Leia três fragmentos da obra “Éter – Novela de Narcolepsia”, de Ian Uviedo

A Divina Comédia
você já leu?
me pergunto
sozinho com o livro em mãos
a capa azul, indecifrável
uma cápsula do tempo
nas minhas mãos.

eter

Capa de “Éter”, arte de Mozart Fernandes

O escritor Ian Uviedo publica seus textos de forma independente. Integra, desde 2016, o grupo de criação coletiva La Tosca, por onde lançou zines de poesia, contos, fotografia e narrativas experimentais. Neste ano, Ian lança o seu primeiro livro Éter – Novela de Narcolepsia, pela editora De Los Bugres. O autor também é integrante dos Trovadores do Miocárdio, espetáculo performático-poético-musical dirigido por Eduardo Beu, com o qual já se apresentou ao lado de artistas como Fausto Fawcett, Otto, Bárbara Eugênia e Mário Bortolotto.

 

A obra  narra a história de uma obsessão. Quando um homem sem nome, que mora sozinho em um quarto, conhece uma garota que lhe oferece aulas de religião. Tem início uma perseguição subjetiva que passa por religiões, memórias, narcolepsia, sonhos e muita fumaça. Cada capítulo inicia-se quando o narrador acende um cigarro. Éter tem capa de Mozart Fernandes, orelha de Marcelino Freire e será lançado em São Paulo no Teatro Cemitério de Automóveis, no primeiro semestre de 2019.  

 

foto_ruido

Ian Uviedo

Leia a seguir três fragmentos da obra:

3.

Sobre minhas pálpebras, o peso de um império
e eu odeio café.
Sento na cama, lençóis desarrumados.
Deixo o folheto sobre a ordem de despejo,
apago o cigarro pela metade no cinzeiro, agora sobre o folheto.
Eles detestam que eu fume nas escadas. Me despejaram porque eu fumo nas escadas, e ficam inventando histórias… Aqui não é mesmo o meu lugar. Ao lado do rio, não é o meu lugar.
Meu lugar é aqui, nesses travesseiros
travesseiros…
.
.
.
A mesma praia, eu mesmo, me vendo. Eu longe, me vendo ali andando. A mesma praia pálida, o mesmo silêncio de abismo, o sopro distante do som das ondas a se quebrar na areia para reverberar novamente no canto das cigarras.
A lua no auge da sua ausência. Não sei o que eu penso.

Acordo de repente. Náuseas de sono. Bocejo até os ouvidos estourarem.
Desvio meu olhar para o relógio digital no rádio.
Nove horas.
Paro em pé. Tão subitamente que chega a ser ridículo.
Acendo o mesmo cigarro, levanto o cinzeiro.
Nove e meia, no folheto.
Ou Brahma, ou Vishnu, ou Shiva – só havia um – me encarando do fundo do papel de revista.
NOVE E MEIA.
Tomo um copo d’água, quase me afogando.
Sapatos, os mesmos sapatos de sempre.
Apanho o folheto.
Escadas, seis lances, seis degraus cada.
Andando na rua rápido
como nunca antes.
Jogo o cigarro, tento acertar o rio.

Ando alguns quarteirões, subo uma ladeira, direita, outra ladeira, número treze a casa.
A rua escura, algumas pessoas conversando frente à porta.
Me aproximo.
Ela está lá, recebendo os alunos do Professor Nero.
Previsível.
Incrível.
Ela usa uma faixa no cabelo e uma saia longa.
Ela é linda, segurando entre o dedo médio e o polegar o tabaco, excelentemente enrolado.
Enquanto que com os outros três dedos segura um incenso que pendura ao lado da sineta na porta.
É uma virtuosa.
É uma artesã.
Minha vez. Ela não me reconhece.
Olho no fundo dos seus olhos
parecem cada vez mais
distantes.
Me sinto diminuindo progressivamente
uma criança perto dela.

– Você vai entrar?
– Você se lembra de mim?

Silêncio profundo entre os nossos olhos encontrados.

– Ah, claro – ela suspira – você veio mesmo.
– Eu vim ver você

Saco um cigarro.

– Não me surpreende, vamos entrando, e…ah! Não podemos fumar cigarros lá dentro, apenas tabaco. Espero que isso não te incomode.

Me incomodar? Olho para o cigarro
é claro que me incomoda.
Guardo, e entro ao seu lado.

– Mas o Professor Nero já chegou?
– É claro, nós moramos aqui

Trago longo e imaginário.
Todos sentados em almofadas dentro da sala. Detalhes dourados, imagens lindas nas paredes. Buddhadharma e um cachorro no gramado.
Panos esotéricos no teto
cheiro de erva queimada
cheiro de chá.
Observo.
Na frente de tudo, ante o altar
magro
barba cinza
ombros largos
Professor Nero, e seu tabaco nas mãos.
Esse maldito incenso
muita gente
por que eu não posso fumar o meu cigarro também?
Ela puxa o meu braço
nos sentamos em algumas almofadas no fundo.

Três palmas, Professor Nero, se curva três vezes na nossa frente.
É o primeiro curso do ano, ela diz.
Ela está animada.
Ele começa a falar
devagar.

“Na cultura hindu, nós temos três estados das energias terrestres e celestiais, a criação, a conservação, e a destruição, sendo representadas pelas três primeiras entidades que conheceremos, respectivamente, Brahma, Vishnu e Shiva…”

Sua voz
começa a se tornar distante
pequena
irrelevante
cheiro de sândalo
vapor no ar, fecho de novo os olhos.

Não sonho.
Acordo encostado no ombro dela.
Ela me olha com repulsa
devolvo o olhar de repulsa
para toda a sala
me levanto
dor nos joelhos, muito ocidental
preciso fumar um cigarro.

