Santiago Santo: Dos cadarços desamarrados

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Ajudo a segurar o Valmar pelos pés, enquanto Morro segura os braços e o genro do Morro enfia uma pinça enorme de ferro na barriga dele, cavucando pra pegar a bala. Os gritos são abafados pelo pano enfiado na boca do coitado, branco de tanto perder sangue, suando frio, o cabelo encharcado. Fora, os homens andam de um lado pro outro da rua, porque sabem que estamos escondidos em uma das casas. Se ouvirem os gritos amarfanhados do Valmar, ferrou. Por outro lado, se não tirarmos a bala e costurarmos, ele não vive mais cinco minutos.

A bala enfim aparece na ponta da pinça, amassada contra algum osso, e despenca no chão. Largo os pés de Valmar e me aproximo da janela, puxando a cortina, pegando o revólver do bolso.

Que cê tá vendo, Marlon?, diz Morro.

Tem dois deles fumando lá na esquina, digo. Não tô vendo mais ninguém. Vou tentar a janela da cozinha.

A cozinha fica na lateral da casa que dá pro outro lado da rua. Vejo mais homens batendo em uma porta duas casas pra baixo. Um senhor abre. Eles falam algo e entram, empurrando.

Eles tão checando as casas, digo. Logo vão chegar aqui.

Ferrou, diz Morro.

E se vocês se entregarem?, diz o genro dele, único honesto — e ingênuo — aqui.

Eles querem sangue, guri. Taí o Valmar de prova.

Bom, segura ele de novo, diz o garoto. Preciso costurar.

Ele dá uns pontos, Valmar volta a gritar, e então ouvimos as batidas. Olho pro guri assustado, casado com a única filha do meu comparsa. Vou até a porta.

Dou os dois tiros que restam na madeira, um pra cada lado. Então me afasto, e tiros lá de fora varam porta adentro. Corremos pros fundos. Apanho o Valmar da mesa e coloco nas costas. Bicho pesado da porra. O Morro sai da casa empurrando o guri na frente, mas os homens já tão ali fora de butuca.

O guri cai primeiro, sangue espirrando dos dois lados, e o Morro cai na sequência. Não olho pros atiradores, sei que são no mínimo seis. Pulo um, pulo outro, continuo. Valmar pesa, mas dá nada.

Corre, Marlon, diz o Valmar, ou acho que diz, balançando igual lambari na terra nas minhas costas, você sempre foi bom nisso.

É verdade. Meu pai, que trabalhou na polícia depois de pedir dispensa do exército, treinava comigo todo dia cedo, antes do serviço. A gente saía antes da minha mãe acordar, ia até o porto e voltava. Ele comprava pão, e a mãe de camisola com o café pronto, sempre, quando a gente chegava.

Correr é coisa de objetivo. Ele me falava isso. Você estipula uma meta, como uma volta completa no bairro, ou até a ponte, ou até ali adiante, depois das casas do outro lado da rua, onde não tem mais ninguém atirando. Você dispara e começa a pensar noutra coisa, evita o mero pensamento de desistir

porque você não vai desistir, mesmo que enfrente uma subida e perca o fôlego e sinta os pulmões ardendo, você não para,

só desacelera, mas continua, e danem-se os obstáculos, o peso no ombro, as balas varando

as coxas, as costelas,

o peito, você continua

porque não pode

nem de longe

admitir

que vai

desis

 santiago-santos
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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