Aline Bei: Ghost

 

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Edvard Munch

 

a menina aceitou o copo d`água, tomou em grandes goles, depois perguntou, ainda trêmula, por que só as pessoas bonitas tem um lugar no mundo.

 

-isso não é verdade, Nádia. – a professora disse.

 

e a nádia sentindo

que era

 

-o que é a beleza, você sabe?

 

a menina sabia, mas

não conseguiu

colocar em palavras.

 

-vamos fazer assim, pense em alguém que você considera bonito.

 

ela balançou a cabeça positivamente.

 

-e por que você considera essa pessoa bonita?

-porque. ela é gentil comigo.

-pois então. perceba como a beleza está conectada com sentimentos que são seus, não da pessoa em questão. a beleza é uma leitura, nunca uma verdade absoluta. pra você, o bonito e o gentil caminham juntos, certo? pois pra mim a irmã da beleza é a inteligência.

-mas eu queria ser bonita professora, não importa como, seria muito mais fácil vir pra escola, vê a Adriana

como está sempre sorrindo, vê a Ângela.

sendo como sou eu tenho que me arrastar até aqui

porque sei que a partir do momento que eu passar por aquele portão eu vou me sentir um lixo

maior do que já me sinto.

-sua mãe sabe dessas coisas?

-não.

-por que você não conta?

-ela não entenderia.

-quer que eu conte?

-não professora, por favor.

-está bem. mas você sabe que pode contar comigo, não sabe? com a Telma também, ela pode te atender amanhã, se você quiser.

-não adianta, eu tenho que aguentar até eles cansarem de mim, mas ainda que eles cansem. o jeito que eles me olham

nunca vai mudar.

-eu sei o tamanho disso que você está sentindo, querida, pode ter certeza de que suas palavras estão chegando aqui em mim. mas infelizmente você não pode transformar as pessoas, a mudança tem que ser sua, você tem que se fortalecer ao ponto de não se importar mais

e quando você finalmente deixar de se importar

é aí

que eles perdem a força, entende? volte pro pátio de cabeça erguida, Nádia. você não fez nada de errado e ninguém é melhor do que ninguém. todo mundo sente medo, todo mundo sente fome.

 

eu queria sentir medo e fome em outro corpo que não o meu, ela ia dizer, mas

sentiu que a professora também não entenderia.

 

-agora vai, se não você perde o intervalo.

 

a menina voltou devagar

pro pátio, se por acaso aparecesse o gênio da lâmpada dizendo você tem direito a um desejo

ela pediria pra ficar invisível

sentou-se debaixo de um ipê e

ao invés de chorar no banheiro, incontrolavelmente ela começou a chorar ali mesmo na frente de todo mundo, um choro alto, firme, rítmico, chorou de deixar a blusa inteira molhada e o pátio, os alunos do pátio, continuaram fazendo o que estavam fazendo, então sim, pelo menos um desejo ela conseguiu.

 

aline bei

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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