Santiago Santos: Do abrigo antigo da água

 

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Ouviu isso, Januário?

Pararam. O vento ciscando nas folhas. Um pio ou outro. As solas das botas pranchando a terra, os ramos. As respirações atravessadas.

Ouvi nada não, Ed.

Parecia um grito. Mas longe. Será que um dos índios se machucou, topou com cobra?

Sei não. Continua. A gente tem que chegar no rio.

Não havia trilha. Havia um caminho de mato alto por entre as árvores, de chão firme, onde as botas fincavam. As espingardas penduradas batiam nas coxas.

Acho que a gente não tá indo pro lado certo, Ed. Certeza que é presse lado?

Certeza eu não tenho. Mas lembro de ter visto lá de cima que era pra cá.

Pra cá, pra lá. Você viu o tanto de curva. Qual era o ponto de referência?

O sol, caralho. Vai indo, tamos certo sim.

Suor descia pelas dobras da testa, ladeava os olhos, pingava do nariz, do queixo barbado. Mosquitos zuniam de ouvido a outro, mas não pousavam, sem pista seca na pele queimada, movediça.

Aí, Januário. De novo.

Agora ouvi. É bicho, não é índio. Tem outro.

Tá vindo da frente ou de trás?

De trás. Anda, homem, acelera!

O urro vinha a intervalos cada vez menores, mais próximos. Januário agora segurava a espingarda à frente do corpo, engatilhada, e repisava as pisadas de Ed, que abria caminho. No casaco de Ed a riqueza. O rugido muito próximo. Januário parou, virou, apontou.

Continua, Ed! Vou segurar o bicho! Te encontro no rio!

Ed não respondeu. Mas ouviu. Não bem um grito. Um rasgo. Em algum momento a bandoleira da espingarda prendeu num galho. Com um tranco que quase deslocou seu ombro, a arma ficou. As árvores rareavam. O urro. Ed viu o rio, brilhando centenas de metros à frente. Precisava atravessá-lo. Alcançar a outra margem.

Avançou mais alguns metros. Rolando. A cabeça percorreu o resto da inclinação e estacionou numa pedra. Os olhos voltados pro rio não fecharam ângulo na fonte das fungadas quentes, atrás, investigando o corpo.

No bolso do casaco, o dente ensaguentado da cria.

santiago-santos

Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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