso: a Rede Globo e a grande imprensa possuem um lado nessa polarização ideológica. Mas há algo depois dessa constatação mais interessante: por que Mary Shelley é mais palatável para um lado dessa polarização? Acredito que o motivo disse seja o fato de ser uma daquelas obras onde sua profundidade se confunde com o fio da história e por isso ela era lugar fértil para manipulações mitológicas de uma burguesia medíocre: a elite do atraso brasileira.*

Quesito: crítica social

Se formos avaliar esse quesito pelo aparente entusiasmo com essa qualidade mostrada pelos narradores globais, com certeza o título já estaria com a Beija Flor. Só rindo… A quantidade de vezes que ouvimos “é a crítica social” na faixa das 4 da manhã, ou seja, em referências aos símbolos da Beija Flor, foi hilária pela sua artificialidade. Com certeza houve crítica social, mas o modo foi diferente e revela muito da necessidade de uma certa mitologia do progresso burguesa. Vamos primeiro a um resumo do discurso ideológico trazido pelas duas escolas de samba.

O desfile da Paraíso do Tuiuti trouxe como tema a escravidão. Essa temática poderia ser trabalhado das mais diversas formas, mas há duas maneiras que se diferenciam pelo contexto de enunciação. Ora, não é preciso ir longe para sabermos que contexto é esse: crise política, econômica e ideológica manipuladas por uma crise geopolítica de poder e dominação imperial*. Ok, podemos pasteurizar isso a gosto do discurso da elite dominante: vivemos uma crise. Sendo um contexto de crise, esse tema poderia ser trabalhado de uma forma mais, digamos, substâncial, tratando a escravidão mais em seu tempo e contexto e tirando algum elemento para ligar com o famigerada “crise brasileira”; mas esse tema poderia ser tratado também de uma forma mais, também meio forçando os conceitos, arqueológica, mostrando os efeitos do todo desse tema nos dias de hoje. Evidentemente que os idealizadores do enredo e tema da Tuiuti optaram pela segunda opção:

Espelhos da ancestralidade. Ouviu os ventos soprados de longe que ressoaram brados iluminados de liberdade pelas paragens brasileiras. Abolir-te foi palavra de ordem. Utopia e justiça para uns. Falência e loucura para outros. Caminho sem volta para muitos. “O homem de cor” ganhou voz pelas ruas, força nos punhos da população, para além das leis parcialmente libertadoras. Contudo, mesmo enfraquecida, sobrevivia sob a égide dos grandes latifundiários e nas vistas grossas da hipocrisia.

(trecho do enredo que consta no site oficial do evento)

 

Por sua vez, a Beija-Flor de Nilópolis trouxe como tema a obra da escritora inglesa Mary Shelley, Frankenstein, como tema. Com certeza a temática foi usada como instrumento de crítica social, mas pela já referida via substantival: pegou-se um ponto da obra – na linguagem técnica, um motivo da obra – a ganância, como ponte para tal “contexto de crise”. Seria até, esse sim, um serviço de Prometeu pegar os efeitos do tema como um todo, a obra, e ver quais deles ou todos eles chegam ao atual contexto brasileiro.

Não por acaso que a sensação de quem assiste os desfiles é de que o texto escrito no sambódromo pela Paraíso do Tuiuti teve uma maior organicidade de suas partes pois o tema complexo, a escravidão, permite mais fios narrativos com os dias de hoje no Brasil. Ou seja, houve momentos no desfile da Beija-Flor que as coisas parecem mais “jogadas” e trabalhadas de forma superficial porque o fio de coerência era um conceito intimista: a ganância.

Portanto, se coerência, relevância e trato do tema em prol de uma crítica social fossem avaliados pelos jurados hoje no Rio de Janeiro, com certeza o título estaria com a Tuiuti.

Quesito: mitologia

Numa obra inigualável, e muito relevante para esse momento de “pós-verdades”, chamada Mitologias**, o semioticista francês Roland Barthes nos mostra que tudo pode ser suscetível de comportar uma narrativa mitológica. Tudo mesmo, desde uma luta de wrestling ao nosso bife com batatas fritas na mitologia sanguínea… Se estivesse vivo, com certeza ele concordaria que o carnaval de 2018 no Rio de Janeiro estaria a ponto de entrar numa mitologia golpista.

Segundo ele, o mito seria uma fala. Mais especificamente, uma fala escolhida pela história. Realmente, não existiria mito se não houvesse uma seleção das falas (prefiro o termo narrativas, mas sou só um formando e o cara lá é o cara…). Sendo uma fala então, o mito pode ser tratado como um sistema semiológico, e é o que o francês faz:

dfdfdf

Tentando não entrar numa linguagem muito técnica, Barthes define o mito como um sistema semiológico se sobrepondo ao outro. Nesse processo, o que é um todo de significação no primeiro sistema, isto é, um signo (c. Signo) transforma-se somente em significante (forma) no segundo sistema, ou seja, ele é esvaziado de algum modo. Como exemplo podemos usar um elemento da comissão de frente da Beija-Flor, seu título: Frankenstein ou o Prometeu moderno. Justamente o título e subtítulo da obra da escritora inglesa. O que permite que uma palavra como “Prometeu” frequente lugares tão diferentes, desde a personagem de um mito grego, passando por um romance inglês ao título de uma comissão de frente é esse esvaziamento do signo para transformá-lo em significante. Prometeu é um signo, ou seja, o processo final de significação de um complexo mundo grego. Por sua vez, Mary Shelley o usa como um significante vazio para seu mito moderno, o do Dr Frankenstein. Por fim, o uso dele no enredo da escola Beija-Flor também foi mitológico, mas um mito burguês que está tentando de todas as formas continuar a existir no Brasil, o mito de que somos o que somos porque somos um povo degenerado. Por conta dessa possibilidade de transformação que Barthes fala nessa obra que o significante é o ponto final do sistema linguístico e o ponto inicial do sistema mítico.

