Três poemas de Luis Eduardo de Sousa

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PEQUENOS LUGARES

Tem esses pequenos lugares na minha cabeça

Que preservam a minha sanidade

lugares que evitam a desordem e o caos

 

Eles separam

a lógica e a razão

realidade e a ilusão

escritor e o escrito

Sobriedade e a felicidade

 

Eles

(os lugares)

guardam tudo

 

Física quântica

Minha infância

Histórias em quadrinhos

Ex-namoradas

 

Minhas ex ficam num mesmo lugar

e se estapeam o tempo todo

 

assim me deixam em paz

 

Mas tem um lugar só seu

Vazio

Recentemente pintado

Você disse que logo viria e traria louros para minha vida.

 

Espero

Espero

Espero

 

E o seu lugar se dilui

e todos os outros

também

 

Os habitantes fogem

como loucos do Asilo Arkham

 

Agora tem essa lacuna

dentro de mim

que chamam de solidão

e

tem esses vãos que separam

 

Os arranha-céus da cidade

 

Preenchidos por

Pombos

Gotas de chuva

 

e corpos vazios

 

que  f  l  u  t  u  a  m  no ar.

 

 

 

 

MANIAS

Eu tenho uma mania.

Uma mania patológica quase incurável.

Que me sublima e me conforta.

Eu desapareço.

 

Assim…de súbito.

Instantaneamente como um coelho na Cartola.

Fugaz como uma idéia suicida.

 

Me perguntam :

– Cadê você?

 

Não sei o que falar.

Eu desapareci.

 

Deixo as palavras no meu lugar.

Deixo os personagens no meu lugar.

Os meus Penemas- as minhas cidades poemas.

 

Talvez isso valha mais do que eu.

Exista mais do que eu.

 

Esqueçam o Autor.

ESQUEÇAM O AUTOR.

 

Todos desaparecem.

Somos a particula de Deus.

 

Demoramos para sermos reconhecidos

Demoramos para sermos notados

E quando você se der conta

Não estamos mais aqui.

 

Estão só as palavras

Só as palavras

P A L A V R A S

 

Flutuando no campo

hermético e improvável

em uma sacada

na casa de campo

Do Senhor Higgs.

 

 

ARQUEOLOGIA

 

A palavra é uma descoberta arqueológica.

 

Desenterramos a palavra, assim como um paleontólogo desenterra os fósseis.

 

Nada é criado.

Tudo é descoberto.

 

Pode ser uma cauda- adjetivo.

 

Um antônimo primitivo.

 

Um verbo do tempo cretáceo.

 

Um crânio-substantivo.

 

As palavras aparecem para serem lidas.

 

E temos que ter todo cuidado para tirarmos a areia do tempo delas.

 

Para não danificá-las.

Para não ter outro sentido.

 

Palavras são fósseis

 

esperando para serem descobertas.

 

Luis Eduardo de Sousa é dramaturgo e poeta, nasceu em São Paulo em 1979.  Neste ano lança o seu livro de poesias “ Amor para principiantes”.

 

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