Edmar Neves: A triste Carniça de Rodrigo Ramos e Marcel Bartholo

Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.

O Corvo, Edgar Allan Poe (trad. Machado de Assis)

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Mitos e lendas sempre provocam fascínio nas pessoas. Seja por nos remeter a uma realidade fantástica, rememorar costumes, preservar aspectos culturais ou morais que dizem respeito a nossa constituição enquanto sujeitos e sociedade, ou até mesmo por trazer a tona fatos históricos que não estão registrados nos livros da história, mas que permanecem no imaginário coletivo, sempre recorremos aos causos para transmitir mensagens de valor inestimável.

Mas se tem algo que faz com que mesmo após gerações essas histórias continuem sendo contadas e até mesmo sejam exploradas pela cultura pop em filmes, jogos de vídeo game, entre outros, é o quanto elas podem ser assustadoras.

Já parou para pensar em quão macabras podem ser as histórias da loira do banheiro, do lobisomem, da mula sem cabeça, entre outros? Então, o escritor Rodrigo Ramos e o ilustrador Marcel Barthold decidiram utilizar o potencial para o terror que as lendas brasileiras possuem e criaram um universo nas HQs com essa temática, chamado “Carniçaverso”, sendo que a primeira obra publicada pela dupla foi a HQ Carniça (Publicação independente, 2017).

Aproveitando o poema “O Corvo” (Cia das Letras, 2019), de Edgar Allan Poe, pinturas de Cândido Portinari, como o quadro “Os Retirantes”, a lenda do corpo seco, uma mistura de zumbi com vampiro que povoa nosso universo folclórico, entre outras referências do cinema de terror e da literatura, a HQ conta a história de Jonas, um homem que é consumido pelo remorso de ter matado sua esposa.

Quando eu falo que a dupla aproveitou-se dessas referências, quero dizer que eles fazem uma verdadeira subversão no argumento e nos conceitos, gerando novas concepções estéticas e temáticas em sua obra.

Começando com a referência ao poema de Allan Poe, enquanto o mestre da literatura norte-americana busca retratar a beleza em seu poema, explorando a morte e a melancolia como um tema comum a humanidade, ao trazer o retrato de um estudante que, angustiado por ter perdido a mulher amada, começa fazer perguntas desesperadamente para um corvo que entrou em seu quarto numa noite de tempestade, cuja resposta é uma única e agourenta frase, “nunca mais”. Rodrigo e Marcel trazem o retrato da feiura, da crueldade humana, ao pintar o quadro de um homem que se vê remoendo o sentimento de culpa por ter assassinado sua esposa.

Em Carniça não há somente a representação de sentimentos comuns as pessoas, como a saudade, o amor, a tristeza, a culpa. Há também uma mordaz crítica a violência contra a mulher que se faz culturalmente presente em nossa sociedade, bem como o desespero e a secura dos homens em uma situação de extrema pobreza, o refúgio que esses sujeitos encontram nos vícios, como o alcoolismo, entre outras questões.

Assim como na lenda do corpo seco em que, por suas maldades, um homem é impedido de entrar no céu e no inferno e passa a perambular nas ruas atacando as pessoas, a personagem principal da história começa a apodrecer em vida e o que gera mais incomodo no leitor é o fato de Jonas não se importar com essa situação, deixando claro que na condição precária em que ele vive, começar a apodrecer é algo natural.

Sobre a arte de Marcel Barthold, a escolha do quadro “Os Retirantes”, de Candido Portinari, caiu como uma luva para ambientar a história. A começar pelo predomínio de cores cinzentas e terrosas, com detalhes em vermelho, que dão um ar soturno e desalentador para a aridez do sertão.

Os urubus, que no quadro de Portinari escurecem o céu, espreitando a família de retirantes como um presságio da morte que logo chegará, foi um substituto perfeito para o corvo agourento do poema de Poe, afinal, na HQ não há um diálogo entre o pássaro e a personagem principal, mas sim um silencioso e inquietante esperar. Já a expressão de dureza e desespero no rosto dos adultos na obra do pintor é transcrita de maneira excepcional em Jonas, na sua vigília mórbida.

Mesmo que Carniça seja uma HQ curta, seu impacto no leitor é avassalador, gerando reflexões profundas sobre o quão desumanizadora pode ser a extrema pobreza, o que demonstra todo o potencial que o universo que Rodrigo Ramos e Marcel Barthold estão criando, tem para nos dar histórias empolgantes.

A cena independente de quadrinhos vem se mostrando um grande celeiro de artistas que já ganham destaque internacional, mostrando que em épocas de crise a arte se mostra extremamente criativa e necessária. Por fim, para quem gosta de ótimas obras literárias, os quadrinhos nacionais tem se mostrado um prato cheio.


edmar neves

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