‘Berserk’ e as releituras da Idade Média. Por Edmar Neves

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Esses dias eu tive uma crise de insônia, e, para não passar a noite inteira remoendo problemas, comecei a refletir sobre um mangá que estou relendo chamado Berserk, do Kentaro Miura (Editora Panini, 2014-atualmente).

Algo que chamou minha atenção nessa reflexão noturna foi a forma que o autor retrata a idade média, realizando uma releitura das obras dessa época, principalmente das novelas de cavalaria. Assim, mesmo sabendo que é meio óbvio estabelecer paralelos entre obras ambientadas na Europa medieval com a produção artística da idade média, resolvi por no papel alguns pontos que achei interessante para não ficar com a sensação de ter passado uma noite em claro em vão.

Por isso, aqui vão três avisos importantes: 1º) como essas reflexões ocorreram-me no meio da madrugada, utilizei as únicas referências que eu tinha à mão na hora, ou seja, as obras literárias do período medieval e renascentista produzidas na região onde hoje fica a Espanha. Sei que há toda uma tradição cavalheiresca na França e na Inglaterra, com grande destaque na cultura pop para as obras envolvendo as aventuras do Rei Arthur e seus cavaleiros.Mas como nunca tive uma leitura aprofundada dessas obras, essa tradição fica aqui somente como uma menção honrosa; 2º) minha pseudo-análise literária vai ter alguns spoilers leves.Por isso, se você tem algum problema com revelações sobre o enredo, eu sugiro que você deixe de frescura e continue lendo o texto; 3º) vou citar poucos personagens de Berserk, pois esse mangá tem personagens para cacete e ainda não foi terminado por seu autor, ou seja, ainda vão aparecer mais coisas. Assim, foi necessário fazer alguns recortes para esse texto nascer e, vai por mim, essa bagaça já vai ficar bem longa mesmo assim. Certo? Certo, então vamos falar de Berserk.

Lançado no Japão em 1988, Berserk acompanha a história de Guts, um soldado que se vê forçado a acompanhar um exército mercenário conhecido como Bando do Falcão, após ser derrotado pelo líder do grupo, o belo, carismático e ambicioso Griffith. Com o passar do tempo, Guts acaba se tornando comandante do Bando do Falcão e passa a ajudar Griffith a alcançar seu sonho de obter um reino próprio. Aqui se estabelece uma espécie de triângulo amoroso entre Guts, Griffith e Caska, única mulher no exército mercenário, e que também ocupa um cargo de liderança no grupo.

Em dado momento, o Bando do Falcão sofre uma grande traição, da qual somente saem com vida: o nosso protagonista Guts; Griffith, que a partir desse momento assume o nome de Femto; Caska, que enlouquece após sofrer abuso sexual; e Rickert, o membro mais jovem do Bando. Após essa traição, Guts embarca numa jornada em busca de vingança, enfrentando bandidos, criaturas demoníacas e, de vez em quando, ‘salvando’ alguma donzela em perigo.

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Berserk e Cantar de mio Cid

A primeira comparação que faço é entre Griffith e Rodrigo Díaz de Vivar, também conhecido como mio Cid, uma figura histórica que se tornou personagem principal da canção de gesta anônima “Cantar de Mio Cid” (Edelsa, 1997), pois ambos podem ser considerados figuras militares em busca de ascensão social, através de suas conquistas bélicas. Todavia, enquanto mio Cid é um nobre expatriado, que busca se redimir lutando contra os mouros na península ibérica e, assim, contribuir para a soberania dos reis cristãos, Griffith possui uma origem humilde, sendo o fundador de um exército mercenário que não possui vínculo com nenhum reino. Em verdade, Griffith é movido por desejos individuais e não mede consequências para alcançar seus objetivos, mesmo que para isso tenha que trair seus companheiros, sacrificando-os em um ritual demoníaco beeeemm macabro. Algo inimaginável em mio Cid.

