Mariana Salomão Carrara: A voz

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Arte de Nigel Van Wieck

Pelas tábuas de madeira da parede entra um sol fedido, suado, em feixes cintilantes de poeira e terra. O prato com metade do feijão e do arroz amanteigando no chão e o pé descalço do moleque pendendo da cama num balanço lento, quase um balanço de enforcado, mas pelo menos já chegou aos quinze anos, logo ele que pensou que não chegaria, se é que é possível pensar que não se chega aos quinze.

A gata em cima do caixote pintado de verde não move o olho nem o rabo, só as orelhas em pé na direção da voz do moleque, a voz que ela escuta como fosse o estado normal das coisas: ouvir a voz, os carros distantes, panelas, a voz, alguns passos nas escadas da viela, o vento, crianças com uma bola, e a voz do moleque de manhã, à tarde, até mesmo à noite, uma voz que ele altera para fazer a resposta da gata, porque é preciso que alguém responda. O moleque com dor nas costas, na pele, de tanto ficar deitado porque já nem olha a janela, a janela que se ele abrir de repente um tiro ou uma faca bem no meio do olho sem dar tempo nem mesmo de ajustar a visão ao golpe de luz dos dias lindos que têm feito lá fora.

E mesmo a gata que antes saía tanto agora já quase não sai, como se precisasse ouvir a voz, ou como se de tanto ouvir também ela o medo da rua, dos telhados, das trincheiras da favela com seus vultos armados. O moleque pergunta à gata se ela acha que um dia ele vai poder sair dali e ela responde com outra pergunta, Sair pra quê a essa altura? O que é que pode haver lá fora que ainda precise ser visto, esse lá fora que nunca trouxe nada de bom, talvez seja melhor mesmo esse quarto que é frio no inverno e quente no verão e molhado na chuva, esse quarto que quase nem é um quarto, e agora ele pergunta pra gata como será que é morrer e porque será que ele tem medo se a diferença parece tão pouca, entre estar e não estar, depois lembra que até mesmo a gata tem medo de morrer, é coisa que qualquer idiota tem.

Da primeira vez que soube que vão matá-lo ele não sentiu nada, ou pelo menos é isso que ele diz pra gata, não sentiu coisa nenhuma, mas depois, logo depois, foi pro quarto e não saiu mais, e desde então a mãe a velar o filho como se morto no quarto num enterro eterno, a mãe que também quase não sai porque cada retorno é a certeza do menino no colchão com sete furos e os olhos arregalados de pavor. A mãe que chora arremessando panelas, perguntando quanto é que ele deve pra esse povo e ele não responde, não diz porque já não adianta, não importa, cem, duzentas, trezentas pedras de crack, não querem mais nada, querem tudo, o moleque num canto da casa explicando pra gata, a gata tão atenta, que lição é essa que ele dá com a própria vida e tentando descobrir com a gata que coisa é essa da própria vida que parece valer tanto e no entanto nada.

Ele abraça o travesseiro murcho e olha a gata no fundo do olho marrom manchado e ela sustenta o olhar como nenhum humano, e ele conta que as pessoas que antes ele assaltava tinham um medo que ele não conseguia entender. Uma arma de brinquedo, tão a toa, tão leve, e ainda assim as respirações paralisadas, engasgos, gritos, os olhos das mulheres travados no ar de um jeito que talvez nunca voltassem ao normal, e quem sabe de tanto verem a morte nos olhos dele agora ele mesmo é a morte instaurada no quarto, nos ossos, a cada barulho dos vizinhos, batida de portas. Cada tiro que ouve ao longe pode ser o que vem pra ele.

Não sabia, ele conta pra gata, o que as pessoas queriam preservar com aquele medo, o que podia valer tanto se tudo era tão pouco, que poder era esse que ele tinha de deixá-las totalmente apavoradas se ele achava que nada no mundo podia deixá-lo daquele jeito. E agora talvez ele entenda, a gata respondeu, embora esse ainda seja um medo de animal, já que a vida nesse quarto não é nada que valha a luta, é só um medo de sangrar, de parar de pensar, de doer, de nunca mais beber, ou beijar, ou falar com a gata.

De vez em quando a mãe aparece com o rosto apagado e briga com ele, briga porque na viela de baixo mataram mais um, e uma hora vão buscá-lo nessa desgraça, e ela briga porque ele não tinha o direito de morrer assim, deixá-la feito doida a doer os joelhos atrás de juiz, ONG, igreja, até mesmo de polícia, essa que respondeu que se não matarem o moleque logo eles mesmos vão matar, e essa mãe voltando toda noite sem coragem de entrar e se acalmando apenas ao ouvir a voz do menino conversando com a gata há horas, como se isso fosse coisa de acalmar mãe.

Ele fala agora pra gata que na Fundação ele tinha aprendido que a vida é importante, e mil vezes tinha escrito na lousa que matar é ruim, assustar também não é certo, não é bom ninguém ter medo, e que o certo é estudar e aprender, O que você gostaria de ser? E ficou pensando, mecânico, pedreiro, eles sugeriam tantos, o importante era não matar, nem assustar, e às vezes quando tinha confusão — e agora a gata parece não prestar atenção, distraída com qualquer coisa a toa lá fora, mas ele já nem liga e fala mais rápido – ficavam todos os meninos nus, umas cuecas horríveis, as cabeças baixas, na frente de todas as funcionárias, professoras, faxineiras, porque era uma nudez de moleque, de bandido, uma nudez sem sexo, de quem já não possui o próprio corpo, e ao passar em fila entre as grades geladas, as mãos para trás, as cuecas murchas encardidas, entoavam seus cumprimentos aos presentes, num coro que ecoava pelos corredores feito um canto gregoriano sem aplauso nem valor, Senhor! Senhora! Senhor! Senhora! Senhor! Senhora!, e ele gritava, quando preso, e grita agora no quarto, grita alto, Senhor! Senhora! Senhor! Senhora! E nem assim a gata desvia as orelhas fixas na janela, as garras estiradas à espreita, algum barulho à toa lá fora que se aproxima, Senhor!! Senhora!! Senhor!! Senhora, ele marchando no quarto agora de novo de cueca, e explica pra gata que ele já entendeu que não se pode assustar os outros, que tem qualquer coisa na vida que vale muito porque depois que acaba não fica nada, mesmo se for a vida do outro, Senhor! Senhora! Senhor! Aprendeu que fica um buraco na família, será que você está me escutando?, um buraco quando a mãe entra no fim do dia e já não ouve a voz, e fica um prato de feijão e arroz meio comido, como se fosse possível terminar mais tarde, como se tivesse por que comer mais, e uma gata assustada que nunca mais saiu da casa, nem mesmo do quarto, nem de cima do caixote, com os olhos e ouvidos travados no que não pode, sozinha, entender.

Mariana Salomão Carrara é paulistana, nascida em 1986. Tem um livro de contos (Delicada uma de nós), dois romances publicados (Idílico, e o recente Fadas e copos no canto da casa) e um a ser lançado pelo Prêmio Toca. Recebeu prêmios nacionais como Off-flip, SESC-DF, Felippe D’Oliveira (2015 e 2016), Sinecol, e Josué Guimarães. Publicou um conto na revista do SESI/SP, outro na revista do SESC-SP e um na Revista Liberdades, do IBCCRIM. Uma primeira versão do romance Fadas e copos no canto da casa foi finalista e menção honrosa no Prêmio Nascente USP-2009. Foi aluna do CLIPE Casa das Rosas 2018. É Defensora Pública desde 2011.

 

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