Ivan Nery Cardoso: Mané

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Ivan Nery Cardoso

 

Não bastava ser chamado de Mané – seu nome mesmo era José Manuel das Couves –, o Mané também era assombrado por fantasmas. Melhor dizer fantasma, no singular, pois era um, o mesmo, durante anos lhe fazendo aparições: um velho carrancudo, meio curvado, a cara toda quebrada por rugas. Usava a mesma roupa: terno, chapéu, camisa e gravata, todos pretos, e fumava. Estava sempre com um cigarro aceso, levando à boca com calma, demorando para soltar a fumaça de volta ao mundo dos vivos. Não fazia mais do que fumar, sempre a uma distância, encarando o Mané com um olhar duro, pupilas penetrantes, sobrancelhas baixas.

O primeiro encontro dos dois se deu quando o Mané ainda era muito criança, pequeno demais para lembrar que a mãe pedalava a bicicleta pela cidade, fazendo as entregas da venda do pai. Ele ia na garupa. Paravam de porta em porta para deixar, nas mãos dos criados, o meio quilo de linguiça, os martelos e pregos, os metros de pano. Ela estava contando moedas do lado da porta que havia acabado de ser fechada quando o Mané olhou para o outro lado da rua e viu o velho encarando e fumando seu cigarro. Estava parado, à luz do sol, enquanto passavam pedestres para lá e para cá com jornais debaixo do braço. Havia algo de incorpóreo nele, algo de assustador, que fez Mané percebê-lo, sem nem conhecer a palavra, como um fantasma. Desatou a chorar em desespero, apontando para o outro lado da rua e gritando pela mãe, mas quando ela chegou preocupada não havia mais nada. O pranto continuou quando a mãe se ajeitou no selim e começou a pedalar, então ela não teve outra alternativa a não ser lhe dar uma surra para que engolisse o choro – a única coisa que ficou na memória de Mané desse dia, que se lembrava, sem dúvida, de ter acontecido.

Não eram uma família abonada: moravam num quarto-cozinha-banheiro nos fundos da venda do pai, que ia sempre de mal à pior, e só não arrancaram o Mané da barriga da mãe por ser mais um par de mãos para ajudar. Aprendeu a fazer contas no balcão da venda, e só sabia decifrar palavras escritas nas placas das ruas e nas embalagens. Invejava as crianças que via de uniforme escolar, com os livros debaixo do braço, sempre com jeito de banho tomado, os cabelos penteados ou presos em tranças, esperando o bonde enquanto ele passava pedalando a bicicleta para fazer as entregas, função que assumiu quando tinha tamanho suficiente para pedalar a bicicleta.

Nessas idas e vindas pela cidade, era coisa comum ver o fantasma do velho, sempre parado numa esquina lá à frente, encarando-o de uma janela no primeiro andar, do outro lado de um terreno baldio, todo vestido de preto, inspirando um medo profundo no Mané sem fazer muito além de fumar seu cigarro e segui-lo com o olhar. Na infância evitava o velho, ou fingia que não estava ali e seguia adiante. Mas com a coragem e os pelos da adolescência, passou a encarar o fantasma de volta, como se fosse capaz de meter medo naquela aparição. Estufava o peito, fazia cara de enfezado e perguntava, berrando, para que o ouvisse: “Que é, velho? Tá querendo o quê velho?”

Começaram os cochichos de que o Mané, o Mané da bicicleta, estava ficando louco. Andava falando sozinho, gritando com as pessoas na rua, tentando arranjar confusão com quem estava quieto e, pior de tudo, atrasando as entregas. Não deu outra, o pai lhe deu umas belas surras para ver se tomava jeito, e a mãe o levou na benzedeira, acendeu velas, rezou e preparou um banho de sal grosso, mas nenhuma estratégia funcionou: o fantasma continuava seguindo o Mané. E depois disso tudo, parecia estar tomando coragem, ganhando força, aparecendo cada vez mais perto. Certa vez chegou até a porta da venda enquanto ele contava o troco, e o Mané pôde sentir o cheiro da fumaça que soltava. Engoliu o medo que sentia vendo seu rosto todo enrugado e saiu correndo atrás da assombração, assustando os poucos clientes que ainda tinham coragem de comprar na vendinha do Mané Maluco, como ficou conhecido. Nunca chegava a tempo de acertar um soco, porque o velho virava uma esquina, ou dava um passo para dentro de um prédio, ou aproveitava uma ventania repentina para desaparecer.