Evidentemente que a escola Paraíso do Tuiuti também usou de falas mitológicas, mas foi sintomático serem mitos tão brasileiros, como o mito do Preto Velho. Adiantando um pouco da conclusão, já podemos falar aqui que a fala mítica foi tratada de forma diferente pelas duas escolas. Ainda segundo essa obra de Barthes, podemos dizer que a Beija-Flor tratou o mito de Prometeu como um significante vazio e a Tuiuti tratou seus mitos como um todo complexo:

  1. Se acomodar a vista como um significante vazio, deixo o conceito preencher a forma do mito sem ambiguidade, e volto a encontrar-me perante um sistema simples, em que a significação se torna de novo literal (…) 2. Se acomodar a vista como um significante cheio, no qual distingo claramente o sentido da forma e, por conseguinte, a deformação que um faz sofrer ao outro, destruo a significação do mito, recebo-o como uma impostura (…) 3. Enfim, se acomodar a vista ao significante do mito como a um todo inextricável de sentido e de forma, recebo uma significação ambíguo: respondo ao mecanismo constitutivo do mito, à sua dinâmica própria, torno-me leitor do mito (…).

(Barthes, Mitologias, Edições 70, pg 280-281, 2007)

Essas são as três formas que, segundo Roland Barthes, podemos jogar vista sobre um mito. Evidentemente que a aposta da Tuiuti foi mais de encontro ao terceiro ponto e a da Beija-Flor focou seus mitos pelas formas 1 e 2. Lembra quando falei daquela sensação de maior coerência no desfile da Tuiuti? Isso acontece porque justamente o enredo permite que brasileiros leiam o mito, afinal, é-nos muito mais próximos os elementos de um mito como o de Calunga do que o mito trabalhado numa Inglaterra do século XIX. Quando um dançarino no desfile da Beija-Flor encarna Frankenstein, ele o deforma em prol de um mito burguês: a maldade e a corrupção são inerentes ao gênero humano. Por sua vez, quando um dançarino encarna o mito do Preto Velho na avenida ele mostra a marca inexorável dessa narrativa, dessa fala, ainda nos dias de hoje no nosso Brasil: uma população que sobrevive pelo e por seus mitos numa luta de resistência.

Portanto, se o trato e a relevância da fala mítica fossem avaliados pelos jurados hoje no Rio de Janeiro, com certeza o título estaria com a Tuiuti.

Concluindo

Percebemos então que há questões em jogo nessa polarização carnavalesca extremamente relevantes para o atual debate público brasileiro: surgiu uma narrativa nova e ela está em disputa com a narrativa oficial, e as duas foram mostradas pelas falas míticas das escolas de samba em questão. O desfile da Paraíso do Tuiuti foi um grito dos oprimidos. Com seus mitos muito mais próximos ao cotidiano de qualquer brasileiro e tratado de uma forma muito mais orgânica e crítica, a Tuiuti mobilizou uma memória que todos os dias assombra pessoas como Fátima Bernardes e ela e sua classe tentam apagar de suas cabeças e do mundo: o fato dela, e/ou a classe dela, ter uma empregada doméstica negra não é fruto do acaso, mas de um contexto histórico de exploração.

Por sua vez, a mobilização conservadora em prol da Beija-Flor se justifica por uma narrativa muito mais pasteurizada e ao gosto da grande mídia. E isso não acontece por um acaso também. Nessa mesma obra Barthes define assim o mito predileto da burguesia: o facto burguês absorve-se num universo indistinto, cujo único habitante é o Homem Eterno, nem proletário, nem burguês. (idem, pg 293).

Desse modo, a depender da fala mitológica que escolhermos nesse carnaval, podemos cair numa naturalização das desigualdades ou numa fala que aponta o dedo na cara de nossa burguesia. A elite burguesa, como sempre, tirará sua responsabilidade naturalizando no sujeito oprimido a sua condição de oprimido: é a ganância das elites, que você, por ser ser humano, também possui, a culpada disso tudo.

Ou seja, a estratégia discursiva da burguesia brasileira foi, nesse carnaval, em colocar na conta de um “homem eterno dominado pela ganância” as mazelas sociais. Enfim, mais uma estratégia de naturalização das desigualdades. Por conta disso que a verdadeira campeã desse carnaval foi a Paraíso do Tuiuti pois, segundo Bakhtin, o verdadeiro riso carnavalesco não vem de cima para baixo, mas de baixo para cima.

alexandre reis.

 

* termo  usado por Jessé Souza em obra recente chamada

**  Roland Barthes, Mitologias, Lisboa: Edições 70, 2007.

 

 

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