Renata Py: Seu Guinga

 

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A bixinha nasceu bonita, coradinha que só. Doutor disse que sou um icosavô, isso quer dizer que sou o vigésimo avô da Darlene. O avô mesmo ela nem vai conhecer, a cirrose levou o pobre. Bebia até as tantas, arrumava alvoroço em cada esquina. Nem teve a felicidade de ver a bacurizinha, se tem uma coisa boa nessa história de ser imortal é ver as criaturinhas nascerem. Eu ainda tenho vigor e acabo cuidando da molecada para os pais correrem atrás da vida, coisa que já não faço mais, hoje ela que corre atrás de mim.

Não foi sempre alegria, isso já me deixou bastante aperreado, nunca consegui dar um fim. Já fiz mandinga, promessa e nada de partir. Hoje me apego nas lembranças boas. O ruim é que enterrei muita gente, isso não dá para acostumar não. Já passei pela guerra, pelo progresso e tantas mudanças que fica difícil guardar nessa caxola véia. Vivo apenas cada dia, como hoje, quando vi Darlene nascer. Ajudei a botar um monte deles nesse mundão de meu Pai. Mais de 65, pelas minhas contas. Quando eles envelhecem não entendem como ainda estou aqui, dando conselhos, ajudando até na hora da morte. A gente sofre demais, não acostuma com isso não. Segue o jogo, aqui onde vivo muita coisa nunca mudou. Nunca sai, não faço questão não. Já vi essa meninada crescer e correr o mundo, chegar aqui com cara de doutor. Pobrezinhos, não sabem de nada. Só o tempo traz grandeza, e tempo é coisa que eles não têm. Difícil até explicar, como poderiam entender?

Na minha terra me chamam de milagre, somos todos, isso ninguém percebe. Milagre é a goiabeira ainda dar o mesmo fruto, com o mesmo sabor gostoso de quando eu era um moleque. Nunca enjoei, vivo de cuidar dessa criançada e fazer goiabada. Não uso máquina e nada de firula. Faço na lenha, como sempre foi. Melhor goiabada da região, vem até branquelo gringo atrás, só porque ouviu falar. Povo me respeita, pede conselho. Dou não. Vivi demais, não seria certo aconselhar, acabaria com a ilusão desses pobres coitados.

Renata Py é publicitária, foi editora-chefe da PUNKnet e locutora na Antena Zero. Trabalhou com jornalismo cultural em veículos como Showlivre e Kultme. Hoje dedica-se apenas à escrita literária. 

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