Ensaios e invenções: Resenha de ‘Bagageiro’, novo livro de Marcelino Freire. Por Jorge Antônio Ribeiro

 

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Criação, poesia, literatura, enfim, não costumam nascer em qualquer pedaço de terra seca ou de lama podre. Precisam de muito tempo, pedem leitura de livros, de mundos, de bagagens. Exigem sempre um jeito diferente de contar como se o escritor estivesse a todo momento em busca de uma nova linguagem.

Já fez tempo que Marcelino Freire criou seu próprio idioma para contar suas histórias.

Neste novo livro, Bagageiro, ele vem ainda mais incisivo, com a língua no ponto, bastante humor, muita poesia e invenções literárias que ele chama de ensaios de ficção.

Já no primeiro ensaio, a poesia aparece personificada e sabida em suas declarações: “O mundo quem é que lê mais? Só as árvores centenárias leem. E eu também” O que se tem neste caso é um texto que se apresenta como um poema longo e largo, marcado pela fluência do ritmo e pela elegância das imagens dominadas pela destreza com que o autor trata a língua que lembra a música dos cordéis e a fala dos camelôs no meio de uma feira. Na longa fala da poesia, há reflexões sobre a poesia e histórias curtas e líricas que lembram os mundos de Alberto Caeiro “O guardador de rebanhos”, e de Manoel de Barros, “O guardador de águas”. Caeiro, entre tantas coisas que escreveu pelas mãos e pensamentos de Fernando Pessoa, deixou-nos este sempre lembrado verso: “pensar é estar doente dos olhos”. Neste Bagageiro do Marcelino, ele diz: “Este meu livro parará em uma estante de ensaios. Pensarão que eu penso”. E, na sequência: “Quem usa o verbo pensar não pensa”.

Marcelino-Freire

Marcelino Freire

O universo de Manoel de Barros, sempre povoado de elementos da natureza insere-se nas reflexões poéticas do Marcelino, principalmente quando ele afirma, através da voz da poesia neste primeiro ensaio: “A gente sabe onde fica o chão do nosso lugar” ou “Eu só bebo água da boa, que cai ali, sem engarrafar. Vivo com o tempo que o tempo me dá”. Observemos estes versos de Manuel de Barros: “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – É de poesia que estão falando”. “Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras – liberdade caça jeito”.

Este livro mostra ao leitor que a poesia pode nascer sim na terra seca e na lama. Isto depende da perspicácia daquele que se propõe a perscrutá-la. E habilidade é o que não falta ao autor para apresentar a poesia, a merda, autores vivos e mortos, a prosa, a TV, o futuro, a educação, a dança, o teatro, a civilização, o prazer, o dinheiro.

O leitor pensa que vai ler um ensaio e lê um conto, acha que vai ler um conto e lê um ensaio;

É um livro repleto de reflexões a respeito da literatura, muitas dicas sutis sobre o escrever e até curiosidades a respeito de grandes nomes da literatura brasileira. Como afirma, no livro, o próprio Marcelino: “Esta foi uma obra de ficção. Embora tenha sido um livro de ensaios”.

Esta muito bem trabalhada edição da Editora José Olympio traz, desde a capa com barbantes azuis “amarrando” a bagagem, até a disposição dos textos nas páginas, uma preocupação de ser a moldura mais apropriada para o quadro de palavras que Marcelino Freire pintou com muita experiência e arrojo.

★★★

Jorge Antônio Ribeiro, paulista de Botucatu, sempre gostou de escrever poemas e de contar histórias. Em 2011 publicou o livro de contos Esses dias pedem silêncio, pela Editora Edith e já participou de diversas antologias. Escreve para gozar, no melhor sentido que este verbo possa ter.

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