Renata Py: Semitons

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Mãe, preciso sair desse sofá mas a única coisa que eu penso é escrever essa carta. O móvel é o mesmo de quando você ainda vivia aqui, porém hoje está com o couro áspero e alguns rasgos. O prédio está em chamas, literalmente. Já não consigo olhar a boate do outro lado da rua pela janela, existe uma fumaça negra impedindo minha visão. A casa de shows ainda continua no mesmo lugar, com algumas mudanças na fachada.

Lembro de quando espiava você saindo de lá pelas manhãs, por aquele portão de ferro. Sempre me sentia aliviado ao conferir que estava bem, hoje não tenho certeza se você estava tão bem assim. Ao menos sempre sorria. Era no mesmo horário que eu corria para a escola.

Mãe, a casa continua a mesma, o baixo que você me deu ainda está no canto da sala. Porém quebrado, um dia o pai chegou bêbado e tropeçou nele. Reclamou: “Ahhh foda-se, que essa merda não arruíne sua vida também”. Lembro bem dele dizendo isso, com as pupilas dilatadas. No dia seguinte, pegou o baixo com um certo cuidado e notei que estava sentido, ajeitou-o na parede amarela e ali ficou. É sua única lembrança nessa casa. Ele chegou a rosnar algo sobre o desejo de que ninguém nunca tivesse tropeçado em você. Foi uma das poucas vezes que ouvi seu nome aqui em casa.

A fumaça e as sirenes estão me deixando tonto e não sei como vou conseguir acabar essa carta, não consigo sair desse sofá velho. A vizinhança já foi deslocada do prédio, eu não olhei o incêndio, apenas consegui fixar minha atenção na boate, até a fumaça me impedir. A verdade é que nunca consegui me mover daqui. Eu deveria ter te procurado em outras casas de shows, ou em alguma van fedorenta dessas de bandas que as vezes vejo por aí. Mas nunca consegui sair desse sofá e de acompanhar a vida dessa boate.

O pai está deitado no quarto e não sabe o que está acontecendo. Há muito tempo ele não entende de mais nada e meus dias são marcados pelo apitar do maldito relógio, alarmes que me lembram de levar alívio ao velho. Inclusive, agora mesmo, eu precisaria dar os comprimidos para ele.

A única coisa que me vem a mente são os acordes que você me ensinava. Talvez por termos treinado tanto. Lembro-me com tanta ternura de você me contando que gostava dos semitons pois eles causavam um desconforto nas pessoas. Eu sou o contrário, mãe. Nunca gostei de desconfortos. Eu estou enjoado. Sinto meu peito cheio e a vontade de me jogar em seus braços. Eu vou me deitar. Esse sofá era mais macio quando você estava aqui.

Renata Py é publicitária, foi editora-chefe da PUNKnet e locutora na Antena Zero. Trabalhou com jornalismo cultural em veículos como Showlivre e Kultme. Hoje dedica-se apenas à escrita literária. 

Livre Opinião – Ideias em Debate
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