Roma: cinema ritual e exercício da presença. Por Yasmin Bidim

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Comecei a assistir Roma sem ter muitas informações do filme. Sabia que era um filme mexicano que estreou no Netflix. Sabia também que era um filme dirigido por Alfonso Cuarón, que ganhou o Oscar de melhor direção por Gravidade. Eu sabia que era um filme preto e branco por conta de uma imagem que havia visto na internet. Mas nada sabia da história e de seus personagens. Sabia que deveria vê-lo porque sim.

A primeiríssima sequência do filme, do chão sendo lavado, já advertia: não é um filme qualquer. Aliás, talvez nem seja somente um filme. É também algo precioso que temos aqui.

Conforme assistia ao filme, a sensação de que não havia um único plano que não fora extremamente pensado e cuidadosamente executado. Um exagero? Talvez. Mas talvez o excesso de cuidado, o preciosismo estético estejam lá justamente pois todo o restante em Roma é, essencialmente, simples.

Não acredito que o cinema, ou qualquer outra arte, tenha como função transmitir mensagens, pois como aponta Deleuze em O Ato da Criação, informação serve para transmitir palavras de ordem, e não creio que a arte tenha a ver com ordem. Creio que o cinema deva ser visto, pelo menos, como contra-informação, podendo converter-se em ato de resistência, quando assim nossas subjetividades permitirem. Mas se tem algo que talvez Roma nos diga é que as coisas são mais simples do que imaginamos, as coisas são o que são. Ou por fim, as coisas são.

A vida acontece muito além de nossas vontades e em nossa existência ela se manifesta como sequências de possibilidades. Como a constante expectativa criada em torno da sempre iminente fuga do cão Borras. Mais de uma vez cria-se a tensão em torno da possibilidade de que ele fuja, sempre que o portão precisa ser aberto. Mas quando de fato ele escapa das mãos de uma das crianças nada de extraordinário acontece.

São várias as sequência do filme em que vemos as personagens vivendo situações tensas de possibilidades. Há o que vemos na tela e há a possibilidade evocada pela sua iconografia. Quando Cléo e a avó levam as crianças ao cinema, um dos meninos foge. Cléo o perde de vista, corre atrás dele, por vários metros, atravessando ruas da cidade repleta de carros e pessoas, os sons são caóticos, ela corre e há um mundo todo que não vemos, mas ouvimos. O que será que aconteceu ao menino? Foi atropelado, sofreu um acidente, foi sequestrado? Ficamos tensos com Cléo. Nada havia ocorrido com o menino. Mas ele, Cléo e nós somos surpreendidos pela súbita aparição do pai acompanhado pela amante.

Todos são surpreendidos no cerne de nossa própria expectativa. Será que apenas pensamos que poderia ter ocorrido algo com o menino ou desejamos que tivesse ocorrido algo? Somos confrontados a todo momento, assim como as personagens, com o fato de que não sabemos o que pode ocorrer, não temos controle mas ainda assim construímos narrativas possíveis a partir do desejo. E em Roma, elas vão se desfazendo. Não há desejos realizando-se. Há a vida ocorrendo simplesmente, e ela é dura e com frequência não temos o que queremos.

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Mas também não assistimos a uma representação dramática de uma sequência de tragédias pessoais. A dor e o sofrimento competem a todos e não são afetos descolados da existência. Existir é doloroso. E podemos sofrer. Podemos sentir tristeza sem sentir culpa. Agora, recordando do filme, vem a sensação de que há cenas felizes. Mesmo nas sequências que retratam momentos de alegria há uma tristeza impregnada. Uma tristeza que está além dos acontecimentos práticos e históricos do cotidiano. A tristeza que acompanha a realização da existência.

Sofia, a mãe, é triste a maior parte do filme. O fato dela ter uma condição privilegiada não a protege do sofrimento, da frustração e da sensação de abandono. Ao final, quando ela parece aceitar a condição na qual se encontra, quando ela desiste de negar a sua realidade e olha para si mesmo, parece então libertar-se da culpa e esboça uma felicidade breve, mas genuína. Cléo sofre um dilema semelhante. Ela não desejava a gravidez, e por isso sente-se culpada da filha ter nascido morta, ainda que no fundo ela saiba que não foi responsável pelo ocorrido. Mas a ilusão de que temos controle de tudo o que nos ocorre está presente em Cléo. Ela acredita que o seu desejo causou a morte da filha.

