Santiago Santos: Um dia terei uma iguana chamado Mário

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Canuto abriu o pote de analgésicos e mastigou três, lavando o rosto na pia. No espelho, mexeu num dos dentes inferiores, mole, e tentou puxá-lo. Não queria sair, mas não ia ficar ali por muito tempo. Secou o rosto com cuidado, a toalha vermelha da testa aberta. Pegou água oxigenada e borrifou. Gritou vendo borbulhar o talo, secou de novo, borrifou anti-séptico. Jogou tudo na pia marrom de sujeira e se largou no sofá da sala, mamando em uma garrafa de uísque. Olhou o tubo de laser em cima da mesa, a carteira aberta com o distintivo arranhado pra cima.

Canuto precisava voltar pra rua. Que na hora em que deixou o armazém pra trás o relógio começou a correr. Não levava mais de uma hora pra verem aquilo com os próprios olhos, ou, se fosse azarado, pra mandarem um drone na frente. E aí os quatro corpos no chão, a mercadoria desaparecida, o alarme, a mensagem no comunicador da base e a convocação pra guerra, a defesa a postos. Não entraria no apartamento de Mishiko nem com o departamento de polícia inteiro a tiracolo se demorasse, se não levantasse dali e partisse. Mamou de novo.

Acordou com as pancadas na porta. Ziguezagueou entre as embalagens do chinês e abriu pra Pexa, sua parceira de última hora. Ela ralhou e xingou e olhou de perto o corte. Pegou uma cola no armário e segurou fechado o machucado e mandou ver, e já foi puxando pelo braço, precisavam ir. Canuto pegou o tubo de laser e o casaco e a seguiu pela escadaria até o terraço do prédio, onde a hoverviatura da Homicídios estava estacionada.

Pararam na rua, a uma quadra de distância. Esgueirando pelas barracas de comida e lojas de néon pulsante, pararam na esquina, escorados num prédio encardido. Pexa contou as janelas. Na 34, uma luz acesa. Canuto olhava os dois broncos parados perto da porta de acesso ao elevador, um deles comendo um pastel. Confiscou uma Coca-Cola na banca mais próxima e seguiu com passos firmes na direção deles.

O senhor, o senhor esqueceu a Coca. O senhor pagou e esqueceu.

Não comprei Coca.

Disse o bronco na última mordida já recebendo o soco no queixo engordurado e o taser de Pexa voou no outro bronco antes que puxassem seu tubos. As algemas elétricas nas mãos atrás das costas com o gravitacional ligado pra não saírem do lugar até chegar a coleta. E subiram, os andares um a um piscando no painel do elevador. A câmera interna quebrada de tempos. Pexa preparou o tubo de laser na mão. Canuto tateou o seu no bolso, sentiu um papel amassado no fundo; a página arrancada do catálogo Sidney’s com o preço abusivo de uma iguana, seu novo sonho de consumo.

No corredor, seguiram até o apê com a foto de um urso panda pendurada abaixo do olho mágico. Bateram três vezes.

Quem?

Detetive Canuto, Departamento de Polícia de São Francisco.

A porta foi aberta. Mishiko estava sentado do outro lado de uma mesa, um sem fim de molas e chips e peças de plástico e placas metálicas e sacos de estopa e pinças e catodos ao alcance dos dedos, na frente do olho uma lente trianguladora.

Boa noite, policiais. Como posso ajudá-los?

Fecha a matraca, Mishiko. Levanta e coloca as mãos nas costas.

Fora ele, havia outros cinco homens na sala. Nenhum deles segurando um tubo ou um revólver ou uma escopeta ou algo semelhante. Ainda.

Mandado, policiais?, disse Mishiko. De busca ou prisão? Cinco segundos pra me mostrarem, ou tão fora das garantias da lei, como sabem.

O que Canuto e Pexa sabiam era que o tempo do juiz expedir um mandado não colava, e abrir ali a info de que o flagra e a confissão de um homem agora morto, o segundo em comando de Mishiko, lhes permitia levá-lo sob custódia, podia não exatamente alegrar os seus convivas.

O tempo acabou, policiais. Então?

É rotina, Mishiko, disse Pexa. Você abriu a porta, nós entramos. Temos umas perguntas pra fazer, mas na delegacia.

Não, não, não. Você não entenderam. Eu não vou a lugar nenhum.

E os homens não tiveram que se mexer. Porque um drone varou a janela, girou fazendo um recon, soltou um tirambaço de laser na testa de Mishiko e voou pra fora. Os cinco homens respiraram fundo, agora sim puxando os tubos.

Que porra foi essa, disse Canuto.

Calminha aí, rapazes, disse Pexa. Não tivemos nada com isso. Ou a gente entraria aqui se só quisesse derrubar o chefe de vocês?

Dando passinhos curtos, um atrás do outro, Canuto e Pexa retrocederam, saíram do apartamento, entraram no elevador esperando um feixe varando parede ou teto, que não veio. Respiraram.

Que merda, disse Pexa.

Uma merda, sim, disse Canuto. Mas aquele modelo de drone é militar. Das colônias. Não é fabricado na Terra. E eu sei quem contrabandeia ele pra Califórnia.

Vamos pra delegacia, o capitão precisa saber disso tudo.

Lá fora, Canuto confiscou um yakisoba também. Uísque abria o apetite.

santiago-santos este

Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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