Aline Bei: Perfil da presidiária

xcxc

Edvard Munch

pilar dirigia em ruas locais com tanta velocidade que

os telhados das casas

chegavam a

não sei, posso estar exagerando, mas os cães se

não estivessem presos e as crianças

se não estivessem dentro

dos computadores,

meu deus. o problema da pilar é que ela dirigia como se não houvesse mundo do lado de fora

culpa da música

sempre alta

ela aprendendo inglês cantando beatles, as frases finalmente entrando.

pilar também gostava de escutar salsa

no carro

se imaginava em cuba, queria ser fotografada depois transar

com o fotógrafo em algum muro e

seguir caminhando

suada de sexo

ela se imaginava bonita fazendo isso

porque nunca se olhava no espelho vendo a si mesma, ela

via seus sonhos.

o último aniversário de pilar fora das grades foi em um clube de salsa. ela quase acendeu um charuto

mas achou caro

no fim das contas preferiu tomar um dry martini.

Pilar.

você

dirige muito

rápido,

é pressa?

Não.

é que

quando eu entro

em um túnel

tenho vontade de

engolir o túnel.

 

às vezes

a pilar pensava em se jogar da ponte

com o carro

não era uma ideia suicida de alguém que estava deprimido

era curiosidade

pilar queria saber o que aconteceria se o carro virasse, igual nos filmes,

queria saber da dor, se a pessoa desmaia ou

sente tudo.

perguntaram pra ela, numa festa, como você gostaria de morrer?

 

– queimada.

– Nossa. – disseram. – mas essa deve ser a pior morte.

 

e toda gente foi se

afastando, a roda de amigos sumiu.

a pilar só foi se arrepender do que disse meses depois

quando a frase grudou na testa dela certa noite

a fazendo lembrar de uma menina que entrou no metrô com o corpo inteiro queimado e o rosto, porque estava derretido, parecia constantemente triste.

a pilar ficou com medo rolando na cama

o ventilador ligado virando a cabeça

não quero morrer queimada, ela emanou

pro universo

esperando que aquilo fosse mais forte do que o primeiro desejo.

até que ela

pegou no sono

e continuou pegando

pelas noites seguintes

só foi lembrar do medo no carro, de novo e de repente, ouvindo ring of fire.

será que

aquelas pessoas da festa ainda me odeiam pelo que eu disse? ela pensou virando a rua do shopping

com a sua

velocidade de sempre

e na curva atravessando de bicicleta

um homem que

ela soube do rosto, deu tempo.

a pilar freou, foi

enorme

por instinto ela fechou o olho

de tão grande um corpo voando com bicicleta e tudo.

 

começou a juntar gente.

aline bei

 

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

Quer ficar por dentro de tudo o que acontece no Livre Opinião – Ideias em Debate? É só seguir os perfis oficiais no TwitterInstagramFacebook e Youtube. A cultura debatida com livre opinião

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s