Santiago Santos: Certas histórias se resolvem assim, do nada

FF-#434-FB

 

Pego o Oleg, fumando um cigarro na escadaria da varanda de casa. Ele traz duas latas de refri.

— Salve, Oleg — digo. — Valeu.

— Tranquilo. Fui no mercado hoje cedo. Tô fofo.

— Cara, cê vai ter que me descolar um trampo massa desse. Tô sempre duro.

— Ninguém mandou virar escritor.

Ele liga naquela rádio comunitária que ainda resiste, do CPA. Tá rolando um The Doors.

Quando chegamos no prédio do Tomate, ele ainda não desceu. Paro na calçada do boteco, outro lado da rua, a luz do apê dele acesa, o Darth, seu gato, deitado tranquilão no batente.

— Tomate! — Oleg chama com as duas mãos na boca. Ele aparece com a cara cheia de espuma de barbear. — Porra, cara! Agiliza aí essa caralha!

Ele dá um joia, puxa o Darth pra dentro e fecha a janela. Sento na mureta do boteco demolido, o fantasma resistente do palco de muitas bebedeiras nossas. Oleg acende um cigarro, me passa, acende outro pra ele.

— Mas e aí, man, como tão as coisas? — ele diz.

— Na mesma. O romance tá caminhando, mas escrevo muito pouco. Não sei. Parece que não consigo entrar de cabeça no bicho, sabe? Te contei que já fiz umas 60 mil palavras? Tô numa parte chata lá porque preciso ligar uma coisa na outra que vai rolar no final. Mas ainda não achei a conexão certa. Então fico revisando, retalhando, retrabalhando uns diálogos.

— Bom, se quiser ajuda, abre a história aí.

— Putz, eu levaria uma hora pra te explicar cada pormenor e cada coisa e desenhar todo o cenário pro problema fazer sentido.

— Tempo eu tenho. Ou cê acha que o Tomate vai ser rápido?

— Se o fdp não for, a gente perde o filme.

— E cê tá só no romance?

— Tô com um artigo pendurado na Trip, tenho que mandar até domingo. Tô com uma tradução encomendada pra Piauí também, livro duma indiana finalista do Man Booker. Disseram que vão escolher o trecho ainda e me mandar amanhã. Fora isso tô com alguns contos pra finalizar prumas antologias. Mas nada que envolva grana, os contos.

— Cara, se você tivesse um trampo que te permitisse escrever, ein. Seria perfeito. Já pensou em ser porteiro? Noturno? Deve ser uma paz foda ali na madruga.

— Se eu conseguisse não dormir, e tivesse mesmo tempo. Ser interrompido é foda. Escrever com sono também. Acho que eu não produziria assim não. No meu mocó faço melhor.

— Faz. Pobre.

— Fato. Tô pra ligar pro pessoal da agência. Acho que vou voltar a pegar uns frilas de publicidade. Pra deixar a geladeira cheia, uma coisa ou outra.

— É o djeito.

— Qual é esse filme que a gente vai ver mesmo?

— O novo do Paul Thomas Anderson, pô. Parece que o último do Daniel Day-Lewis.

— Ah, ele já falou que ia se aposentar antes.

— Poisé. Seria uma pena, bicho. Que cara monstruoso.

— Os dois, né. Trilha do maluco do Radiohead?

— Greenwood. Mas claro. Time que tá ganhando… Esses dias tava revendo aquele com o Adam Sandler, lembra?

— Que ele tem uns piripaques nervosos? Que ele liga prum daqueles fones de sexo virtual e a mulher começa a extorquir ele?

— Esse. Embriagado de Amor. Filmaço da porra. Puta merda. Antes de entrar nessa lista infinita de filme pastelão o Sandler fez esse filmaço.

— O cara é bom ator, meu.

— Ah, para. Primeiro que bom ator não faz sempre o mesmo personagem.

— Peraí. Ele não é o Keanu Reeves.

— Verdade, mas tá perto.

— Bicho, o Seymour Hoffman aparece nesse, não aparece?

— Aparece, o cara era chapa do Anderson. Tem aquela cena do Hoffman e do Sandler se xingando no telefone, ele fica gritando pro cara calar a boca, lembra?

— Foda. Lembro dele no O Mestre também, outra obra-prima do Anderson.

— Ah, cara. Nem vamos começar a falar do Hoffman, vai. E teve o Capote também, o Sinédoque… Não dá, tristeza demais que esse cara se matou. Puta que pariu. Fiquei ruinzão.

— Tristeza mesmo.

Tomate finalmente passa pela portaria e abre o portão do prédio.

— A noiva! — digo, entrando no carro.

— Foi mal aí, gente. Perdi a hora.

— Vai tomar no meio do seu cu, cuzão — diz o Oleg. — Senta aí e fica de buenas. Pipoca é por tua conta hoje.

— Beleza — ele diz, sentando no banco traseiro. — E aí, que mandam? Terminou a porra do livro, Jonas?

— Tá caminhando. E o maluco do teu vizinho? Resolveu?

— Que rolou? — pergunta Oleg.

— Não te falei, mano? — diz Tomate. — O cara ficava tacando bituca no meu canteiro da sacada. Todo dia eu acordava e tinha um monte lá, no meio da minha salsinha. Aí fiquei de butuca. Era o cara de baixo, que jogava lá da janela do quarto dele, acredita? O condomínio tascou multa. Agora o cara tá aterrorizando. Mete som alto. Fica batucando o teto com cabo de vassoura. Essas paradas.

— Puta que pariu.

— Poisé. Liga o som aí, pô.

Oleg liga. Led Zeppelin.

— Aí sim, digo.

Hey, hey mama said the way you move, gon’ make you sweat, gon’ make you groove.

A gente canta. E vai falando groselha, pós-filme, baguncinha, breja na distribuidora do Boa Esperança noite adentro. É lá pelas 2 da matina que a conexão vem. Nem é nada demais. É uma bituca no pé da cadeira do Oleg, ainda fumaçando, e tudo se encaixa. Anoto rápido no celular. Salvo e mando cópia no e-mail. Amanhã, quando sentar pra escrever, o romance finalmente volta a passar a segunda marcha. No fim das contas, uma noite frutífera.

 

santiago-santos este

 

Arte da vitrine por Jean Fhilippe

Leia mais textos de Santiago Santos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s