‘O Julgamento de Sócrates’, monólogo com Tonico Pereira. Por Luciana Salazar Salgado

 

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Tonico Pereira está fazendo 50 anos de carreira em uma turnê pelo país. Global mas nem tanto, capaz de transcender certas amarras e de ser consistentemente local, desenha pra nós um Sócrates que, já no palco, diz ter sido convidado a fazer. E o desenho que ele logo faz, nos primeiros minutinhos da peça, é de sua própria história. Conta como uns quatro ou cinco personagens de sua infância e juventude, na Campos pra qual já não pode voltar e, depois, no Rio aonde chega pra estender um outro horizonte, foram Sócrates empedernidos, mostrando o funcionamento das verdades, melhor: a construção das verdades conforme se crê nisso ou naquilo. A verdade como crença, afinal.

Desfilando verdades destas, vem de uma voz suprema, de alturas que não têm claras feições, a acusação de práticas inaceitáveis. Tonico Pereira agora é Sócrates sentado na cadeira de espaldar alto, um dos três objetos cenográficos (ao lado, um aparador sumário é encimado pelo cálice de cicuta). O julgamento se instaura.

Sem metáforas sutis, ao longo de sua defesa, numa franca analogia, Sócrates (que não deixa nem um segundo sequer de ser Tonico também) será aproximado da atual conjuntura brasileira. Ele fala aos “cidadãos da cidade de São Paulo”. Cita nomes, faz menção a uma e outra das manobras mais recentes que têm mantido o estado de suspensão em que vivemos… e eu quase ouvia… estava soando já o grito… LulaLivre!

Que outra coisa caberia ali?

Tudo era só a explicitação da sucessão de manobras planejada – com equívocos, diga-se, mas mais que tudo com maldade, dessa que quer garantir a todo custo e a qualquer preço que uns poucos sejam efetivamente distintos de todos os outros.

Mas, na sessão em que estive, o grito não veio.

o julgamento de sócrates

Os 50 minutos de texto entoados por Tonico num modo simples de andar pelo palco são teatro, ele tem sua grandeza de ator, isso está posto. Mas são sobretudo seu grito – de horror e de esperança. Do horror ele fala com todas as letras ao final, explicitando-o ainda uma vez, depois das palmas tímidas que não sabiam direito se tinha terminado o espetáculo… Da esperança fala menos, mas registra que a própria peça, tal como se configura, é seu gesto esperançoso. Pode até ser vista como uma denúncia didática, se se quiser, mas penso que se pretendia muito mais: um espaço de partilha. Ele deu a deixa, a gente que gritasse.

Não sei por que não gritamos…

Porque estávamos num teatro dentro de um shopping?

Porque não éramos uma multidão?

Porque muitos ali não tinham se tocado de que o julgamento de Sócrates diz respeito principalmente ao modo ensandecido de oprimir vestindo a toga que afeta legalidade?

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Meu espanto maior veio depois, quando lemos, entre amigas, as sinopses que saíram nos veículos de sempre, que são os lugares aos quais muitos ainda vão pra saber o que ver, o que ler, aonde ir, num movimento encerrado em si mesmo. Neles nunca se fala desse grito. Um Sócrates antigo figura como erudição, no máximo como um exemplo de quem, na sua época, contrapôs-se – sublinhada essa época distante, nada a respeito daquilo a que supostamente se contrapunha. Vez por outra se sugere que há graça nessa versão de Tonico Pereira, midiaticamente colado a uma personagem humorística que encenou por 13 anos na tv, estrategicamente colado a humor, que passa como uma rubrica do que é suportável. Quem faz teatro sabe bem disso.

Saí de lá chateada. Achando que ele também.

Porque a tv e os jornalões ainda dão a letra, tocam a banda, dirigem a pauta?

Pensando bem, talvez ele não tenha se chateado, decerto sabe o que significam esses seus 50 anos com tanta tv – e que tv… – no meio. Eu é que fiquei devendo: estava na minha mão o grito que não soltei, e que pesadamente levei de volta pra casa.

Mas amanhã tem rua. E pode bem ser que eu encontre algum dos companheiros da plateia, porque já estávamos sedentos disso ou porque despertamos aí, desse incômodo que foi nem saber direito que hora era pra aplaudir.

Viva Tonico Pereira!
Viva a palavra dita olhos nos olhos!

Luciana Salazar Salgado é professora no Departamento de Letras da UFSCar, coordena o LABEPPE – laboratório de escritas profissionais e processos de edição

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Serviço

Adaptação de “Apologia de Sócrates” de Platão, realizada por Ivan Fernandes classificação 12 anos

21 de julho a 09 de setembro 2018

sab – 21h | dom – 19h

Teatro Nair Bello, Shopping Frei Caneca, São Paulo

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