Em ambas as obras, há uma crítica à alta nobreza medieval, que herdava seus títulos e riquezas e não suportava ver a elevação social da baixa nobreza, ou ainda, dos estratos populares da sociedade. Só que, em mio Cid, há a idealização de que, através da honra, dos valores cristãos e dos atributos bélicos, o sujeito pode se consolidar como um grande nobre, obtendo, dessa forma, grande riqueza e prestígio social – ideias bastante difundidas na época das cruzadas; já em Berserk, o Bando do Falcão é simplesmente descartado quando o rei que os contratou consegue vencer uma guerra.

As novelas de cavalaria

Dos vários elementos da novela de cavalaria que são subvertidos em Berserk, o que eu acho central para o desenrolar do enredo é o amor platônico que Griffith nutre por Guts. Mas, ao contrario do que acontece, por exemplo, em Amadis de Gaula (autor desconhecido, Livraria Clássica, 1942), ou em Dom Quixote de La Mancha (M. Cervantes, Editora Penguin, 2012), onde esse amor platônico é a motivação das personagens principais para continuarem suas jornadas – afinal, eles precisam exaltar aos quatro ventos as grandes qualidades de suas amadas, salvando-as, às vezes, de algum vilão malvado–, em Berserk o amor de Griffith por Guts faz com que ele se desvie de seus objetivos por alguns momentos. Esse mesmo amor se transforma em mágoa e ódio quando Guts decide sair do Bando do Falcão e acaba se relacionando com Caska, o que marca a queda de Griffith e de seu exército.

Outro elemento comum entre Berserk e Amadis de Gaula, que também se encontra parodiado em Dom Quixote, é a jornada do cavaleiro errante em busca de aventuras. Em Amadis de Gaula, os feitos de Amadis são narrados de maneira pomposa e gloriosa, mostrando toda a idealização da cavalaria andante, que luta heroicamente contra cavaleiros desonrados, mouros e criaturas diabólicas. Dom Quixote nos mostra uma tentativa cômica de emulação dos tempos áureos da cavalaria, construindo uma crítica mordaz ao anacronismo político/social da Espanha no começo do renascentismo. Já em Berserk, a busca por vingança de Guts é banhada a sangue, marcada por carnificinas e pela expressão de horror das personagens que presenciam às lutas. O negócio é tão gore que existe até memes satirizando essa característica do mangá de Kentaro Miura. A princípio, pode até parecer que seja uma representação banalizada da violência, mas, para ser sincero, acredito que o mangaká acertou a mão na sua concepção da idade média, já que essa foi uma época bastante conturbada na Europa e, se tirarmos as pompas da narrativa de Amadis, o que vemos é um cristão lunático brandindo uma espada e matando um monte de gente que cruza o seu caminho.

Um ponto que eu gosto bastante em Berserk, é que a obra segue a tradição moderna de acabar com o maniqueísmo que reinava até então na literatura – caso você queira uma sugestão de leitura que exemplifica muito bem essa mudança de paradigma e, de quebra, conseguir uma bela crise existencial, procure Crime e Castigo (Editora 34, 2016), do grande Fiódor Dostoiévski.

Amadis é uma personagem plana, representada como o suprassumo da honra e da bondade, enquanto seu arqui-inimigo, o mago Arcalaus, é a encarnação literal do mal na terra. Em Dom Quixote, a coisa começa a ficar mais interessante, já que a encarnação do mal e da corrupção são as novelas de cavalaria que enlouqueceram o fidalgo Alonso Quijano. (Eu já falei isso acima, mas falo aqui de novo: é incrível a forma como o autor de Dom Quixote satiriza sua sociedade ainda saudosista dos tempos das conquistas bélicas e enaltecedora dos valores cristãos, da honra e da vassalagem feudal – coisas que já não condiziam com aquele momento histórico. Cervantes você é foda cara!).

Já em Berserk, as personagens principais são bastante aprofundadas. O protagonista Guts, à primeira vista, é um sádico que adora estraçalhar pessoas nos campos de batalha, e que atrai o mal por onde passa, algo bem diferente do conceito de herói que temos nas histórias mais tradicionais. Mas, quando descobrimos sua história de origem, entendemos que sua personalidade foi forjada em uma complexa trama de tragédias e batalhas sangrentas, sendo que a única maneira que o personagem encontra para se expressar é através da violência extrema.

