Santiago Santos: Registro #3 | Matozinhos – MG | Piara Co.

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“Aqui, Carina. A trilha acaba aqui.”

Joberval agachado diante da árvore. Aos pés dela, na terra, uma ferida preta, uma mancha queimada, a grama erradicada no centro, ao redor tudo machucado, preto, comido. Os homens param no entorno, se movendo num programado perímetro. Agacho ao lado de Joberval.

“É, parece que morreu aqui o bicho”, ele diz.

“Não morreu. Olha a árvore.”

No tronco, veios escuros dominam a textura da casca. De baixo pra cima os veios diminuem em quantidade, mas aumentam em grossura, seguindo até a copa. Me levanto, tocando a folha de um galho baixo. É uma mangueira. Mas os poucos frutos não estão amarelos. Nem verdes. Possuem uma coloração azul escura, com os mesmos veios intensos. Puxo o canivete e corto o galho que conecta uma fruta à haste.

A manga se espatifa aos meus pés com um fedor que invade as narinas de imediato. A carne se espalha, mole, se agarrando ao chão e penetrando-o. O que sobra no resto da carcaça azulada parece ferver em contato com o ar, e borbulha por alguns segundos. Puxo os óculos de proteção da mochila e uma pinça e aproximo o rosto. Remexo a sopa fétida, sentindo o caroço grande nadando ali. Viro de ponta-cabeça. O que sobra da carne some no chão, e resta o caroço peludo e negro. Puxo um dos sacos de coleta e o enfio ali dentro.

Aperto o botão do rádio. “Eduarda, traga uma caixa de coleta pra minha posição. Vamos levar algumas mangas.”

Joberval conversa com seus homens, olhando ao redor. Não há mais perigo. Peço pra recolherem todos os frutos — com cuidado pra não se romperem — e guardarem na caixa. Depois pra derrubarem a árvore. Um deles volta pra van atrás de um machado. Sigo nessa mesma direção, refazendo a trilha que seguimos até a clareira. Joberval me acompanha, um braço apoiado na coronha do fuzil preso na bandoleira.

“Vamos procurar por mais desses bichos na área?”, ele diz.

“Era só esse. Eles não costumam aparecer por aqui.”

“Quer dizer que costumam aparecer em outro lugar?”

“De uns tempos pra cá.”

“Maravilha.”

“Não duvido nada a Valéria aumentar a tua equipe. O caldo tá engrossando.”

“Bom, é um trabalho honesto. Quem entra, tá ciente das possibilidades. Enquanto você deixar a gente vivo tá valendo, doutora.”

“Isso não era o tipo de coisa que eu tinha em mente quando me contrataram. Não coloca essa responsabilidade nas minhas costas.”

“A gente desempenha a função que nos cabe, doutora. Fica tranquila.”

No início da trilha, a carcaça de um bicho enorme — e penso no genérico termo bicho com estranheza, já que conheço o nome de centenas deles, e esse não bate com nenhum — a cabeça coalhada de balas, bem como o resto do corpo, e a barriga explodida de dentro pra fora. Os tentáculos e as garras caídos em profusão, Eduarda registrando de todos os ângulos possíveis com uma câmera. Na van, a assistente dela entrega o machado e a caixa pro homem da segurança colher as mangas.

Carlos, nosso motorista, guia e faz-tudo, fuma um cigarro sentado numa pedra. Sua camisa tem uma mancha enorme de sangue atravessada no peito, mais uns respingos na cara. O sangue é de um dos nossos soldados, caído todo torto mais adiante. Ferreira, ou Fernandes. Merda, nem tive tempo de gravar o nome.

“El bicho era brabo. Você está bien, Carina?”

“Eu tô bem, e tu? Por pouco a garrada não sobrou pra você.”

“Pues. Ferraz deu un passo e se colocou na minha frente. Cree?” Ferraz, esse era o nome do sujeito.

“Coitado. Bom, pelo menos foi só um.”

“Não sei não, mira.”

Ele aponta outro dos seguranças, coçando o braço lanhado por um dos tentáculos, o machucado evoluindo do vermelho normal de arranhado prum roxo bem parecido com o da manga. Vou na direção dele, pensando em como fui inútil aqui, em como não fui capaz de prever porcaria nenhuma. Nada do que sei, nada do que aprendi, serviu. Achamos o alvo, metemos bala e perdemos um, talvez dois homens. Agora temos o resto da sua cria, ou seja lá o que era aquilo que saiu rastejando da barriga dele e parece ter se refugiado em caroços de manga.

Antes de chegar na cidade, o homem machucado tem um ataque convulsivo e morre. O braço, escuro e inchado, começa a feder. Ensacamos ele também. Voltamos pra base da Piara Consultoria em São Paulo com dois sacos no cargueiro, dois a mais que na última missão.

santiago-santos

Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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