Não demorou, como sempre é nesses casos, para vir a tragédia, e num mesmo mês a venda fechou, o pai morreu da gripe europeia e a mãe do cólera. Quem salvou o Mané foi um tio, irmão da mãe, com quem se correspondia. O levou para sua fazenda numa caminhonete surrada, viagem de horas por uma estrada de terra interminável. O Mané dormiu e acordou duas vezes no trajeto, e só via plantações e mata ao redor. Chegaram pela noite, a tempo do jantar ser servido pela tia Amaranta para toda a família. O Mané foi recebido com alegria pelos primos e primas – descobriu que tinha primos e primas, três homens (Liberato, Antônio e José Gabriel) e duas meninas (Gabriela e Eulália) –, que o trataram desde cedo como irmão.

— Qual o seu nome? — perguntou Eulália.

— José Manuel.

— Mané que nem o papai — disse Antônio.

— Mané só tem eu — disse Mané tio.

— Então fica você Manezão, e ele, Manézim — sugeriu Amaranta.

Foi dormir de barriga cheia no quarto abarrotado, junto daqueles corpos juvenis, ainda tímido de lutar pelo seu próprio espaço nos colchões espalhados pelo chão, sem saber se viu no sonho ou na realidade o velho do lado de fora da janela.

Ali, todos trabalhavam para todos poderem comer: os homens no campo, as mulheres na casa, e o Manézim teve logo que aprender a pegar na enxada, plantar, colher, embalar e dirigir a caminhonete. Aprendeu também a enrolar fumo de corda, a gostar do fumo de corda, e a escapulir pela noite com os primos para o inferninho mais próximo, onde as damas da noite os tratavam como vagabundos até verem o dinheiro surrupiado de Manézão e se encherem de sorrisos e carinhos. Manézim virou homem logo na primeira semana na fazenda, e agora, quando via o velho, enrolava seu cigarro e fumava com calma, os dois se encarando. Não se sabe se foi Manézim quem trouxe a gripe dos pais, mas Amaranta, nem dois meses depois de sua chegada, caiu na cama e foi de lá para o caixão. Eulália, depois disso, se trancou num luto como não se tinha visto ainda naquela casa: não levantava da cama, não comia e não falava com ninguém. Veio o médico, mediu-a da cabeça aos pés, e disse que não era nada do corpo – só podia ser tristeza.

Manézão passou a ficar na casa junto de Gabriela para ver se trazia alegria de volta para a filha, deixando os meninos para cuidar do campo, e eles competiam nas tarefas das plantações para ver quem era o mais veloz, o mais forte, o mais hábil. Faziam tudo com pressa, mas com muita atenção, Liberato, Antônio e José Gabriel. Manézim, que ainda estava aprendendo a viver no mato, numa dessas saiu correndo desvairado pelo campo, cortando pés de cana sem olhar para os próprios pés e levou uma picada de cobra na perna. A dor foi pequena no momento – o susto foi maior – mas logo começou a subir pelo calcanhar, canela e joelho como labaredas, transformando os músculos em lenha. Liberato e José Gabriel chuparam o veneno e fizeram um garrote na coxa, enquanto Antônio correu para buscar o médico, que demorou até o final da tarde para chegar, tempo em que não havia mais o que fazer além de amputar Manézim.

Mas nem tudo foi tragédia. Manézim amputado, Eulália se recuperou como milagre. Levantou da cama ao ouvir os gritos da operação, e logo se prontificou a ser a enfermeira do primo enquanto se recuperava. Ficou na beira de sua cama lendo histórias enquanto ele delirava de febre.

— Não, não olha pro machucado ainda. Deixa que sare, antes.

Manézim, agora perneta, não podia mais ajudar na lavoura nem dirigir a caminhonete, então acabou ficando na casa, costurando, cozinhando e limpando com as primas, tarefas pelas quais tomou gosto. Percebeu que Eulália gostava de se olhar no espelho da sala, dava risadinhas para o reflexo e ensaiava passeios a beira mar como as damas dos livros que lia para Manézim. Achou-a deslumbrante, e disse para ela. Gabriela não se dava bem com ele, dizia que tinham levado embora sua hombridade junto da perna, onde já se viu, homem costurando? E se divertia, chamando-o de marica, de fru-fru. Os primos também faziam troça do Manézim, voltando suados de um dia de trabalho honesto. “Ó o marica aí, fazendo cachecol”. Mas Eulália se deu bem com o primo, faziam tudo juntos, às risadas, e sabia bem que o primo era homem, pois bastava Gabriela ir buscar uma água no poço para ficarem sozinhos na casa e ela se jogar em beijos nele, deixando que a bulinasse por baixo das roupas, que a tocasse entre as coxas.

