Em nome da representatividade, Jarid Arraes lança selo literário “Ferina”

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Jarid Arraes (Foto de Dani Costa Russo)

Com um conselho editorial composto exclusivamente por mulheres, e com vários viés de representatividade – majoritariamente por mulheres negras, o Selo Ferina, criado pela escritora Jarid Arraes e pela também editora Lizandra Magon de Almeida, chega ao mercado literário no próximo mês de julho com dois lançamentos: o primeiro livro de poemas de Jarid Arraes, intitulado um buraco com meu nome, com ilustrações à carvão feitas pela própria autora e a coletânea de contos do projeto #leiamulheres, com textos de escritoras de todo país.

A criação do Selo Ferina, que é parte da Pólen Livros, se deu para suprir a ausência de publicações segmentadas e direcionadas.

Jarid Arraes –  Nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 12 de Fevereiro de 1991, é escritora, cordelista e autora dos livros “As Lendas de Dandara” e “Heroínas Negras Brasileiras”. Atualmente vive em São Paulo (SP), onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Até o momento, tem mais de 60 títulos publicados em Literatura de Cordel, incluindo a coleção Heroínas Negras na História do Brasil.

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Leia abaixo uma entrevista com Jarid Arraes

Livre Opinião: Como surgiu a ideia de criar o selo Ferina?

Jarid Arraes: Há bastante tempo planejava construir uma editora que publicasse mulheres, mas que não reproduzisse lógicas racistas e centradas no sudeste e no sul do país. Eu queria algo que abrisse as portas para mulheres que não seriam publicadas por outras editoras, não pela qualidade de suas obras, mas porque o mercado está fechado para quem não é branco, sudestino, para quem não escreve aquilo que está enquadrado no que rola desde sempre, com os mesmos protagonistas, as mesmas histórias, as mesmas perspectivas. A parceria com a Lizandra Magon, da Pólen Livros, veio de maneira perfeita. Nós alcançamos muito sucesso com o Heroínas Negras Brasileiras, meu livro que saiu pela Pólen, e com nossa amizade, nossas conversas, fomos percebendo que tínhamos todos esses desejos em comum. Muita vontade de fazer algo incrível, de abrir caminhos, de juntar o que sabemos e buscar contribuir para que a literatura brasileira conheça escritoras excelentes e realmente diversas.

O nome remete, claramente, à ferocidade. A ideia foi essa mesma? 

Sem dúvida. Pensei naquela coisa da “língua ferina”, no ato de falar o que precisa ser dito, de ter voz, de questionar, de não aceitar supostas autoridades, mas construir uma outra lógica. Mulheres que não se submetem sempre são consideradas ferais. Eu acho que essa é uma identificação maravilhosa. Literatura sempre é política e nós estamos muito conscientes disso. Essa também é uma indicação da nossa linha editorial, do “tipo” de literatura que queremos publicar. Temos um poema-manifesto, escrito pela Lizandra Magon, que expressa essa necessidade de falar sobre o que é feroz, mordaz, sobre as coisas feias, que doem, que nos revoltam, sobre como vamos atacar, reagir. Dizemos que palavras são garras.

Como foram escolhidos os nomes para compor o conselho editorial?

Nós pensamos em mulheres incríveis de diversas áreas relacionadas aos livros e priorizamos uma diversidade real de mulheres. Diversidade racial, diversidade de áreas, diversidade de idades, acadêmicas e não-acadêmicas e assim por diante. Queremos ensinar como se faz quando há desejo. Se você quer que seu projeto não tenha apenas homens e mulheres brancas, por exemplo, isso é mais do que possível. Há muita gente excelente com conhecimento transbordante. E essas conselheiras são maravilhosas, nos ensinam muito, tem muito a contribuir individualmente e coletivamente. Mas quero deixar claro que isso é o mínimo. Não estamos fazendo nada que extrapola, isso é realmente o mínimo. Quem não está fazendo isso que está errado.

Jarid, você começou publicando de forma independente, fez seu livro mais recente com a Pólen Livros e agora, participa ativamente da criação do selo, que vai publicar como primeira obra a sua. Como é fazer parte do processo todo? 

Olha, eu já rejeitei proposta de editora gigante por alguns motivos, entre eles o prazer que tenho de fazer parte do processo todo. Para mim é muito importante estar totalmente envolvida na construção dos meus livros e trabalhar na divulgação, nas vendas, no contato direto com meus leitores, responder todo mundo que consigo. Isso fez toda a diferença pra mim, quando todas as portas do mercado e da mídia estavam fechadas e com cadeados e correntes. Jamais vou abrir mão desse processo.

Após o anúncio do selo Ferina e do lançamento, vocês tem recebido muitos originais? Como tem isso esse trabalho de curadoria?

Já recebi vários originais, mesmo que a gente ainda não tenha anunciado que estamos recebendo (risos). Muitas escritoras estão empolgadas, eu também estaria. Meu compromisso é total, estou me doando profundamente a esse papel de curadoria, vou ler cada original. Vamos abrir períodos de recebimento com chamadas e teremos um e-mail especial para isso, para facilitar todas as etapas. Farei o trabalho sozinha e consultarei as conselheiras em casos pontuais, depois disso é seguir com as etapas, responder as escritoras. O trabalho de curadoria também envolve garantir diversidade de regiões, diversidade racial, etária, temática, etc. não é apenas publicar o que chega nos originais sem ter atenção para esses recortes, uma vez que me recuso a reproduzir o que já acontece no mercado editorial. Então é essa minha missão: ser coerente com tudo o que sempre digo por aí.

Além do livro da Jarid que já foi anunciado e da coletânea do #LeiaMulheres para julho. Tem algo mais que podemos adiantar do selo?

Por enquanto estamos trabalhando nos eventos de lançamento, na nossa participação na Casa da Porta Amarela, durante a Flip, e na minha participação em outros eventos durante a Flip também. Depois disso faremos uma agenda para o segundo semestre. Estamos no processo de mais um livro, mas por enquanto guardando os detalhes. E em breve falaremos sobre o recebimento de originais. Muita coisa, muitas idéias. Ainda bem!

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Lançamento do Selo Ferina

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