Resenha: ‘Esperança para voar’, de Rutendo Tavengerwei. Por Jorge Antônio Ribeiro

                                                           Ishe Komborera Zimbabwe (Deus abençoe Zimbábue)

CAPA-ESPERANCA

Zimbábue, há os que nem sabem pronunciar corretamente esta palavra, este nome. Muitos sabem pouco ou mesmo nada sobre esse país. O livro Esperança para voar (Kapulana, 2018), de Rutendo Tavengerwei apresenta o Zimbábue para o leitor através de um enredo que envolve uma adolescente, Shamiso, e sua amiga, Tanyaradzwa, que é cantora, também adolescente, e tem um câncer na garganta. As duas se conhecem em um internato, logo no primeiro dia em que Shamiso chegou lá, após a morte de seu pai, jornalista investigativo que lutava contra a corrupção em seu país. A amizade entre elas cresce muito, embalada por contradições, encontros e desencontros, tudo permeado pela música. Ressalte-se aqui a presença do instrumento africano mbira que é frequentemente personificado na narrativa: “Shamiso escutou a voz da mbira se erguer orgulhosamente”.

Também o câncer é várias vezes personificado como que para se destacar sua marcante presença: “O câncer deixava todos exaustos”.

Na leitura, o leitor viaja pelo Zimbábue, num tempo de guerra civil, racionamentos, miséria e corrupção. Mas sempre há uma esperança no ar. A própria escritora, na apresentação do livro afirma:

Por isso, quando escrevi Esperança para voar, queria escrever uma história que trouxesse um mensagem. Uma história que não subestimasse quão difícil a vida pode ser, mas que também não ignorasse o quanto a esperança pode nos dar forças para seguir em frente.

O narrador em terceira pessoa conduz a narrativa de forma linear para revelar ao leitor as várias histórias de cada um dos personagens, com suas angústias e conflitos. Gradativamente, as cenas mostram o internato com os professores em greve, os cortes de energia e o racionamento de alimentos, além de mostrar o cotidiano complexo de um país em grandes dificuldades. Tudo dói, mas há música, amizade e amor, mesmo nos instantes em que a esperança parece abandonar os adolescentes e os adultos. A história é contada também através dos diálogos, dos pensamentos e das ações dos personagens. Shamiso vê o mundo com seu olhar adolescente, mas nem por isso ingênuo. Ela mostra ao leitor o caos em que se afundou o seu país:

Ela precisava lutar contra as vozes, as vozes que gritavam para ela desistir”. E o que se vê no lugar da desistência é o voo da esperança, buscando a paz que parece estar cada vez mais inatingível: “Há pouco tempo, o país era conhecido como a zona cerealista da África. Agora ele parecia estar enfrentando as consequências de uma doença mortal, que atingira o coração do país, deixando um rastro de caos.

Este livro, da jovem escritora do Zimbábue, com verdades e poesia, é realmente uma esperança, para os leitores e, principalmente, para a literatura, pois revela uma autora que, sem dúvida, muito ainda fará pela arte literária.

Rutendo Tavengerwei

Rutendo Tavengerwei

★★★

Jorge Antônio Ribeiro, paulista de Botucatu, sempre gostou de escrever poemas e de contar histórias. Em 2011 publicou o livro de contos Esses dias pedem silêncio, pela Editora Edith e já participou de diversas antologias. Escreve para gozar, no melhor sentido que este verbo possa ter.

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