O machucado de Manézim acabou por salvá-lo da guerra, quando a guerra veio. Os primos pareciam homens feitos, indo embora com seus uniformes de soldado, barbas feitas, botas polidas e armas atravessadas no peito, para lutar uma luta da qual não voltariam. Foi o desespero de Manézão, que, depois de um luto de quase meio ano, escreveu seu testamento deixando as terras, a casa e os equipamentos para as filhas, antes de arrancar a cabeça fora com sua escopeta na mesma noite em que Eulália e Manézim, sem saber, concebiam a primeira filha.

— É tudo culpa sua! — gritou Gabriela no enterro do pai, dizendo que Manézim só havia lhes trazido desgraça. Gritou, apontando para ele: — Desgraçado!

O povo no enterro concordava, mas não disse nada, e Eulália foi a única que o defendeu, indo parar no mesmo buraco de isolamento em que Manézim – agora voltando a ser Mané – tinha sido jogado. Foram tempos difíceis. Sem mãos para fazer a colheita, tiveram de pedir ajuda a uma caravana de ciganos que acampava pela região. Cobraram metade do lucro para a tarefa e mais algumas sacas de comida para si. O dinheiro que a colheita rendeu não foi suficiente para arriscar uma próxima. Gabriela se embrenhou com um ciganão tatuado e foi embora – já de barriga – com a caravana quando desapareceram da noite para o dia, deixando uma carta de despedida para a irmã. Pedia que fizesse o mesmo, vendesse as terras, largasse o Mané e arranjasse um outro marido, de preferência um estrangeiro, que não soubesse de toda a desgraça da família.

Mas Eulália amava o Mané, de uma forma que ninguém nunca soube explicar, e ficou ao seu lado. Apresentou como se fosse sua a ideia de vender as terras, e só depois da morte da filha – Irene, que não completou um ano –, Mané aceitou, entendendo que era isso ou o destino de Manézão. Fizeram acordo com um filho de espanhóis endinheirado, da maneira que estava ficando comum naquelas bandas que dia a dia iam empobrecendo: a fazenda ia para o espanhol, que dividiria o terreno em oito para construir casas com quintal na frente e cercas de madeira, cobrando aluguel dos inquilinos, e eles ganhariam uma das casinhas em troca dos serviços de zeladores do empreendimento. Salário e tudo. A reforma foi rápida, em pouco tempo já não havia mais sinal do campo onde ficava a plantação, nem da casa que moraram por tantos anos, toda aquela gente nova se mudando para cima das memórias da família. Ficaram com o espelho de Eulália e as camas que ainda estavam boas, dentro de uma casinha de cimento com número na porta, igualzinha às outras.

E assim se passou meia vida de tristeza para os dois. Mané cuidava de toda a fiação e tubulação dos vizinhos, quando davam problemas: ia lá com sua maleta, e sempre necessitava da ajuda do inquilino para lhe passar as ferramentas. Se o problema era muito grave, tinha que telefonar para a cidade, de onde vinha alguém uniformizado com prancheta na mão resolver. Eulália revezava os dias como faxineira das casas. Conversava com quem estava em casa e cobrava à parte, para poder fazer as compras quando tinha tempo. Já não se falavam mais quando foi a vez dela morrer. Mané velou o caixão por dois dias sem trocar as roupas de luto, e tiveram que arrancá-lo à força da madeira para que pudessem enterrar, e mesmo assim ficou ao lado da cova preenchida até que todos fossem embora.

Voltou lento, mancando com sua muleta, pela beira da estrada – agora asfaltada – e chegou na casa pela noite. Caminhou pelas terras, vendo as casinhas todas iguais, a plantação que virou empreendimento, o poço que foi coberto e vivia infiltrando no jardim da casa 3, o celeiro, do qual não sobrou nada para lhe dizer se era aqui ou um pouco mais para lá. Chegou em casa e parou um instante à porta. Enrolou um cigarro e entrou com ele aceso. Lá dentro, tudo continuava da mesma forma como antes da morte: igual, mas tão diferente. Caminhou pela sala, passando a mão nos móveis novos, sem histórias, sem nada. Pareciam pertencer a outros, não a Mané, muito menos a Eulália. Dela, só restava o espelho no quarto. O Mané foi até lá e viu a cama ainda desarrumada do dia em que ela não acordou, os vestidos no armário, agora sem nenhum corpo que os desse forma, e, no canto do quarto, onde costumava ficar o espelho, viu o fantasma do velho, levando o cigarro à boca com calma.

Ivan Nery Cardoso

 

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