9.

Me sento na cama
a fumaça saindo gradativamente da minha boca
silêncio.
O cérebro é o registro rápido
em formas enormes
que vai se transformando em memórias
transformando-as também
e misturando tudo
como nuvens sobrepostas
são as memórias.
O crânio de Yimir
Odin transformou no céu.
O Rio Aqueronte corre na frente da minha janela
me sinto como que picado por uma vespa
por milhares de vespas
todos os dias.
Com o sangue de Yimir
Ve, sua filha, fez os rios.
Se eu penso o que eu quiser
aqui onde já não me apetece pertencer
faço o que quero
antes de ir.
E me lembro de Shaya, o abismo
na janela
como se estivesse no estômago transparente
de uma criatura gigante,
sendo deglutida
aos poucos sendo corroída por líquidos estomacais
efervescentes.
Pergunto se ela viria
se viria comigo, quando a hora de partir daqui
finalmente chegasse
se ela é feliz
ela se apaixona por mim?
Dormi no seu ombro, porque me sinto sozinho
é o que eu queria dizer
perguntei se fumava
porque me sinto muito sozinho
falei sobre sacrifícios
porque muitas vezes me sinto tão sozinho
que dói
me sinto sozinho como sêmen jogado fora
despreparado para as consequências
da mais ampla e criativa solidão
uma criatura que ainda não estava pronta para nascer
não sou criação
nem destruição
por isso me banha o Rio Aqueronte todos os dias
sou a conservação, Vishnu.
Por isso fumo cigarros
Não gosto de café porque me mantém acordado
e passar horas assim acordado na realidade é o pesadelo
a realidade tem cheiro de álcool etílico
que é jogado nas portas das casas de umbanda
antes das entidades chegarem.
Quando eu era criança, lembro
minha vizinha era uma idosa, que bebia vodca todos os dias, os dias inteiros
morava completamente sozinha, como se fosse o último fantasma
presa à algo na casa
quando a noite chegava, ela gritava
era muito alto, mas impossível de entender também.
Me pergunto se ela bebia porque se sentia sozinha
ou se todos a abandonaram porque ela bebia,
também me pergunto se ter companhia
é realmente o contrário de estar sozinho.
Ela bebia
porque eu fumo
e ela sabia, há muito tempo
que para você poder conhecer a si mesmo, é necessário sofrer
é preciso gritar todas as noites
ou não comer nunca.
Para você criar o mundo
é necessário jogar o seu corpo nas chamas.
Para conhecerem seu poder
é necessário incendiar uma cidade inteira
e o medo é insaciável,
porquê o inferno não é um lugar.
O inferno é um cair eterno
ao qual você jamais se acostuma.

Me desfaço na cama
como as cinzas se desfazem
em cima da ordem de despejo.
11.

A Divina Comédia
você já leu?
me pergunto
sozinho com o livro em mãos
a capa azul, indecifrável
uma cápsula do tempo
nas minhas mãos.
O cone é o inferno
o inferno de Dante
o pior dos infernos já inventados
prelúdio de um ser, uma crença católica
no meu ser
no meu ser mais primitivo
e indecifrável.
O inferno é onde já não se distingue o homem
do animal.
O inferno de Dante, cravado no meu cérebro.
Por que?
Como não havia visto antes?
Ela teve de ser os meus olhos
dentro do meu próprio sonho.

Trago, violentamente.

Meus olhos para a janela
a noite cai discreta, sexta-feira,
sobre o rio
sobre todos.
Odin, filho do gigante Yimir,
se tornou o rei de Asgard inteira
pois trocou seu olho
por um gole de sabedoria.

Saio, seis lances
gritam dos apartamentos
odeiam que eu fume na escada.
A rua em movimento
na noite comercial
pessoas ao redor do rio
pessoas ao redor uma das outras
a rua movimentada
que nem eu
que trago, com valor, o meu cigarro
pequena ardência no lábio inferior.
Vou atrás de um gole de sabedoria
eu mereço.
Mesas nas calçadas,
uma garrafa de conhaque,
e mais nítido do que a praia vazia em meus sentimentos
só a imagem de Shaya.
Seus cabelos cacheados
o movimento das suas falanges
enrolando
enrolando o cigarro
o fogo do isqueiro perto do rosto
nua, sentada
o sangue é quente
para aliviar a dor, meu amor.
Aconchegada
pousada sobre o meu dedo médio
cabeça vermelha e pulsante
na escuridão
só a brasa
dos nossos cigarros.
Dois pontos vermelhos
acesos
soltos ao ar.
Como no mito da criação egípcio
no princípio
emergiu das águas
uma ilha
no oceano de lençóis, desejo
brotando flores, das pontas dos meus dedos
até que orquídeas, rosas, saiam da sua boca
e nós nos tornemos uma só árvore
na escuridão.

Acordo. Na mesa. Na calçada.

Trágico, o cigarro se consome na minha mão.
Pessoas demais ao redor do rio
como se o senhor do submundo
estivesse atravessando o canal à barco
e todos, com picadas de vespa pelo corpo,
pedissem a salvação.
Sexta feira.
Ensinamentos espirituais todas as quartas e sextas-feiras, diz o folheto.
Professor Nero, diz o folheto.
Você tem horas?
Nove horas.
O céu hoje
nu ainda de lua
cambaleante
cada vez mais próximo
do conhaque amargo ardendo no meu estômago
sabedoria em abundância no meu fígado
o corpo como que submerso, distante
de tudo.

Deixo a bituca
a garrafa quase vazia
acendo um novo cigarro, como se fosse óbvio
não quero chegar atrasado.

 

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