O MASP inaugura o ciclo de 2018 com a exposição ‘Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência’

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O MASP inaugura o ciclo de 2018, dedicado às histórias afro-atlânticas, com as exposições de Maria Auxiliadora e Aleijadinho, no dia 9 de março. Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência apresenta 82 obras de Maria Auxiliadora (Campo Belo, Minas Gerias, 1935 – São Paulo, 1974), que cresceu em São Paulo, em uma família de artistas brasileiros autodidatas integrantes do movimento negro. A exposição pretende renovar o interesse na original produção da artista, ampliando as leituras sobre sua vida e obra para além dos rótulos, que comumente a associaram à arte chamada “popular”, “primitiva”, “naif” ou “afro-brasileira”.

Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência ocupa a galeria e o mezanino do primeiro subsolo do Museu e está organizada em seis núcleos temáticos, que agrupam as obras em “Autorretratos”, “Casais”, “Interiores”, “Manifestações populares”, “Candomblé, umbanda e orixás” e “Rural”, com base nos temas mais recorrentes de sua produção. Em suas telas, Auxiliadora confere protagonismo ao negro — que é sub-representado na história da arte brasileira em relação ao seu peso cultural e social, ou então tem sua presença personificada em tipologias fixas, como a do escravo ou do trabalhador manual. Na tela de Auxiliadora Mobral (1971), por exemplo, vemos um professor negro à frente da classe ministrando aulas.

Segundo um dos curadores da mostra, Fernando Oliva, “a exposição privilegia trabalhos nos quais uma postura combativa e de recusa se manifesta de formas diversas, tanto no plano das próprias telas, com uma figuração inusitada, como na resistência da artista a aprender a pintar, afastando-se do elitismo do bom gosto”.

Outro tema recorrente na obra de Auxiliadora foi a morte, especialmente em seus últimos dois anos de vida, após descobrir um câncer e precisar passar por sucessivos tratamentos e operações. Durante esse doloroso processo, Auxiliadora representou a si mesma em meio a cenas no leito de morte, em que aparece rodeada dos familiares, recebendo a extrema-unção, como em Sem título (Última unção) (1973); em seu velório, vestida de noiva, como em Velório da noiva (1974), do acervo do MASP; e já no céu, em Autorretrato com anjos(1972), em que surge diante de um cavalete, pairando, cercada por anjos que sustentam suas telas, pincéis e tubos de tinta.

Maria Auxiliadora utilizou materiais diversos, como óleo, guache e acrílica, em suportes variados, como tela, cartão e chapas de madeira. Suas composições têm cores vibrantes, com uso recorrente de padrões geométricos. Nota-se uma decisiva recusa ao uso da perspectiva, por exemplo, em A preparação das meninas (1972), no qual a parede do banheiro é representada com uma padronagem de pequenos quadrados verdes sob fundo preto, enquanto o espaço do chão é sugerido a partir da mudança de padrão para losangos pretos e brancos. Além disso, a artista reproduzia texturas de tecidos e rendas, que incorporava em suas telas inspirada pelos pontos que aprendeu a bordar com sua mãe, Maria de Almeida, também artista.

Auxiliadora desenvolveu ainda uma técnica própria para representar volumes de partes do corpo, como cabelos, nádegas e seios. A artista agregava tinta a óleo, mechas do próprio cabelo e uma massa plástica usada para reparos domésticos, aplicando a mistura nas telas e obtendo assim o típico efeito de alto-relevo que se tornou marca de sua produção. Tal recurso pode ser visto em obras como Velório da noiva (1974), A preparação das meninas(1972) e Banhistas (1973).

A partir do final dos anos 1960, Auxiliadora passa a expor suas obras na feira de artes da Praça da República, ao lado de artistas como Ivonaldo Veloso de Melo, Paulo Vladmir, Isabel dos Santos, Crisaldo de Moraes, Neuton, Isabel de Jesus. Na década de 1970, conhece o crítico de arte Mário Schemberg, que compra suas obras e a apresenta ao cônsul dos Estados Unidos, Alan Fisher. O cônsul organiza a primeira exposição individual da artista, na Galeria do USIS (serviço de informação norte-americano), no Conjunto Nacional, em São Paulo. Nessa mostra, todas as suas obras são vendidas. Ainda pela mediação do crítico, Maria Auxiliadora é apresentada ao marchand e colecionador Werner Arnhold, que introduz as obras da artista em exposições e galerias na Europa e nos Estados Unidos. A partir de então, ela ganha projeção internacional.

Sua relação com o MASP tem início em 1973, ao integrar a coletiva Exposição Afro-Brasileira de Artes Plásticas, mas consolida-se dois anos depois, quando Pietro Maria Bardi, diretor fundador do Museu, escolhe uma de suas pinturas para estampar a capa da coletiva Festa de Cores (1975). Nos anos seguintes, Bardi lança um livro sobre a artista em quatro línguas – português, inglês, francês e alemão – e realiza uma individual sua no MASP, em 1981, com cerca de 70 pinturas. Porém, a partir de meados dos anos 1980, a obra de Auxiliadora cai em gradativo ostracismo, chegando à atualidade praticamente esquecida.

Por isso, além da exposição que reúne, depois de mais de três décadas, parte da produção de Auxiliadora, o MASP lança um catálogo com 12 ensaios inéditos, de Adriano Pedrosa, Amanda Carneiro, Fernando Oliva, Isabel Gasparri, Karen Quinn, Lilia Schwarcz, Lucienne Peiry, Marta Mestre, Mirella Santos Maria, Renata Bittencourt, Renata Felinto e Roberto Conduru; 3 republicações de textos históricos, de Mário Schenberg (1970), Lélia Coelho Frota (1975) e Pietro Maria Bardi (1977); e 1 nota biográfica, de Artur Santoro. Além das 82 obras selecionadas para a mostra no Museu, a publicação traz ainda reproduções de outras 82 pinturas localizadas durante o processo de pesquisa, compondo o mais completo livro sobre a artista já lançado. A organização editorial é de Adriano Pedrosa e Fernando Oliva.

Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência abre o ciclo em torno das histórias afro-atlânticas. O programa está inserido em um projeto mais amplo de exposições, palestras, oficinas, seminários e atividades do MASP, que atenta para histórias plurais, que vão além das narrativas tradicionais, tais como Histórias da loucura (iniciada em 2015), Histórias da infância (em 2016) e Histórias da sexualidade (em 2017). A programação inclui ainda uma série de mostras monográficas, sobre a obra dos artistas Aleijadinho, Emanoel Araújo, Melvin Edwards, Rubem Valentim, Sônia Gomes, Pedro Figari e Lucia Laguna.

Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência tem curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, e Fernando Oliva, curador do Museu. O escritório de arquitetura METRO Arquitetos Associados assina a expografia da mostra.

“Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência”
10 de março a 10 de junho de 2018

MASP:

EndereçoAv. Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo 

 

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