Aline Bei: Pequeno teatro sobre o desespero

 

 

jackson-pollock

Arte de Jackson Pollock

 

Ato 1.

peguei no colo a menina enrolada no cobertor, ela não acordou. nosso trem partiria às seis, agora 4:30, na mochila pouca roupa e um livro

sobre a américa.

caminhamos até a estação, não era longe, o vento que fazia parecer distante.

a rua de terra. minha bota surrada.

passei a mão pelo rosto da menina tão

gelado. apertei o corpinho contra o peito. cantei pra ela

uma música do chile que

minha mãe costumava cantar pra mim, uma música que me acalmava toda vez que eu sentia medo do meu pai batendo nela. minha mãe cantava a música depois que meu pai batia. depois que meu pai já estava dormindo. hola chiquita, eres un mar. eres tan grande como todo el mar

um cão começou a nos seguir.

 

não tenho comida –avisei.

 

ele me olhou de volta como se dissesse

não estou aqui por você.

 

segui caminhando, esqueci uma parte da canção. esqueci, meu deus, como era?, mas isso não chegou a acordar a menina. quando entrássemos na estação tudo ficaria melhor. mais calmo. sentaremos naqueles bancos onde se sentam os viajantes, sentaremos igualmente

esperando o nosso trem e a vida vai melhorar a partir disso, tenho certeza. cinco da manhã, um frio cortante. sinto sede e o cachorro já não está, perdi o momento

em que ele se foi. quase sinto saudades, imagine. saudades daquela rabugice.

avisto a estação.

estamos chegando, sussurro pra menina. estamos quase lá

 

barulho dos pés

pela terra

 

meu som caminhando o único som e se for ouvir bem fundo

o silêncio tem qualquer coisa da nossa própria respiração. volto a cantar o hino do chile, minha mãezinha sempre comigo. agora já avisto a porta, estou vendo a porta, sussurro pra menina.

adentro o lugar,

completamente vazio a não ser pelas pessoas que trabalham ali.

compro meu bilhete, estou nervosa.

a menina precisa? não, a atende responde sem me olhar.

sento, nas cadeiras que tanto imaginei que sentaria, elas são desconfortáveis e alegres, elas

são a promessa de uma nova cidade pra nós cada vez mais perto enquanto o trem não chega. abro os botões da blusa.

tento amamentar a menina.

a boca dela

não se mexe.

tudo bem se você não quer mamar agora. você pode mamar quando quiser.

são quase seis.

Finalmente nosso trem aparece. penso por um instante que perdi o bilhete

mas o bilhete está em cima da minha coxa. entrego pro maquinista. sem bagagem? só a mochila, senhor. entro. o vagão está morno e o mundo pela janela ou parte dele, a cidade que não volto

nunca mais. sento. o trem

está vazio como tudo. a menina pesa no meu braço e não acorda,

vou colocar ela no banco.

o trem

começa a se mover, aqueles barulhos típicos. estou sentada

do lado oposto da vista e

é como se eu fizesse duas viagens. pego meu livro

sobre a américa e

é como se eu fizesse três.

leio

algumas páginas

sobre a terra, sobre a quantidade de terra na américa latina e isso me dá um pouco de

Sono. isso me dá

um tipo de

Sono

 

inédito.

 

 

**

Ato 2.

 

 

 

Senhora?

Senhora?

 

(o maquinista coloca a mão no bebê.

grita

pedindo socorro.

cai o pano).

 

aline bei

 

 

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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