Santiago Santos: O tio fãzaço da melhor fase dos mutantes

 

FF-#427-FB

 

A bike tremulava no asfalto ferrado da rua de casa, passando nos fundos da locadora, em frente a uma ótica e a uma loja na baixada dum terreno, um caixote de cimento com uma janelinha no meio que abria as lâminas estreitas bem pouco. Atrás dela ficava um senhor japonês, que quando já não tava plantado ali respondia às palmas ou a um Epa! Lembro de comprar coisas como tesoura, cola, papel, cartolina — trecos de escola, porque não tinha nenhuma papelaria mais perto que aquela e ali tinha de tudo. Ele se perdia pelos corredores escuros lá dentro e voltava com a coisa na mão.

Essa rua desembocava numa avenida, uma enorme loja de móveis bem na esquina, que tinha trocado todo o cimento da calçada por um piso preto e branco, uma curva macia no pneu, e depois da rampa vinha uma sede governamental, uma borracharia (arrumei muito os pneus da bike ali), uma garagem de carros, uma agência de viagens e um descampadinho que na cabeça dum prefeito antigo devia ter sido uma praça arborizada com bancos e parquinho pras crianças, mas que tinha acabado um pedaço desolado coberto de tudo que é tipo de folha em decomposição atravessado por um córrego de esgoto.

Na calçada diante dessa proto-praça, de frente pra avenida, ficava a banca, as paredes de ferro todas pintadas de vermelho e cheias de pôsteres de divulgação de revistas e álbuns de figurinha e séries de colecionismo e jornais e tabelas de sorvete e picolé (um freezer da Kibon lá dentro). Eu descia de casa com um punhado de reais no bolso, o que eu conseguia pegar com o pai ou a mãe ou os avós em visitas esporádicas, e aí era festa.

Os gibis ficavam em duas prateleiras perto do chão, embaixo das semanais de notícias, e eu agachava ali e passava freneticamente os dedos uma por uma, puxava e admirava a capa e os anúncios da contracapa, folheava, de canto a canto de cada prateleira. No auge dos meus 9 anos, as melhores coisas da vida eram o Mega-Drive e isso. Era muito fã do Homem-Aranha e dos X-Men, marvete mesmo, se bem que li muito Batman e Super-Homem. Me impressionava com o Spawn nos primórdios da Image, que na época era mais caro e num formato maior (depois é que saquei que esse formato americano é que era o padrão; no Brasil reinava o formatinho com mix de quatro mensais, uma centena de páginas no papel jornal fedido do mais puro suco de porrada e músculos e histórias que eram, em média, mais rasas que colher de xarope, mas eu curtia). Fui no cofre certo: peguei a última dos mutantes com a Jubileu e uns sentinelas na capa, e pedalei de volta balançando a sacolinha no punho.

Passei na loja do tio japa. Com os cinquenta centavos de troco ia comprar uns envelopes pra deixar em casa e trocar carta com meu primo, no interior de SP. Ele tava aprendendo a grafitar e mandava uns desenhos muito daora nas cartas, e contava as novidades, e eu o mesmo, sem os desenhos. Fiquei folheando o gibi e quando o tio voltou com os envelopes, perguntou se eu já tinha lido a saga da Fênix Negra. Me toquei de que ele tava falando da Jean Grey, mas não tinha lido isso, nunca tinha ouvido falar da fênix numa fase negra. Ele começou a soltar uns nomes de arcos que leu mais jovem, a longa fase do Chris Claremont no título, em especial a época com o John Byrne, e contou das primeiras histórias do Wolverine. Pirei. Na época não conhecia ainda o único sebo da cidade e eu não tinha internet pra caçar, ler, baixar; dependia unicamente da banca perto de casa pra alimentar o vício.

Alguns anos mais tarde a Editora Abril fez uns encadernados em preto e branco de parte dessa fase. Comprei na hora. Quis falar pro tio japa (por que eu nunca perguntei o nome dele?) que eu tinha lido e adorado, que mais de 15 anos depois continuava animal aquela fase. Mas a lojinha dele não tava mais naquela baixada. Algum dia aquilo amanheceu trancado e nunca mais abriu. Eu não sabia se ele morava ali por perto, se morava na própria lojinha, se tinha vendido ou só ido embora ou morrido ou se mandado pra cuidar dos pais ou de um filho de quem tinha se distanciado. Bem mais tarde demoliram o caixote de cimento e construíram outra ótica, vizinha da que já existia. Acabei tendo que pedalar bem mais longe, subir a avenida em dez de descer, pra achar os trecos da escola. Mas na banca ainda continuei indo, por muito tempo.

 

 santiago-santos
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

Leia mais textos de Santiago Santos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s