Santiago Santos: Do lar a que torna o filho

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Não achei que eu fosse voltar aqui tão cedo, Glória. É algo que você me impediria de fazer se pudesse, não é?

Engraçado como não mudaram a decoração, mesmo depois de todos esses anos. Aquele quadro na parede, tão deslocado, e a equipe que veio depois não parece ter se incomodado com ele. Sempre me incomodou, lembra? Mas era a única pintura do filho morto do general, aquele navio sozinho no mar, e se dependesse dele a base inteira mudava de lugar e o quadro ficava ali. Vejo que continuaram usando as instalações principais. Pra fazer outros testes. Pra produzir resultados que são rascunhos do que construíram naquela época. Eu assisti os vídeos, Glória. Até quando você acha que pretendem continuar?

O que eu quero mesmo é ver nossa casa, atrás das comportas fechadas que abri como se fossem um vidro de palmito. Você adorava ouvir isso, lembra, Glória? Metáforas. Você as achava intrigantes. A poeira deu um jeito de entrar, de invadir um ambiente praticamente selado a vácuo. É que nunca fecharam os dutos de ventilação, e embora o ar-condicionado daqui não seja mais ligado, as partículas de poeira deram seu jeito teimoso de viajar e fazer curvas e pular pela grade pra se assentar nas mesas e nas cadeiras em que sentavam nossos cuidadores, analisando tudo por gráficos e números nas telas que traduziam o que os sensores plugados em nossos crânios decodificavam, ali atrás daqueles vidros, dos vidros das três caixas, como eles chamavam, e que eu costumo chamar de celas, onde a poeira não entra, talvez porque seja óbvio que não sejam lugares de invadir, mas de se escapar.

Eu confesso, Glória, que fiquei surpreso quando vi que na cela do meio, a de Carlinhos, a cama ainda estava forrada com o lençol de foguetes. Isso porque numa das milhares de simulações em que os cuidadores trataram de induzir aventuras direto nos nossos cérebros dopados e interligados com a sua ajuda, ao fim de um dos embates com um inimigo que nem lembro mais quem era, foram tantos, Carlinhos resolveu descer até uma casa no descampado que lhe era estranhamente familiar. Eu e Fred o seguimos. Um homem barrigudo mexia algo num panelão na cozinha, e de um dos quartos vinha uma respiração rouca, arquejante, e ali vimos Carlinhos sentado na ponta do colchão, segurando a mão enrugada de uma mulher muito velha, de olhos fechados. E ela estava coberta até o peito, que mal se mexia, com o lençol de foguetes. Carlinhos olhou pra gente e disse, e acho que essa foi a primeira vez em que disse isso, tem algo errado aqui. Lembra, Glória?

É claro que lembra. Foi quando você e os cuidadores começaram a entender que o pouco de interação que a gente tinha com o mundo real, como andar pela base e olhar praquele quadro horrível e pisar na grama do estacionamento e comer algo sólido no refeitório, coisas que fazíamos hipnotizados apenas pra não perder as funções motoras do corpo, pra não virar uns sacos de gordura deitados na cama por anos a fio, tudo isso inundava as simulações, e sempre que o cheiro da realidade se insinuava, vocês temiam perder o controle. E triplicavam a dosagem pra nos manter dóceis. Logo devem ter feito as contas e perceberam que não conseguiriam nos conter por muito mais tempo.

Vejo agora o risco que correram ao nos libertar, nos deixar soltos ainda que por poucos minutos no mundo real, onde erros não podem ser apagados. Mas seus cálculos estavam certos, Glória, como sempre. Imbuídos de uma missão muito clara, a percepção do real não teve tempo de se instalar de fato em nossas cabeças, não antes que a gente alcançasse aquela carcaça abandonada no meio do espaço, que um de nós percebesse que aquilo não combinava com os vilões mesquinhos e planos bizarros a que estávamos habituados, não antes que a compreensão de que aquilo era uma emboscada se fizesse clara, não antes que a bomba explodisse e nos erradicasse, a nós três.

Mas não deu certo, vê, Glória? Eu ainda estou aqui. Não sei o que houve com Carlinhos e Fred, se também sobreviveram, mas vou descobrir. E isso aqui é casa. Origem. Não é o que dizem? Que quando tudo dá errado a gente volta pra casa, pro seio de quem nos consola? Eu sei que você ainda está aqui, Glória. Ainda que os anos tenham passado e você não tenha sido acordada, ligada, utilizada. Sei que está armazenada em inúmeros servidores ao redor do mundo, em backups na nuvem, em dispositivos salvaguardados em esconderijos. Mas toda mãe precisa morrer um dia, é a lei da vida. Eles não podem fazer isso com mais ninguém. Não podem voltar a usar essas celas, ou construir novas.

Às vezes me pergunto se ainda estou numa simulação, numa simulação de nível superior, em que a realidade que percebo agora seja apenas o invólucro desejado pra me manter em coma induzido, já que não saberiam como me matar. Seria seu grande trunfo. Há como saber, Glória? Claro que não. Você não seria tão tola, não é?

 

santiago-santos

 

Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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