Caska está bem longe de ser uma simples donzela em perigo. Sendo uma mulher em um mundo dominado por homens, a personagem possui uma força incrível, conseguindo manter o controle das tropas que estão sob seu comando, mesmo em situações críticas. Sobre sua origem, é contado que ela sofreu abuso sexual de um nobre, sendo salva por Griffith. Desde esse episódio, Caska adquiriu uma personalidade dura, que luta para nunca mais ser subjugada por outro homem e segue o fundador do Bando do Falcão com verdadeira devoção.

Por falar no Griffith, o personagem pode aparentar, a principio, ser o estereótipo de liderança carismática, convencendo todos ao seu redor a seguirem seu sonho. Mas, com o decorrer da trama, o vemos se submetendo a diversos tipos de situações para consolidar seus planos, como, por exemplo, prestar serviços sexuais a um lorde chamado Gennon para conseguir dinheiro e prestígio para o Bando do Falcão. Em verdade, temos com Griffith um bom estudo de personagem, no qual se desenvolve a jornada de um protagonista que se torna o principal antagonista da historia.

Em suma, a construção das personagens de Berserk nos faz refletir sobre o quão a humanidade pode ser cruel e mesquinha, além de discutir temas como o livre arbítrio, o destino, a amizade, o companheirismo, a solidão e o isolamento.

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Revisitando o passado de maneira crítica

Algo muito legal em Berserk que, às vezes, é menosprezado nas leituras que realizamos de historias em quadrinhos, é a forma como gêneros literários que surgiram há muitos séculos ganham novas roupagens nas obras atuais. Mantendo algumas estruturas básicas milenares da arte de contar histórias, mas acrescentando discussões contemporâneas sobre a sociedade e revisando fatos do passado, essas obras nos proporcionam uma visão mais ampla da história.  Isso mostra que a arte não pode ser vista como algo fechado, mas sim, uma expressão de nossa condição humana, algo que é passível de diferentes interpretações.

Ps.

Por falar em revisitar o passado, eu não soube muito bem onde encaixar esse assunto, então, resolvi citá-lo aqui, como um pós-escrito: Em Berserk, a representação de estupros é recorrente. Está certo que nas novelas de cavalaria também aparecem centenas de inimigos desonrados que tentam desvirginar donzelas inocentes e que são impedidos pelos heroicos cavaleiros andantes, momentos antes do fato se consumar. Mas, no mangá de Kentaro Miura, os estupros se consumam, enaltecendo, de certa forma, a misoginia, a violência sexual e, na minha visão, tentando satisfazer a libido de adolescentes babacas. Sim, isso é escroto de uma forma monumental. Aqui é importante dizer que Berserk está longe e ser uma obra perfeita, mas sim um fruto de uma época na qual diversas questões eram banalizadas, mesmo que a Caska represente a luta contra o patriarcado.

Mas eu não quero justificar os erros de uma obra. Na verdade, não posso fazer isso em hipótese alguma! Porém, como não me sinto tão seguro para mergulhar de cabeça nessa questão que aparece no mangá, vou indicar um vídeo do canal Tralhas do Jon, que trata desse tema de uma forma bem bacana. Esse vídeo também serve como uma complementação do meu texto. Assistam, vale a pena!

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Um comentário sobre “‘Berserk’ e as releituras da Idade Média. Por Edmar Neves

  1. PPS. Algo que me incomoda na questão dos estupros é que, por mais que se haja sentido de que essas cenas sejam representadas, elas são executadas como algo que beira o erótico, ao invés de representar uma forma extrema de violência.
    PPPS. Há uma leitura possível entre o conceito de horror cósmico, desenvolvido por H.P Lovecraft, e o arco que desemboca na louca da Caska. Isso é algo que eu talvez desenvolva algum dia.

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