Bruno Brum lança em março ‘Tudo pronto para o fim do mundo’; leia três poemas

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Arte de Paulo Malta e foto de Martin Parr

Tudo pronto para o fim do mundo (Editora 34), quarto livro do poeta mineiro Bruno Brum, não poderia estar mais em sintonia com os dias atuais. É de um desencanto profundo com as formas assumidas pela vida contemporânea que nascem estes poemas, ainda que perpassados de humor e, por vezes, de uma réstia de lirismo ou ternura.

Iconoclasta, perspicaz, cínica e melancólica, a poesia de Bruno Bruno se move como o personagem de seu “Porcossauro”, misto de porco e dinossauro que vagueia, cabisbaixo e pensativo, por um mundo em vias de extinção: “Não há para onde ir, conclui, atravessando a rua.”

Nascido em Belo Horizonte, Bruno Brum é designer gráfico. Publicou os livros Mínima ideia (2004), Cada (2007) e Mastodontes na sala de espera (2011, vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria Poesia, em 2010). Tem trabalhos publicados em periódicos e antologias no México, na Argentina, no Peru, no Paraguai, na Espanha e nos EUA. Em 2018, a Antônima Cia de Dança apresentou em São Paulo o espetáculo Isso ainda não nos leva a nada, inspirado no livro Mastodontes na sala de espera. Vive em São Paulo desde 2012.

Leia abaixo três poemas da obra:

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Bruno Brum (Foto: Tatiana Perdigão)

 

FELICIDADE ALHEIA

A felicidade alheia me fere.
A felicidade alheia me oprime.
A felicidade alheia me faz pensar em desistir.
Passo horas na internet, investigando até onde vai a brincadeira.
Passo horas sofrendo, lendo posts e mais posts.
Um sofrimento gostoso.
Um sofrimento justo.
Um sofrimento necessário.
Às vezes penso em jogar a toalha,
mas a felicidade alheia me redime,
a felicidade alheia me alimenta,
a felicidade alheia me salva.
Só ela pode me salvar.
Tenho raiva de tudo o que não seja a felicidade alheia.
Tenho muita raiva.
Você não faz ideia.

 

 

DIZEM QUE O MUNDO É UM LUGAR ENGRAÇADO

Eu vi Peter Pan despencar sobre a plateia
durante espetáculo no Teatro Marília.
As crianças, em choque, foram retiradas do local.

Eu vi Magali mijando atrás de uma pilastra
no Parque da Mônica. Por fim, sacudiu o pau,
colocou novamente a máscara e voltou ao trabalho.

Eu vi Beto Carrero e o cavalo Faísca derraparem
na fina camada de areia e saírem pela tangente
naquela tarde no Ginásio do Mineirinho.

Por muitos anos tentei me convencer
de que tudo isso não passou de invenção.
Ainda tenho minhas dúvidas.

 

 

VALDOMIRO E O NADA

Valdomiro toma veneno e não acontece nada.
Toma remédio e não acontece nada.
Toma cachaça e não acontece nada.

Valdomiro abre a janela e não acontece nada.
Inclina o corpo e não acontece nada.
Olha para baixo e não acontece nada.

Até aqui, tudo bem.

Ainda bem que já não pode.
Ainda bem que já não quer.
Ainda bem que já não liga para nada.

Uns acham uma coisa.
Outros acham outra coisa.
Valdomiro não acha nada.

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