Santiago Santos: Da estrutura insistente da chama

 

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Esturricando. Mais que isso. Cheiro de algo carbonizado que continua queimando, plástico que cozinha na panela de seu sangue artificial, cinza prensada sobre cinza ardendo no coração de um carvão infindável. Cheiro que faz arder a gengiva, seca os olhos, escala as narinas e ferra as cartilagens como faca enfiada e torcida por mão treinada.

Há semanas que acordo com esse cheiro impregnado no corpo, na cama, no quarto, mas ele evapora com as remelas, numa esfregada. Lavo o rosto no banheiro, baldes e baldes de água no cavuco da mão. A memória do cheiro some no correr do dia, como sonho que evapora no andar das horas, e parece mesmo isso, um sonho desperto que tateia as fibras da realidade mas nunca pode meter a cara e arrebentar as divisas que separam uma coisa da outra.

— Tudo bem, amor? — vem do quarto a voz de Mona. Ela sempre acorda quando me levanto e fica esparramada na cama, mexendo no celular.

— Tudo. Só aquele cheiro de novo — falo alto pra ela me ouvir atrás da porta fechada.

Entro no box, ligando a ducha no máximo, a água morna furando o embaraço do cabelo pra massagear o couro. Minha mãe, dizendo que se deixasse eu passava horas embaixo da água. Lembro dela nos finais de semana, perguntando trocentas vezes por dia se a gente tava com fome, querendo enfiar goela abaixo a comida que não tinha tempo de fazer durante a semana, e eu minha irmã preocupados com os desenhos, brigando pelo controle da TV. Ela vestia um roupão no sábado de manhã e só tirava na noite de domingo, quando dizia que tinha recuperado as forças pra voltar pro hospital. Recepcionista do meu pai, cardiologista, mesmo depois do divórcio, conectando as ligações no consultório das namoradas que apareciam, uma depois da outra. Ainda hoje me pergunto porque ela se torturava desse jeito.

— Vamos, Miguel, sai desse chuveiro, preciso me arrumar — Mona diz, entrando.

Pego o xampu e esfrego, olhando através do vidro do box os contornos dela escovando os dentes, depois espremendo uma espinha no queixo. Minha esposa é linda. Apesar das manchas fuliginosas cada vez mais espalhadas pelo corpo, ameaçando cobri-la toda.

Visto o uniforme da fábrica e deixo a água esquentando na cozinha. Começo a passar manteiga num pão de forma quando Mona vem lá de dentro pelada, abre o zíper da minha calça e enfia meu pau na boca. Me empurra na poltrona e continua até sentir ele duro. Então encaixa os joelhos nas almofadas e senta. Aperto sua bunda e seguro mas é ela quem dita o ritmo. Não digo que não posso me atrasar nem que é melhor tirar o uniforme porque sei que Mona é assim, intempestiva. Ela mexe até cansar os joelhos e pede pra ficar por baixo. Ergo ela e a coloco na poltrona, segurando suas pernas abertas na altura do peito.

Então sinto de novo. O cheiro do fogo, estalando sob a chaleira, um estopim, mas mais que isso. Esturricando, ardendo. Um lampejo de dor que quase abre a cabeça no meio. Me afasto de Mona, tropeçando até a parede, as mãos nas têmporas, querendo manter as metades juntas.

— Amor, o que foi? Você tá bem? — ela me pega pelos ombros, tentando ler meu rosto. Me leva até a cadeira, me dá um copo de água. Bebo. Tem gosto de cinzas. — Vamos no hospital, Miguel. Liga no trabalho, eu levo você.

— Não precisa, eu tô bem. Tô bem. Já passou.

Ela fica mais um tempo tentando me convencer. A chaleira apita. Água no filtro. O cheiro do café encobre tudo.

— Tô pensando em visitar minha mãe depois do serviço, Mona. Quer ir junto?

— Querido, sua mãe não tá mais por aqui, lembra? Já falamos sobre isso antes.

Tomo o café e saio. Aperto o botão do elevador, mas vejo a fumaça saindo por debaixo da porta. Não vai subir. Pelas escadas, então. Os vizinhos continuam ali, caídos de um jeito e de outro, encolhidos, espremidos contra os degraus. As paredes pintadas de espirais negras. Na frente do edifício, venço a montanha de detritos, obstáculos empretecidos que me separam da cidade.

Na esquina, no ponto de ônibus, sento e fico olhando o prédio, as janelas ainda soprando filetes espiralados. Olho pra entrada, vazia de gente, soterrada de todos os lados, o portão derrubado, a calçada tomada. Já não sinto vontade de voltar. Sinto vontade de tomar aquela ducha de horas. Da comida de minha mãe durante os desenhos.

O ônibus chega. O motorista nem me cumprimenta mais, escandalizado com o rastro de fuligem que deixo por onde passo, na rua, no corredor do veículo. Sou o único que senta sozinho nos bancos duplos, aproveitando o vento gelado da rua, que leva o cheiro de queimado pra trás, pro fundo, pra longe.

santiago-santos

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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