Aline Bei: ego

 

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Gustav Klimt – Pintura abstrata “Da Árvore da Vida” (1909)

trombei com Jorge e Sandra, eles

demoraram pra notar

a minha presença

pareciam íntimos, mas pelo menos não se beijaram

 

a minha ingenuidade de pensar que eu era a única

 

lenta facada nas costas ao perceber que

não, sua burra, se por acaso o Jorge precisar de uma atriz

ele vai contratar a Sandra, olhe pra ela

 

cumprimento os dois

com naturalidade

 

estava passando por aqui quando vi vocês.

 

eles sorriram,

perguntam se estou bem.

 

estou,

obrigada

 

e depois de mais algumas palavras eu

fui embora

a beleza da Sandra me invadia o peito

eu me sentia tão frágil, era como se eu não tivesse o direito

de existir, a beleza da Sandra

entorpecia meu espírito que finalmente, tiro os óculos pra entender isto, finalmente se descobre um

rato, confirmo no reflexo da poça sou um rato

a rua

está cheia, pessoas caminham como se nunca tivessem perdido

a hora, um brinco

onde estão? os defeitos dos outros

o mal hálito, as desproporções.

 

que solidão

ser um rato sozinha

 

será que

alguém precisa de um camundongo para um filme? um roedor

que se pareça muito com uma mulher?

 

vejo um anúncio no poste

 

 

 

precisa-se de atriz subumana

 

 

arranco o anúncio

e corro

forrest gump até a produtora

bato na porta

 

estou aqui para o teste.

 

abre-se a porta

 

me instalo no cenário todo branco

 

mal começo a performance que me dá na telha

bem monstra bem do jeito que sou

 

quando escuto

do pessoal detrás das câmeras

 

-corta. o papel é seu.

-sério?

-claro.

-não acredito, que felicidade. mas eu

já posso comemorar? porque toda vez que comemoro

-o que?

-me ligam dizendo que houve um engano.  

isso foi antes, qual é o seu nome?

-Rato.

-aqui, Rato. venha pegar seu cachê teste.

-ah, obrigada. muito obrigada, senhor

-filmaker. pode me chamar de senhor filmaker. anota pra mim seu telefone.

 

obedeço.

 

-entraremos em contato.

-obrigada.

 

abro a porta

da produtora

pesada porta contra fogo

e saio, já escureceu.

 

caminho de volta pra casa

 

me sinto

levemente alegre

 

mas passa

em um minuto ou dois estou melancólica de novo, pequena tristeza caixinha de música.

reparo, enquanto caminho, no cansaço das pessoas que estão no ponto de ônibus, elas me olham também, que ideia fazem de mim?

só espero que não me descubram rato, ainda bem que está escuro

odeio

as linhas da minha boca

odeio meu rosto nas fotos e às vezes o amo

às vezes quando vou dormir e passo creme eu

o amo

faço movimentos circulares ao redor do olho na esperança de que um dia eu aflore ao ponto de ser uma unanimidade

e quando eu for

uma unanimidade

profundamente amada gigante lá do alto da rua eu

vou abraçar

as pessoas que caminham

acolher todas

no meu peito

venham, venham

meus queridos

levem

meu leite pra casa

jorge, sandra

se aproximem, peguem

o que quiserem, anda, o que quiserem, jamais serei cruel com vocês.

 

abro a porta de casa

 

 

(barulho do telefone)

 

 

atendo

 

é da produtora

dizendo que houve um engano.

 

aline bei

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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