Aline Bei: Noite mal dormida

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Arte de Anthony Mazza

 

minha mãe abriu a janela, mas antes

a porta, o peso da mão dela interrompendo o quarto escuro

espalhando

pela casa

o cheiro do meu

sono, é tão

íntimo o cheiro de quem dorme e por isso se abandona, por isso está sem máscara sendo quem se é.

depois ela

puxou meu lençol

dizendo que

já era Tempo

meu pobre joelho

ossudo.

que horas são?, pergunto desprevenida, o vento invadindo

a pele

minha mãe falando sobre como ela era

quando tinha a minha idade

eu querendo virar

de bruços

desaparecer na

cama movediça, mas

eu estava de camisola e não podia

deixar que a minha bunda aparecesse.

minha mãe fica muito Brava

quando minha bunda aparece

e me bate

apanhar assim tão cedo eu não consigo mais.

talvez

seja melhor acordar de uma vez por todas

pensei tentando

descolar meus olhos

minha mãe varrendo

o quarto ela não gosta

de sujeira e fala muito

de sujeira

me surpreendo porque sou o próprio silêncio.

 

talvez

talvez eu seja assim

 

por ela nunca ter me dado espaço

você nunca me deu

espaço

 

digo levantando mas ela não escuta

nada além da própria

voz

 

e enquanto me dirijo

pro banheiro

minha mãe me dirige um

 

sorriso

 

que sei, já aprendi, não é

exatamente pra mim, é

pra ela mesma

 

uma vez acreditei na boca e

caí.

 

imaginei ali do chão

uma mãe sem morte aos noventa anos

 

vamos almoçar juntas,

eu só almoço se formos juntas.

 

sei

 

que ela vai precisar muito

de mim

quando ficar mais

velha

logo eu que preciso muito

do silêncio e minha mãe não cala

a boca entra comigo no

banheiro pra seguir contando suas histórias sempre as mesmas

que eu não quero ouvir, mãe, Chega, sinto vontade de bater a cabeça dela

no espelho.

 

vão me prender, se eu fizer isso, dirão que sou uma filha estúpida

 

mas ninguém sabe

Ninguém no mundo imagina

tudo o que eu tive que aguentar até aqui

e bato

a minha própria

cabeça no espelho, ninguém vai me prender por isso,

bato

cada vez mais forte e o espelho

 

 

não quebra, não sangra

 

é como se eu estivesse mergulhando

num rio e lá no fundo um peixe a cara da minha mãe.

aline bei

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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