Santiago Santos: Um memorial de guerra protegido da chuva

 

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Elas surgem furando as nuvens. O céu carregado querendo inocular a terra com gotas pretas viscosas e então os ventres inchados são perfurados pelos narizes de metal, em matilha, planando com delicadeza sobre a cidade, jogando seus raios de luz e laser sobre prédios e ruas.

Quando as naves aparecem eu me escondo atrás das pernas de minha mãe ou meu pai, correndo pela casa pra longe das janelas. Os dois paralisados, travados onde quer que estejam. Lembro que meu pai, que gosta de pintar nos finais de semana, um dia parou o pincel a meio caminho da tela, as cerdas recém-mergulhadas na tinta pingando no tapete, e eu segurava a perna dele e sacudia e perguntava o que aconteceu, pai, por que você não se mexe, e ele imóvel. Quando as naves passam eles me abraçam e pedem desculpas, e pergunto o motivo, por que ficam desse jeito, e não respondem.

Com o tempo, a frequência das naves diminui, mas ainda vêm. Não há mais lei nenhuma, nenhuma ordem, execução ou seleção de espécime há anos, não há mais nada que justifique o temor. Quando meus pais dizem algo, é que eu penso assim por não ter vivido durante a guerra. Nasci no ano em que ela acabou. Mas de tanto eu perguntar, minha mãe resolve me mostrar uma coisa. Num dia em que meu pai vai consertar nosso projetor no centro, ela me pega pela mão e leva pelas ruelas do bairro, e achamos uma escadaria que nunca vi antes e que leva prum túnel, e vamos descendo até um subterrâneo desolado e úmido que parece um cemitério. Logo percebo que é mesmo um cemitério, com esparsas luzes amareladas no teto, iluminando umas poucas pessoas modorrentas entre as lápides que se erguem do chão batido.

Ela anda pelas fileiras, anda até chegar a um montinho de terra. Ela não titubeia pelo caminho, então presumo que venha ali sempre. Ela se ajoelha, me puxa pelo braço e me ajoelho também. Ela começa a chorar e rezar baixinho. E eu digo mãe, mãe, quem morreu aqui, quem tá enterrado aqui? Mãe? E ela só reza e chora, e me pede pra fazer a mesma coisa. Eu faço. A gente passa um tempo ali, e mesmo depois que saímos ela não quer explicar. Não tem nada escrito na lápide, em nenhuma das lápides.

Meu pai espera a gente no sofá. Diz que não acredita que ela me levou lá. Eu não entendo. Não posso sair, pai? Ele me ignora, continua brigando com minha mãe. Diz que não podem arriscar, não têm dinheiro pra comprar outra. Eu corro pro quarto, brava, querendo esmurrar a parede. À noite minha mãe vem. Deita debaixo do cobertor comigo, me abraça. Eu olho pela janela. As nuvens escuras boiando no pretume, e eu querendo que elas explodam as entranhas e deixem as naves passarem. Quero de alguma forma me vingar, jogar na fuça dos meus pais aquilo de que eles sentem medo, pra sentirem um pouco do que eu tô sentindo, esse desespero de não me explicarem porcaria nenhuma.

 

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Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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