Santiago Santos: As muitas vidas do açougue do caolho

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Se você passa na Rua Tolentino de Almeida à tarde, num dia ensolarado e com pouco movimento no açougue, você vê através do vidro da fachada o Ronaldo, um homem de cabelos curtos e uma barriga nos estágios iniciais do avantajamento sentado em seu banco, atrás do refrigerador de embutidos, olhando fixo pro outro lado da loja. Pelo ângulo talvez não seja possível identificar o que ele olha. Mas não é Lucinda, a professora e filha do dono, que cuida do caixa depois que chega da escola, e tampouco o relógio de ponteiro barulhento acima da cabeça dela. O que ele observa é um prego na parede, hoje pintado de branco numa das repinturas, mas ainda ali, protuberante.

Naquele prego, e isso é possível que a sua mãe, o seu pai ou algum dos seus tios, ao passar por ali décadas atrás tenha visto, e digo eles e não seus avós porque depois de uma certa idade a gente aprende a não encarar as coisas e as pessoas por muito tempo, mas naquele prego ficava pendurado o chapéu do dono do açougue, seu Edvaldo. Seu Edvaldo continua o dono, mas ele abandonou o chapéu. Coincidem os últimos dias úteis do chapéu com a entrada do Ronaldo no açougue, na época um rapazote que não tinha dinheiro pra se mudar pruma cidade maior e estudar na universidade. Por pouco tempo Ronaldo conviveu com Suélen, a esposa de Edvaldo, uma mulher muito solar, um adjetivo incomum mas que parecia colar nela com perfeição. Ela vinha na loja sempre, conversava com os clientes. Foi ela quem ensinou a Ronaldo os macetes do moedor de carne, que seu Edvaldo usava como se fosse um trator e não a peça delicada que era. Mas morreu subitamente. E no dia do funeral, seu Edvaldo aposentou o chapéu, que era um presente dela.

Antes do chapéu, no mesmo prego, havia uma plaquinha de “não aceitamos fiado”. Quem a pendurou foi o pai do seu Edvaldo, que abriu o açougue muito tempo atrás, quando voltou da guerra só com um olho. Talvez algum de seus avós lembre que por muito tempo as pessoas diziam que iam comprar carne no caolho. Nunca na frente dele, é claro. Ronaldo não chegou a ver a placa, mas sabe dela porque seu Edvaldo vira e mexe comenta como as pessoas respeitavam seu pai e a placa, e como ele tem vontade de pendurar ela de novo. Balela, sabe Ronaldo, já que o fiado é a licença poética de qualquer cidade do interior, e depois que ele assumiu e passou a jogar o jogo a clientela só aumentou.

O que não é possível dizer, de ângulo nenhum, mas eu posso te contar, cá entre nós, é o motivo pelo qual Ronaldo olha pro prego na parede. Isso só vai ficar claro pro seu filho ou filha, daqui a alguns anos, quando passar por lá e ver Ronaldo olhando pro seu próprio chapéu pendurado. Ele vem guardando dinheiro há um bom tempo. Pretende comprar o açougue do patrão, já que a filha, Lucinda, não tem o menor interesse em continuar com o negócio quando o pai aposentar. Ronaldo ainda não sabe que Lucinda se tornará sua esposa depois do divórcio com o vendedor de seguros do outro lado da rua. O que Ronaldo sabe é que uma vez dono, adotará o chapéu. Não porque seu Edvaldo usava, mas porque a avó de Ronaldo, que o criou sozinha e de quem sente uma saudade imensa, sempre dizia que com chapéu ele parecia um daqueles astros de cinema, e Ronaldo gosta de parecer um astro de cinema. Ele só não acha que astro combina com funcionário de açougue, e sim com dono.

São coisas que passam batidas, não é? Mas eu gosto de pensar que um simples prego seja o marcador das divisas do tempo de um açougue e das gerações que o tocaram. Você não se importaria de saber se eu não contasse, mas o Ronaldo também vai aposentar o chapéu um dia. Há um bom motivo, mas esse motivo só o seu neto ou sua neta vai saber e poder te contar, e eu não quero estragar a surpresa. O que você sabe, e isso sem a menor sombra de dúvida, é que as melhores costelinhas de porco da cidade eram, são e continuarão sendo vendidas ali. E você adora uma costelinha.

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Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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