História dentro de histórias e geografias poéticas, uma resenha de ‘Machamba’, de Gisele Mirabai. Por Jorge Antônio Ribeiro

 

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Gisele Mirabai

Machamba não é só uma. São Machambas. Várias. Neste romance de Gisele Mirabai, a narrativa tem textura de seda, mas às vezes é um tecido que arranha um tanto a pele do leitor, enquanto mostra a menina, nas Minas Gerais, na Fazenda Fiandeiras e em suas outras viagens. A moça em Belo Horizonte e a mulher de vinte e poucos anos pelo mundo antigo em busca do elo perdido. A personagem do Dia do Antes e do Dia do Depois.

Machamba, o livro, é prosa daquelas boas de prosear, com poesia que voa no Tempo Grande e no Tempo Pequeno que é o mundo dessa garota que um dia deixou uma fita vermelha pendurada em uma mangueira, no momento em que as coisas se acabaram e começaram e ela já não consegue mais se encontrar. Já não sabe do começo nem do fim.

Na Fazenda Fiandeiras, há os cavalos, as frutas, as águas e o encantamento de Machamba com os trabalhos dos peões. Lá, o vendedor de doces adoça a narrativa e o homem que vende enciclopédias traz o mundo para o pai mostrar a ela; um mundo que se revela também no globo terrestre em forma de quebra-cabeça que ela ganha do pai como presente de aniversário. Ali começa a viagem de Machamba, mas quase nada neste livro é linear. O narrador põe o leitor em algum lugar da Capadócia, mas volta de repente para os girinos e a piscina de água do rio, em Fiandeiras. A história ora está na fazenda com a Bíblia ilustrada que o pai mostra pra Machamba, ora ela vai para Belo Horizonte estudar Geografia, voa para Londres, Grécia, Turquia, Israel, Egito e Índia.

No braço de Machamba, há pinos que repuxam e fazem-na lembrar do acidente com um caminhão em que ela escapou da morte e entrou em uma vida onde sofás e janelas não lhe pertencem. Nada mais é seu e ela viaja sem malas, com pouco dinheiro, usando a imaginação e a lembrança para conduzir o leitor ao antes e ao depois, ininterruptamente. Ela mesma diz que “tudo isso que respira conta a mesma história”.

Viajando pelo mundo antigo “A respiração do mundo vinha se deitar na sua barriga” numa viagem de lirismo, mas também aberta à promiscuidade, como se esta fosse uma forma de se buscar compreender tudo o que viveu e, assim, “experimenta todas as línguas de Londres”.

As descrições são verdadeiras fotos de uma viajante, mas fotos que respiram, através de uma linguagem em que metáforas passeiam no mundo escorregadio de palavras que voam e pousam, trazendo ao leitor os mundos que Machamba sobrevoa, pousa, anda e neles se machuca, mas retoma os voos para encantar aquele que lê seu enredo.

Os fatos são contados ao longo das viagens de Machamba; vão e voltam e a narrativa borda-os com mais detalhes que acabam por tornar robusta esta história que prende, enternece e encanta.

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★★★

Jorge Antônio Ribeiro, paulista de Botucatu, sempre gostou de escrever poemas e de contar histórias. Em 2011 publicou o livro de contos Esses dias pedem silêncio, pela Editora Edith e já participou de diversas antologias. Escreve para gozar, no melhor sentido que este verbo possa ter.

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