E Pessoa estava certo. Por Fabricio Cunha

 

Eu tenho depressão.
Eu tenho transtorno de ansiedade.

Ambas controladas, mas expressas em crises repentinas e com vontade própria, cada uma com comportamentos bem peculiares que me lembram que o assombro se acerca.

Quando em alguma crise de ansiedade, meus braços e pernas tremem intermitentemente. Ênfase nas pernas.

Eu tenho um passado recente pesado. Ainda pago contas emocionais e financeiras relacionadas a ele. Trabalho em quatro cidades diferentes. Faço tudo sozinho. Tenho filhos adolescentes que já querem beijar na boca. Meus amigos estão velhos e reclamam de tudo. Preciso beber muito pra começar a ficar tonto, o que acaba destruindo o fígado sem cumprir a função alucinógena. Não tenho casa, nem carro. Já preciso usar viagra. E ainda sou síndico da vida de uma tia solteira que tem esclerose.

Eu tenho direito à depressão.

A relevância de minha vida me atribui esse direito compulsório.

Ele não.

O vi tremendo enquanto comia minha sobremesa pós almoço.

Parei.

Era o mesmo tremor que o meu.

Ele não tem esse direito.

Aprendi com o Pessoa a desejar ser mendigo. Mesmo que não seja uma vontade de fato, é legal dizer que preferia ser um andarilho, sem vínculos, responsabilidades ou ocupações que não comer e dormir. Nem banho precisa. “Não há um só mendigo que eu não inveje”.

Mas um mendigo com transtorno de ansiedade?! Por quê? Pelo que, porra?

Não aguentei.

– Moço. Por que você treme?
– Ham?
– Por que você treme a perna? Assim. Aí, ó.
– Ah. Falta de bebida. Parei de beber de manhã, senhor. Quando chega essa hora, já quase não paro em pé.
– E beber resolve?
– Todo dia.
– O tremor para?
– Em menos de dez minutos.
– Menos de dez?
– Menos.
– Até que horas você fica aqui?
– Até conseguir o dinheiro pra beber.
– Se eu te adiantar um pouco, você vai lá, toma uma, volta aqui e me espera?
– Isso é sério, senhor.
– Tão sério quanto essa de cinquenta aqui.
– Para senhor.
– Toma. Te encontro aqui às seis.

Nem deu tempo de perguntar o nome, tamanha foi minha ansiedade pelas seis e a dele pelos cinquenta.

Pessoa, que grande cara.
“Não há um só mendigo que eu não inveje”.
Nem eu, Pessoa.
Nem eu.

E já são quase seis.

 

Fabricio Cunha 

Graduado em Teologia e Ciências Sociais. Autor de “Eu, Tu, Ele, Eles” – editora Reflexão e “Juro que tentei” – editora Ofício das Palavras. Pai da Sophia, do Thiago e da Catarina.

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