Santiago Santos: Suzinha tem sono pesado, mas não tanto

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Acordei e vi o copo de leite e as bolachas que mamãe deixou na mesa antes de sair. Ela disse ontem à noite, sentada na beira da cama, que precisava acordar muito muito cedo pra ir no médico. Não tinha com quem deixar a Suzana, minha irmãzinha, então eu ia faltar a escola pra ficar em casa e cuidar dela.

Mamãe já tinha falado desse médico antes. Não pra mim, pra Margarida, a melhor amiga dela. Às vezes as duas sentavam no sofá depois da janta e conversavam sobre esse homem de quem não gostavam, mas achavam bom que ele tivesse lá caso precisassem. Eu ouvia pela fresta da porta, lendo meus livros no quarto. Pelo jeito a tia Margarida já tinha consultado com ele algumas vezes, minha mãe acho que ainda não tinha pegado aquela doença de que elas tinham tanto medo. Era algo que se pegava de tanto trabalhar e que era uma grande injustiça de Deus, mas eu não entendia direito como minha mãe ficou doente se tinha sido dispensada do serviço há tanto tempo. A gente só vivia com o que a vovó mandava enquanto ela procurava outro emprego. Tia Margarida parecia viver do mesmo jeito, a vó dela que ajudava.

Tomei meu café da manhã e fui ver o berço da Suzinha, dormindo, no quarto de mamãe. Ela saiu com tanta pressa que não arrumou a cama. Dobrei o cobertor e estendi o lençol, tomando cuidado pra não fazer barulho.

Li um pouco do Peter Pan sentado no sofá, com a janela aberta e o som dos carros e dos feirantes lá fora. Cansei de ler e peguei meus quatro carrinhos e fui pro corredor do prédio. Peguei o giz amarelo, que quase não aparecia no chão sujo, e fiz as marcas da rua. Comecei a dirigir eles, estacionando nas laterais e andando, fazendo uma corrida ou outra até a porta do Sr. Esteves, um senhor que não gostava da minha mãe nem da gente. Mamãe dizia que ele não gostava de ninguém. Ouvi uma tosse. Mas não do lado de lá da porta, e sim da escadaria do corredor.

Eram dois lances de escada até o andar de baixo, e entre os lances tinha um janelão que dava pra rua de trás do prédio. A rua dos alfaiates. Diante do janelão, um homem de terno cinza e boina na cabeça, olhando lá pra fora. Um pedaço longo de ferro e madeira que nunca vi antes encostado contra o vidro. O homem se virou e me viu no topo da escadaria. Sem falar, fez um gesto pra eu ir embora. Sentei no primeiro degrau. Coloquei os carrinhos entre meus pés.

Moleque, volta lá pra dentro. Cadê tua mãe?

Saiu. Tô sozinho em casa, cuidando da minha irmã.

Certo. Vai lá cuidar dela.

Ela tá dormindo.

Eu tô ocupado aqui, moleque. Trabalhando. Você não pode ficar aqui.

Você trabalha no prédio? Vai trocar essas janelas sujas?

Não hoje. Hoje só tenho que observar umas coisas.

Que trabalho é esse de observar as coisas? Nunca ouvi falar.

Vamos, vai lá pro teu apartamento.

Daqui a pouco, moço. Por enquanto eu preciso dirigir por toda a escadaria. Eu preciso gastar a gasolina dos carros.

Ele resmungou e ficou encarando o mundo lá fora. Fui descendo os degraus um por um, os carrinhos de um lado pro outro, as rodinhas rolando pela madeira torta e deslizando pra baixo. Quando cheguei no tablado, onde o homem tava, ele olhou pra mim de novo e puxou do bolso uma nota.

Quantos anos você tem, moleque?

Sete.

Sabe de quanto é essa nota aqui?

Vinte.

Isso. Já te deram uma nota de vinte antes?

Balancei a cabeça.

Então toma. É sua se você subir e voltar pro apartamento.

Já tô terminando. Só tenho que descer até ali, o andar de baixo.

Ele se tremeu todo, olhando pra fora. Arregalou os olhos. Soltou o ferrolho no meio da janela e empurrou o trinco. O vidro de cima se abriu um pouco. Ele me deu um tapão na cabeça, me puxou pelas costas e jogou contra a escada.

Agora, fedelho. Ou vai se ver comigo.

Senti as lágrimas crescerem nos olhos. Subi, pisando duro, os carrinhos espremidos nas mãos. Olhei pra trás mais uma vez e vi ele em cima do batente da janela, pegando o pedaço de ferro e madeira encostado na parede. Quando cheguei na frente do apartamento, juntei os outros carrinhos do chão e o giz e então parei de chorar porque ouvi um barulhão. Da escadaria. Depois passos. Começaram a abrir as portas do corredor. A perguntar, com cara de susto, o que tinha acontecido. O Sr. Esteves abriu, me olhou com raiva, e seguiu todo o pessoal que começou a descer. Voltei pra ponta da escadaria, com medo de que o homem ainda tivesse por ali. O pessoal se juntava ao redor da janela, olhando lá pra fora, falando, apontando.

Eu desci. Todo mundo tão empolgado que ninguém viu minha nota de 20 no chão, grudada contra a escora do último degrau. Peguei e enfiei no bolso. Tentei enxergar alguma coisa, um festival de pernas. Me empurrei por entre elas e pulei pra me erguer no batente. Mas o marido da dona Ivone, que às vezes tava arrumando o armário da mamãe quando eu chegava da escola, me pegou pelos braços antes de eu conseguir ficar de pé e subiu e me colocou dentro do apartamento. Antes de fechar a porta, me olhou bem sério.

Fica aqui dentro, Bruno. Aconteceu uma coisa feia lá fora, não é coisa pra criança, tá bom?

Eu fiquei. Não pelo que ele falou, mas porque ouvi o choro da Suzinha, e eu prometi pra mamãe que ia cuidar bem dela.

 

santiago-santos este

Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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