Aline Bei: Brutal

‘Édipo Rei’ (1922), de Max Ernst

 

 

quando chegou em casa a primeira coisa que ela fez foi pegar a gaiola.

o prego

inesperadamente órfão sem ter que carregar um peso, nada, começou por isso a reparar no próprio corpo

enterrado na parede há tanto tempo

um mundo de parede

ao redor de seu ferro magro.

eles se olharam, o prego e a parede, mal e mal como podiam se olhar duas criaturas assim tão mortas. pressentiam algo

de ruim.

a mulher

colocou a gaiola em cima da mesa com uma força desnecessária.

o canário

virou a cabeça e seu olho por inteiro preto

parecia perguntar o que, afinal, estava acontecendo ali.

a mulher se apoiou na pia.

chorava, se alguém escutasse, mas

não tinha ninguém

na cozinha

tampouco pro pássaro o ângulo era bom pra entender, a grade na frente, ele mexia ansioso a cabeça de um lado

pro outro.

finalmente ela se virou pra gaiola.

abriu a

grade

o pássaro no pauzinho beliscou o jiló e o jiló escapando

a mulher deu as costas e

foi pro quarto

lentamente fechou

a porta

deitou de bruços na cama vazia

tentando farejar um

rastro dele

algo que tenha ficado, qualquer coisa,

o canário o último vestígio.

ela abriu a gaveta da cômoda, tomou um remédio pra dormir. o jesus no quadro

daqueles que se mexem conforme a gente anda

também dormia.

na cozinha o pássaro

ainda na gaiola

que ele fecharia, se possível, e tentou

 

 

o prego e a parede assistindo

 

 

o pássaro puxando a grade com o bico

mas

era tudo tão pesado que ele

se desiquilibrou e

caiu

da mesa

com seus olhos tão pretos.

 

 

anoiteceu.

 

 

foi quando a mulher

reapareceu na cozinha, o rosto inchado,

e viu

 

o pássaro no chão perto da mesa

ele já tinha virado bolinha pra dormir.

 

suspirou.

 

pegou o bicho

ele acordou de sobressalto uma mão de repente em mim.

começou a virar o pescoço daquele seu jeito de lidar com o medo para não

explodir, a mulher

bem que poderia ter dito uma palavra de afeto

algo como

 

calma,

vai ficar tudo bem

 

mas seu marido agora estava morto

e ela não sabia mais por onde começar.

caminhou até o quintal

colocou o pássaro

em cima do muro

pensando que ali ele entenderia

o seu novo

Estado

ela bem que poderia ter contado uma história pra ele entender, uma anedota como fazia o seu marido,

ao invés ela voltou

pra cama arrastando os

chinelos

de propósito, jesus observou.

 

no quintal

 

o prego e a parede teriam feito alguma coisa se pudessem, o passarinho olhou pra eles. socorro, ele parecia pedir

virando tanto

o pescoço que

uma hora a cabeça caiu.

 

aline bei

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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