João Antônio e a malhação do jornalismo tradicional. Por Edmar Neves

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O tal do Isaac Newton já cantou a bola faz tempo, dizendo que “toda ação corresponde a uma reação…” e, por mais que tenhamos tornado sua terceira lei simplista, além de ser bastante empobrecedor começar um texto com um clichê desse, esse mote cai como uma luva para explicar o surgimento do Jornalismo Literário – New Journalism – no contexto norte-americano da década de 1960, onde escritores como Norman Mailer e Truman Capote quebraram com a objetividade do jornalismo liberal pretensiosamente neutro e estritamente declaratório, cultivado como uma verdadeira ideologia desde o fim da I Guerra Mundial, trazendo elementos literários em suas reportagens (ou seriam elementos jornalísticos em suas obras literárias?), inaugurando, assim, os chamados Romances Não-Ficcionais.

No caso brasileiro, muitos pesquisadores costumam apontar que escritores como Euclides da Cunha (Os Sertões, Editora Ubu, 2016) e João do Rio (As Religiões do Rio, José Olympio, 2006) já utilizavam elementos jornalísticos e literários para compor suas obras no começo do século XX. Mas quem ficou marcado como um autêntico representante do Jornalismo Literário foi o jornalista carioca João Antônio.

Com uma escrita ‘malandra’, que traz em sua obra os tipos marginalizados da sociedade, como malandros, traficantes, prostitutas, proletários, marinheiros e soldados, João Antônio pinta um retrato fiel das cidades brasileiras que, a partir da década de 1950, cresceram de maneira desembestada, aprofundando o abismo social que nos marca e potencializando a pobreza e os conflitos de nosso país.

Foi em seu terceiro livro, Malhação do Judas Carioca (Civilização Brasileira, 1975), que ocorreu a fusão entre jornalismo e literatura que marca sua obra. O livro possui 12 textos que mesclam gêneros como o conto, a crônica e o ensaio, tratando do cotidiano e dos costumes dos cariocas de maneira vívida, graças ao seu engajamento em fazer parte do dia a dia das pessoas que se tornavam personagens de seus contos.

O ensaio-manifesto-posfácio Corpo-a-corpo com a vida nos mostra a visão de João Antônio sobre a função da literatura na sociedade, onde ele se diz atônito com o distanciamento dos escritores em relação às camadas periféricas da sociedade, propondo uma literatura engajada politicamente, que se aproxima das grandes camadas da população, relatando suas experiências.

Aqui um trecho só para você entrar no clima da escrita do autor: “Precisamos de uma literatura? Precisamos. Mas de uma arte literária, como de um teatro, de um cinema, de um jornalismo que firam, penetrem, compreendam, exponham, descarnem as nossas áreas da vida. Não será o futebol o nosso maior traço de cultura, o mais nacional e o mais internacional; tão importante quanto o couro brasileiro ou o café of Brazil? A umbanda não será a nossa mais eloquente religião, tropical e desconcertante, luso-afro-tupiniquim por excelência, maldita e ingênua (…), que gosta de sangue e gosta de flores? A desconhecida vida de nossas favelas, local onde mais se canta e onde mais existe um espírito comunitário; a inédita vida industrial; (…) os nossos interiores – os nossos intestinos, enfim, onde estão em nossa literatura?”

Na primeira sessão do livro, Problema, temos 3 contos. O primeiro conto, Mariazinha tiro a esmo, fala do menor em situação de rua, contando a historia de Mariazinha tiro a esmo, uma menina de 13 anos que fugiu de casa após ter sofrido abuso sexual do pai, um ferroviário alcoólatra, e que coordena um grupo de menores de rua que ganham a vida pedindo esmola e vendendo balas e doces “entre a Nossa Senhora de Copacabana e praia”.

No conto Galeria Alaska, somos convidados a passar um dia e uma noite na Galeria Alaska, que ficava em Copacabana. Lá vemos transitar durante o dia – “a hora doméstica” – famílias, homens e mulheres trabalhando, funcionários públicos e crianças. À noite, porém, quem ganha vida são os bares da esquina, a sinuca e a delegacia, com seus malandros, otários, policiais, prostitutas e LGBT*’s.

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Já no terceiro conto, Pingentes, João Antônio aborda o problema do transporte público, falando dos pingentes da Central do Brasil, passageiros clandestinos que arriscavam a vida se pendurando na porta do trem para viajar de graça. Problema velho na Central do Brasil, que já tinha sido retratado por Lima Barreto em Clara dos Anjos (Editora Penguin, 2012), mas que João Antônio consegue dar novas dimensões, buscando na visão dos usuários do trem, uma explicação para o fenômeno.

O Cais, presente na sessão Conto-Reportagem – termo cunhado pelo jornalista Sergio de Souza e utilizado para classificar esse texto na primeira vez que ele foi publicado na revista Realidade, sob o título Um dia no cais – conta as desventuras de duas prostitutas, Rita Pavuna e Odete Cadilaque, no cais de Santos, entre ruas, casas de tatuagem e bares, em busca de algum marinheiro ou otário para afanar o dinheiro. João Antônio passou um mês hospedado no porto de Santos, para coletar os relatos e as vivencias que compõe a historia.

O conto que dá título ao livro, Malhação do Judas carioca, está na sessão Costumes e fala sobre a tradição católica de “malhar o Judas” no sábado de aleluia, ainda comum em algumas cidades do interior do Brasil, onde, em um momento de catarse coletiva, as pessoas constroem um boneco com serragem, jornal ou trapos, colocam mascaras ou placas com nomes de políticos, vizinhos ou desafetos e, ao meio dia, surram esse boneco, pendurando-o em postes e ateando fogo.

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Também é da sessão Costumes o conto Sinuca que nos mergulha no submundo dos jogos de azar, nos apresentando o ambiente em que ocorrem essas jogatinas, as regras que estão em voga nesse mundo de muito azar, pouca sorte e grandes falcatruas, os tipos que frequentam esse espaço e suas táticas para tirar proveito de todas as situações imagináveis. Em todos esses contos, notamos as várias técnicas jornalismo, como a apuração e a entrevista, que autor emprega para desenvolver as tramas protagonizadas pelo povo.

Ganhador do prêmio Jabuti em 1963, por seu primeiro livro Malagueta, Perus e Bacanaço (Cosac Naify, 2004), João Antônio é um autor quase desconhecido atualmente. Mais um dos inúmeros escritores que fizeram barulho entre as décadas de 1960 e 70 e depois foram deixados de lado pela crítica e pelo mercado editorial. Uma pena, afinal, numa época em que vemos pipocar autores que fazem da resistência política a forma estética de suas obras, é extremamente necessário conhecer escritores da velha guarda que dedicaram suas vidas para relatar as mazelas do povo, em tempos onde o Brasil também vivia sob um estado de exceção, naquele momento graças ao golpe militar. No caso de João Antônio, a dedicação a sua obra chegou a tais extremos, que ele se tornando um personagem de seus contos, entregando-se ao alcoolismo e morrendo marginalizado, no ano de 1996. Como disse o crítico literário Mario da Silva Brito, na orelha de Malhação do Judas Carioca, para João Antônio, “escrever é sangrar”.

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edmar neves

 

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