Santiago Santos: Dos buracos da estrada de chão

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O filho no carro. A cabeça no colo do pai. A cabeça do pai virada pra janela, pra fora, o chão atapetado de grama até a árvore, pouco visível, só o farol do carro iluminando a estrada. O tronco grosso, os dois homens de terno e chapéu, e entre os pontapés e bicudas, no chão, outro homem, resfolegando, cuspindo.

A cabeça do filho mexe. O pai faz cafuné. Um dos homens de chapéu se aproxima do carro. Troca umas palavras. O filho acorda de vez, senta, olha pra cima, pra cara do homem quase pregada na cara do seu pai. Eles sussurram umas palavras arrastadas, a língua da terra distante, que o filho reconhece mas não decodifica, não ainda. Coça os olhos. O homem se afasta. Ele pergunta pro pai por que pararam ali. O pai diz pra descansar um pouco. Ele diz que precisa fazer xixi. O pai abre a porta do outro lado. O menino pula as pernas, desce, abre a braguilha da calça.

Ouve os gemidos, gritos abafados. Dá uns passos pro lado, ainda mirando o xixi no pneu, olhando por cima da ponta do capô. Vê a árvore, os três homens, um deles com uma corda grossa em volta do pescoço. Esse homem geme, se contorce, alguma dor na barriga que o garoto não vê. O pai percebe pra onde vai a atenção do filho. Desce do carro. Pergunta se tá tudo bem. O garoto faz que sim, o xixi ainda correndo.

O pai diz que também precisa se aliviar. Abre a braguilha, mas virado pra rua, diz pro garoto virar junto, fazer um buraco na terra com o jato quente. O pai acaba e agacha, medindo a poça de mijo. Diz que logo vão chegar, pergunta se ele tá com fome. O filho balança a cabeça, tá, coça o olho, tira remela. Lembra. Que o homem da corda é o homem que buscaram naquela casa, onde ele tinha ido passar férias. Tinham vindo buscar o homem de férias, o pai queria muito conversar com ele, eram velhos amigos, de antes dele nascer, e pergunta o que tá acontecendo, o amigo do pai tá doente?, por que não seguem pra cidade pra levar ele no hospital?

O pai diz que não, que o homem não tá doente, e que eles tão conversando ali pra entender o endereço, que o homem mora pra dentro daquele mato com a família dele e vai seguir viagem sozinho agora, e querem entender onde é que fica certinho pra poder voltar um dia pra visitar, não ficarem tanto tempo sem se ver. E que tá tudo bem. O pai ergue o filho e coloca no assento, entra atrás, fecha a porta.

O menino logo se dependura na janela do outro lado, voltando a olhar pra fora, e agora o homem tá bem mais alto que os outros, a corda amarrada na árvore retesada, ele lá em cima, balançando os pés, e o pai diz que tão fazendo uma última brincadeira, e puxa a cabeça do filho de volta pra perna, pro colo, faz cafuné, diz pra ele dormir que logo vão chegar, e o garoto dorme, não porque o pai pede ou porque se desinteressa do que acontece ali fora, mas porque o pai assovia a música da galinha dos ovos de ouro, e é a música que a avó canta pra ele dormir, e dorme embalado pelo carro na estrada de chão, subindo pra cidade, o amigo do pai lá atrás ainda brincando de balançar na árvore.

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Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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