Santiago Santos: Instâncias de chegada e partida

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1. Carmem

A mão dele não era tão peluda assim. Sem dúvida foi o tamanho, os dedos enormes fechados na mulher inteira, erguendo-a, olhando de perto, fungando, investigando a reação. É claro que a tela do cinema não dá o cheiro, o mais aterrorizante agora, o leite de rosas que ele passava na nuca depois do banho, depois do trabalho, antes da janta, antes de minha mãe dormir, antes da porta do meu quarto se abrir lentamente, a luz do corredor apagada, uma sombra que se move. Colares: não uso nada no pescoço, nada se fechando ao redor dele. Um homem enorme, não um gorila em preto e branco. Peço licença pra Sara, preciso ir ao banheiro. No corredor, antes das cortinas, desmorono, ao fundo os gritos aterrorizados dos figurantes.

 

2. Lázaro

Os outros preferem comer lá em cima, balançando os pés na amurada, o vento na cara, lufadas mortíferas que pescam uma alface ou um naco de carne dos sanduíches. Mas não é por isso que sento aqui. É pela rua. Pelas pessoas, em especial as que vão ou voltam da avenida, dos prediões chiques. Carmem tá aqui hoje de novo, na lanchonete, tomando café atrás do vidro. Sei que ela trabalha na imobiliária, prédio da esquina, 11º andar. Quem me falou tudo isso e mais o nome foi a garçonete. Hoje não sou só eu que assisto Carmem, uma Carmem tristonha, tão diferente, dá vontade de abraçar, pegar no colo, perguntar o que foi. O engomadinho da mesa vizinha parece ter a mesma ideia. Coitado. Nem imagina o tipo dela. Ainda mais abalada desse jeito.

 

3. Sara

Mais um café, senhora?

Não, obrigada.

A senhora tá com fome? Acabou de sair uma fornada de croissants, quentinhos.

Só o café mesmo.

Tem certeza?

Tem algum problema? Em só querer o café?

Desculpa, dona. Mas entrei depois do almoço e a senhora tá só tomando café a tarde toda, me disseram que desde de manhã. Já aconteceu, não com umas pessoas assim bem apessoadas como a senhora, mas já aconteceu de virem aqui achando que iam passar o dia enchendo a barriga de café e desmaiarem de tanta cafeína e acabarem carregados pro hospital às pressas. Por isso é que eu pergunto.

Tá, me vê um croissant então.

Claro. Já volto.

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Aqui, senhora, trouxe um pouco de manteiga também.

Obrigada.

Já vi a senhora por aqui antes. Mas sempre com uma amiga loira.

Sim. Fomos ao cinema ver King Kong ontem de manhã, depois ela sumiu. Achei que a encontraria aqui hoje.

Ela veio ontem à noite, acompanhada.

Sério?

Sim, senhora, eu que atendi.

Acompanhada de quem?

Um homem bem novo, magro, alto, de terno. Ela ria bastante.

Isso é sério mesmo?

Por que eu mentiria pra senhora? O homem tinha uma cara de bebezão.

 

santiago-santos

Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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