Santiago Santos: Da semente na nova semeadura

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A vontade era de me jogar pela janela do ônibus. Talvez a janela não abrisse o suficiente, me prendendo pelo osso do quadril ou pela cabeça. Talvez nem esperassem por isso, enquanto enfiava ali a primeira perna ou braço viesse o tiro pra ensinar a lição a quem tenta fugir. Talvez eu pulasse, e no asfalto quebrasse os ossos, tudo, e ficasse numa poça de sangue sorvendo a liberdade antes que abutres ou lobos viessem instaurar minha nova pena.

Mas eu não podia, não enquanto Rômulo pudesse estar vivo, então a janela era mesmo só o retângulo de travessia, por onde entrava o vento da floresta, alcalino e gelado e límpido em óbvio escárnio do cheiro putrefato do cárcere, e por onde meu olhar saía, rastreando o andar das coisas, que era magnífico como eu não lembrava, o mundo das coisas em movimento, as folhas balançando, os pássaros entre as árvores, as nuvens trombando no azul, o vidro sujo dançando no lombo do veículo.

Benedita segurou minha mão. Minha amiga de trabalho, com quem fui presa dois anos antes, separadas nas celas, ali reunidas. Ela chorava. Muitas choravam. No banco de dois lugares estávamos todas em três, que a magreza institucional promove essas vantagens, o fazer caber. Há não muito tempo, o fazer caber dos campos de concentração e das câmaras de gás produziram resultados impressionantes de escala, sem dúvida comemorados com charutos e uísque em mesas espaçosas, onde braços musculosos e gordos se moviam sem barreira, em movimentos largos, angulosos.

Não cruzamos com nenhum outro carro nas horas que rodamos pela estrada. O que me fez pensar na falta de combustível. Nas pessoas mortas, ou escondidas, ou presas, como a gente. Na fuga daqui, desse país, desse continente. Anoiteceu. Ficamos olhando as estrelas, tão vívidas, tão claras sem a iluminação artificial das cidades, sem a poluição no céu. Será que Rômulo via essas mesmas estrelas agora, estivesse ele onde estivesse? Vimos crescerem os muros de uma instalação grande e o ônibus parou.

Descemos, enfileiradas, algemas prendendo mãos e pés, passos curtos. Andamos por corredores, por portas, por escadarias, e saímos num espaço gramado e aberto. Era um estádio de futebol. Ali no meio, outras mulheres, chegando por outras portas, alinhadas em blocos, em setores. Ficamos em pé no início, depois nos deixaram sentar. Grupos de homens atrás de mesas chamavam uma a uma, escreviam em computadores, perguntavam, retiravam sangue dos braços, e por fim anotavam alguns números em nossas costas.

A comida aqui melhorou muito. As novas celas lembram quartos, tanto quanto possível, com camas, roupa de cama, cômodas, livros, baralhos, mesas e cadeiras. Benedita ficou no meu quarto. Benedita está grávida. Todas estamos. Nunca vimos a outra ala, a dos homens, a dos doadores. Nos impedem o contato físico, com receio do que relacionamentos podem causar, as emoções intensas que lembramos de nossa antiga vida. A inseminação impede tantos problemas. Não que não nos relacionemos aqui, entre nós. Mas trocam as celas se a intimidade se estabelece. Aprendemos a amar à distância. Prenhas, como os animais que criávamos nos celeiros, nas fazendas, reprodutores e nada mais. Os filhos e filhas nos são tomados. Pra onde levam, não fazemos ideia. Depois de Rômulo, que a essa altura é um desses homens que nos ameaçam, ou então um dos homens na ala masculina de algum desses lugares, tive outros cinco. Os dias escorrem.

Ainda lembro da viagem de ônibus entre as prisões, sempre que vou dormir. Não costumo pensar com arrependimento na vida de antes, quando eu tinha minha casa, meu emprego, minha família, porque não me arrependo de nada daquilo. É o que me impede de imitar tantas que já conseguiram se livrar do fardo, enfiando a cabeça numa quina, afiando um pedaço de madeira até conseguir cortar os pulsos ou a garganta, asfixiando no travesseiro. Me arrependo de não ter tentado, naquele dia, me atirar pela janela. Quem sabe eu tivesse conseguido escapar e cair no asfalto, e o ônibus seguisse em frente, e eu andasse, me arrastasse que fosse, entre as árvores, entre as pedras, até achar uma cabana, a cabana de alguém que encontrou e salvou Rômulo, e ali me acolhesse, e eu pudesse viver os dias só imaginando o que teria acontecido com as mulheres que continuaram naquele ônibus, se estariam mortas, ou se estariam, de alguma forma, numa situação pior que a morte.

 

santiago-santos

Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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