Marcelo Flecha: Dramaturgia da escuta

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Em 2018 a Pequena Companhia de Teatro estreia seu novo espetáculo – ainda sem título definido –, que parte do conto A outra morte, de Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo. A montagem tem sua feitura dramatúrgica a partir da Transposição de Gêneros, sistema de adaptação literária desenvolvido pela Pequena – sobre o qual verso muito neste blog –, e que tive a alegria de fazer reverberar no projeto SESC Dramaturgias, ano passado.

Essa dramaturgia está em processo. Iniciada dia 30 de dezembro de 2016, uma série de etapas foram cumpridas – entre pesquisa, transporte de gênero e dramaturgias superpostas – e chegamos ao momento mais prazerosos; quando o esqueleto dramatúrgico desenvolvido passa a ser oralizado, para que eu possa ajustar o texto, percebendo intenções, embocaduras, e ir polindo o dito com a melhor ferramenta: a fala do ator.

Normalmente, essa prática ficava a cargo dos atores do nosso grupo, e esporadicamente algum amigo mais próximo nos auxiliava com a leitura do texto em questão.

Nesta montagem, e sem programar formalmente essa proposta, passamos a convidar outras atrizes e outros atores para nos auxiliarem na empreitada, e começamos um delicioso exercício de encontros, escutas, conversas, reflexões; alargando mormente a extensão da função das leituras, e possibilitando um outro estado de percepção da feitura dos conflitos.

Para mim, o exercício da escuta, quando estou escrevendo um texto de teatro, é revelador. Fazer parte de um grupo traz esse privilégio para quem escreve, pois dispõe do profissionalismo dos seus pares para que a vocalização da escrita se efetive, e se possa entender – dramaturgo, encenador, atores, produtora – como as palavras vão sendo salivadas, mastigadas, saboreadas e engolidas, até que reste apenas o sumo do que precisa ser dito, e sua forma.

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Estender essa experiência a outras vozes, então? É tão provocador quanto ouvir um sonho de Katia. Na pluralidade de tons, entonações, intensões, opções, resmungos, sorrisos, a contextura da dramaturgia vai ganhando conflitos; nós, argumentos. A ideia impalpável e fria da personagem – que até então era apenas um monte de palavras agrupadas em papel – ganha a materialidade polifônica que uma personagem escrita precisa ter para que desafie o próximo leitor a aturar a sua sina, porque se uma personagem não captura pelo menos um leitor, está fadada a adormecer eternamente entre as capas de um livro, ou muito pior, na sóbria combinação de magias informáticas que transformam a mais complexa personagem em um gélido arquivo de texto.

A singular experiência agrupa outros exercícios tangenciais, mas nem por isso menos provocativos. Ao nos imaginar recebendo amigos na sede, para uma leitura, a ideia de criar ambiências para elas foi imediata; saudando a generosidade dos leitores com uma estética que dilua qualquer vestígio de tédio que o convite possa despertar no coitado. Essa decisão, meramente formal, foi gerando uma investigação que, mesmo não tendo o compromisso de dialogar com a nova encenação, acaba possibilitando o terreno fértil para a experimentação de materiais, luminosidades, formações, dimensionalidades, alargando a colheita criativa que a proposta de ler entre amigos fertiliza.

Outro exercício é a própria reflexão sobre o dito. Inevitavelmente, o diálogo reflexivo durante e após a leitura se estabelece organicamente, já que o leitor se depara com a curiosa possibilidade do entrar em contato antecipadamente com os dizeres de uma peça de teatro que verá no futuro, quando da sua estreia. Essa abertura de processo não formal alimenta as reflexões que a confecção da dramaturgia no estágio atual necessita, e consigo desenrolar pensamentos complexos com a simples observação da sábia amiga que sentencia: é isso.

Quem diria. Para um sujeito artista, rígido e estruturado como sou, os desenlaces que uma sugestão simples e despretensiosa como a de “dar uma lidinha no texto” são de uma potência desajustada. Devem ser sinais de novos tempos, agora, que cinquenta anos de rigor já se passaram, e surge um novo velho homem. Dadá me conserve assim.

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MARCELO FLECHA

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