Crer em Deus, ou no destino, talvez nada mais seja do que acreditar que, se não nós mesmos, existe algo ou alguém que faz as escolhas que não somos capazes de fazer, ou que não desejamos fazer. É talvez compartilhar a responsabilidade de forjar nossos próprios futuros. Gosto de pensar que a espiritualidade reside no fato de, justamente, não sabermos o que pode acontecer, ainda que se tenha a certeza da morte. E por isso a vida é essencialmente um mistério. A espiritualidade pode ser o que brota quando confrontamos existência e finitude. É o que fazemos com o fato de sabermos a morte mas não termos controle. E o que nos resta a fazer é observar o mundo, sentir o mundo e estarmos presentes, agir a partir dos cenários que vemos e ouvimos.

A construção da imagem em Roma é justamente a materialização desse nosso destino. Os objetos, as coisas e pessoas que fazem parte da nossa realidade são tudo que temos. São nossa matéria de existência. Precisamos estar atentos, precisamos ver sua beleza e quanto elas possuem a mesma importância que nós mesmos. A criação da imagem, a construção do quadro e das sequências em Roma é como num ritual. Há coisas que são verbalizadas e há coisas que não se exprimem pelo verbo, como ocorre na sequência do centro de treinamento. A imagem de Cléo sendo a única, além do Professor Zovek a conseguir ficar imóvel em uma só perna, é uma construção iconográfica.

No seu livro Linguística. Poética. Cinema., o linguista Roman Jacobson diz que na experiência do ritual normalmente há o uso da palavra como elemento constituinte mas há também aquilo que somente é transmitido por atos, pela encenação. Penso que o cinema pode, ao combinar elementos da linguagem verbal e construção de imagens, explorando os domínios da semiótica, atuar como simulacros da experiência ritual. Roma parece adquirir essa função ritual a medida que trata imagem e som como elementos especiais, quase que objetos sagrados que contém em si a aura de seus referenciais reais.

Jacobson diz ainda que o padrão verbal que constitui o ritual é passado de uma geração para outra, ou seja, há o elemento da ancestralidade associado aos códigos da linguagem na experiência ritualística. Vejo, então, a possível leitura de que a questão da ancestralidade é evocada por Cuarón em Roma em dois aspectos. A primeira na escolha da personagem principal. Cléo não é descendente dos europeus colonizadores. Ela representa os povos originários. E essa não é uma escolha aleatória. Cléo tem muito mais a contar a respeito da existência. Cléo representa aqueles que estão, desde muito antes da invasão européia, observando e sentindo aquela terra, aquele pedaço de mundo. Cléo está muito mais presente que Sofia, observa e sente mais que Sofia.

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A segunda questão que vejo é que Roma dialoga com os clássicos do neo-realismo italiano. Como em Umberto D, de Vittorio De Sica, no filme de Cuarón os pequenos acontecimentos são belos e importantes. Aquilo que aparentemente não acrescenta nenhum tipo de informação para a narrativa ganha lugar de destaque. Um breve ato de resistência contra o utilitarismo da linguagem. No filme italiano, coincidentemente, ou não, temos também a personagem que trabalha como empregada doméstica e se surpreende com uma gravidez não planejada.

Cuarón faz um filme de autor, faz referência ao clássico movimento do neo-realismo italiano e trata a linguagem cinematográfica como algo sagrado e precioso. Que precisa ser lembrado e preservado. Ele reconhece e reverencia a história do cinema. Sua própria ancestralidade artística. Aliás, ouso dizer que há em Roma uma aura de agradecimento, o cumprimento de uma promessa.

Inusitado que o longa não tenha tido como principal canal de distribuição as salas de cinema, mas um canal de streaming. Roma, na tela grande deve provocar uma experiência bastante surpreendente. Mas, talvez seja precisamente a melhor maneira de Roma exercer seu potencial ritualístico, produzindo uma experiência puramente cinematográfica em um meio que promove um tipo de fruição audiovisual que faz parecer a experiência da sala escura algo ultrapassada. Roma, nas entrelinhas, nos diz: precisamos estar atentos, precisamos estar presentes, precisamos do cinema.

Yasmin Bidim é mestra em Imagem e Som pela UFSCar. Trabalha como produtora cultural, cineclubista e tutora em educação à distância. Atua como artista visual desde 2012 sob o pseudônimo de VJ Ya b.Dealer. Em 2018 publicou em coautoria  o livro Rota das Raízes: Gastronomia e Cultura no Estado de São Paulo e também integra a antologia Poesia Agora – Primavera 2018, publicada pela Editora Trevo

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